A sétima participação de João Rodrigues tem a bandeira como prémio

Velejador madeirense vai para a sétima e última participação nos Jogos Olímpicos, o recorde português absoluto

Aos 44 anos, João Rodrigues, velejador madeirense, natural de Santa Cruz, vai merecer honras de porta-estandarte na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, tornando--se o 24.º atleta português a liderar a comitiva nacional.

Quase um quarto de século após se ter estreado nos Jogos Olímpicos, João Rodrigues, detentor de mais de 50 medalhas internacionais, com títulos de campeão europeu e mundial pelo meio, apresenta-se no Rio "sem pensar em resultados" e sem grande crença de que conseguirá chegar, finalmente, às medalhas olímpicas que lhe foram escapando por entre os dedos.

Ainda assim, João Rodrigues já imortalizou o seu nome na galeria dos porta-estandartes portugueses, 104 anos após Francisco Lázaro - que desfaleceu ao quilómetro 30 da maratona e acabou por morrer, já no hospital, na madrugada seguinte - ter inaugurado as honras nacionais.

Em 1992, então com 20 anos, João Rodrigues rendeu-se à paixão olímpica em Barcelona, após, na cerimónia de abertura, ter visto um atleta irlandês chorar de emoção ao seu lado. O madeirense prometeu a si próprio que, quatro anos depois, estaria em Atlanta. E para se preparar, assim que chegou ao seu apartamento, em Lisboa, guardou a televisão no armário e não o voltou a abrir durante três anos. A vela e os estudos - concluiu o curso de Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico - passaram a ocupar todos os seus dias. O esforço valeu a pena, pois ganhou, nos EUA, um diploma olímpico.

Após ter passado por Sidney, Atenas, Pequim e Londres, João Rodrigues sucede a Telma Monteiro no historial de porta-estandartes nacionais, ao mesmo tempo em que se dedica à função de técnico especialista do Gabinete do Secretário Regional de Educação.

Rodrigues será o quinto velejador a ser porta-estandarte, depois de Joaquim Fiúza (Londres 1948), Bernardo Mendes Almeida (Melbourne 1956), Mário Quina (Roma 1960) e José Quina (México 1968) o terem feito.

Curiosamente, dois dos quatro campeões olímpicos portugueses - Fernanda Ribeiro (1996) e Nelson Évora (2008) - conseguiram chegar à medalha de ouro no ano em que foram porta-estandartes. Mário de Noronha (bronze), Luís Mena e Silva (bronze), Mário Quina (prata) e Carlos Lopes (prata) também subiram ao pódio no ano em que carregaram a bandeira na cerimónia de abertura.

Phelps, Wozniacki, Nadal...

Michael Phelps, o atleta mais medalhado da história dos Jogos Olímpicos, foi o escolhido para porta-estandarte da comitiva dos EUA no Rio. O motivo é o mais óbvio: é o recordista de medalhas de ouro. Alguns países optaram por distinguir tenistas, casos da Dinamarca, que escolheu Caroline Wozniacki, e a Espanha, que optou por Nadal. A China destacou Lei Sheng, campeão olímpico de esgrima, e caberá à velejadora Sofia Bekatorou (Grécia), campeã olímpica em Atenas em 2004, tornar-se a primeira mulher a abrir o Desfile das Nações.

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