Portugal inicia época a perder com as Fiji

Face à exibição produzida e tendo em conta que a seleção nacional, neste seu começo de ciclo, fez jogar 10 estreantes entre os 23 convocados, a derrota desta tarde, no Universitário de Lisboa, por 36-13, frente às poderosas Fiji, só pode ser considerado um bom resultado.

A estreia da equipa técnica liderada por Frederico Sousa (que tal como o adjunto João Uva, tinham alinhado no quinze titular na primeira e única vez que as Fiji jogaram em Portugal, há oito anos) correspondeu igualmente à renovação da equipa nacional, que de início apresentou seis estreantes (quatro outros entrariam ainda na 2.ª parte), o que, face a uma equipa com o poder físico dos fijianos, mostrava ser uma opção arriscada. Mas após 80 minutos de batalha intensa contra gigantescos 'armários', acabou por resultar bem melhor do que se temia, face ao desempenho da maioria dos novatos.

Frente à 13.ª potência mundial (nove posições acima de nós), os Lobos entraram de forma categórica e personalizada, manuseando a bola a seu bel-prazer, notáveis no jogo no solo - até turn-overs foram somando -, e montando inúmeras sequências à mão perante adversários expectantes com o que sairia desse domínio todo. Em termos de perigo não saiu grande coisa, mas nos 20 minutos iniciais, Portugal mandava no jogo e vencia por 3-0, numa penalidade de Pedro Leal (falhara aos 8' uma tão fácil e ainda acertaria no poste uma terceira tentativa em cima do intervalo...).

Só aos 22' Fiji se acercou finalmente da nossa área de 22, mas pouco depois marcaria. O defesa Nagusa teve uma arrancada de 30 metros passando por vários adversários, transmitiu ao seu formação e este deu ao ponta estreante Tikoirotuma (bivencedor do Super 15 pelos Chiefs, não esqueçamos...) que marcou facilmente (7-3).

E se o ensaio inaugural resultou de má defesa, o segundo viria de um desastrado brinde. Luís Salema, que entrara há um minuto rendendo o lesionado abertura Vieira de Almeida, na primeira bola a nível internacional que recebeu, ofertou-a... a um contrário, o logo ao veterano centro Seremaia Bai (campeão francês pelo Castres), que nem agradeceu os 14-3. E devia.

O intervalo chegaria com esse resultado - poderiam ser 9-7 para os Lobos com um pouco de sorte e sem aselhice... - com Leal a falhar a tal penalidade após falta com cartão amarelo para Nagusa, num 1.º tempo em que as Fiji, que só gostam de ter a oval na mão - e como são perigosos com ela, ao bom estilo dos sevens que privilegiam! - mas são displicentes a lutar por ela, só contra-atacaram e dominaram nas mêlées (mesmo perdendo empurravam), obrigando o n.º 8 Vasco Uva, no dia em que igualou Joaquim Ferreira como o jogador português mais internacional de sempre (87 jogos), a fazer uma exibição portentosa para garantir bolas para as nossas cores.

Claro que no 2.º tempo os portugueses acabariam por pagar o preço do intenso combate corpo-a-corpo de pigmeus contra gigantes. E para lá de começarem naturalmente a abrir mais buracos na defesa, em termos de ataque foram praticamente inexistentes, pois só construiriam, e materializariam, uma situação de perigo.

Os homens do Pacífico Sul empurraram então definitivamente o jogo para o nosso meio-campo e mesmo com 14 homens a espaços (também o suplente Rokobaro esteve fora 10', por amarelo), com ensaios do poderoso Napolioni Nalaga (o melhor marcador da última edição da Heineken Cup), do adamastor Nemani Nadolo (o centro, com 1,96 e 125 kg, ultrapassou em velocidade tudo que lhe pareceu pela frente, fazendo três hand-offs pelo meio, até cair na área) e do formação suplente Kenatale, passaram para 31-6. Pelo meio Pipoca converteu uma penalidade.

Mas a seis minutos do final Portugal acreditou que poderia fazer pelo menos um ensaio e conseguiu-o. Tudo começou num alinhamento a cinco metros da linha fijiana ganho imperialmente por Gonçalo Uva (com o ritmo trazido de França, esteve bem nas alturas e no jogo aberto). Depois houve falta fijiana na mêlée (introdução torta), jogada rapidamente por Pinto de Magalhães e num curto corredor, uma bela fixação de Foro libertou o recém-entrado Frederico Oliveira (primeiro jogo da época!) para o seu sexto ensaio internacional e que não mais esquecerá.

Antes do fim o ás dos sevens Levani Botia faria o sexto ensaio fijiano, para os finais 36-13, resultado que não deslustra um duelo entre seleções separadas por nove lugares no ranking mundial, numa exibição bem agradável de Portugal, onde para lá dos manos Uva, há que destacar a grande atuação (mais uma) de Julien Bardy (teve que sair lesionado com uma contusão, mas voltou para o combate sem nunca virar a cara à luta), João Correia e o estreante centro do CDUP, Pedro Ávila (só faz 19 anos para a semana!), que se portou como um veterano de muitas batalhas.

Portugal alinhou e marcou: Pedro Leal (3,3,2); Gonçalo Foro, Pedro Ávila, Miguel Leal (Appleton), Duarte Moreira (Frederico Oliveira, 5); Francisco Vieira de Almeida (Luís Salema), Francisco Pinto de Magalhães; Vasco Uva, Julien Bardy, António Duarte (Fernando Almeida), Gonçalo Uva, Rafael Simões (Rui d'Orey), Bruno Medeiros (João Almeida), João Correia (Francisco Tavares), e Jorge Segurado (Bruno Rocha).

Entretanto a selecção nacional parte já amanhã para o Brasil, onde na sexta-feira defronta a seleção do país irmão, em São Paulo, naquele que será o primeiro jogo de sempre, em râguebi, entre as duas nações.

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