Machado e Gil são exemplo para o País

Vivemos uma semana histórica. Pela primeira vez dois tenistas portugueses aparecem classificados entre os cem primeiros do ranking mundial.

Quando Nuno Marques se tornou no primeiro luso a fazê-lo há uma quinzena de anos foi fruto de um talento anormal.

Todos concordam que, apesar de muito esforço e trabalho, não obstante todos os recordes nacionais que quebrou, Marques ficou aquém da enorme carreira que esteva ao seu alcance.

O caso é bem diferente com Rui Machado, que entrou pela primeira vez no top 100 na passada segunda-feira, para o 95.º lugar, e Frederico Gil, agora 100.º mas 66.º em Maio do ano passado.

Em Frederico Gil sempre se reconheceu espírito de sacrifício, vontade de trabalhar e mais recentemente uma boa leitura táctica do jogo, enquanto Rui Machado tem vindo a ser elogiado pela garra, pela raça, sobressaindo ambos por uma boa condição física quando estão saudáveis.

Frederico e Rui não ouvem avaliações de outros jogadores ou treinadores, prevendo-lhes carrei- ras fulgurantes e feitos homéri-cos, como acontecia com Nuno, mas são eles que têm elevado o ténis português a níveis inéditos.

Costumo contar esta história no Eurosport e já não me lembro se alguma vez a trouxe à baila neste Court Central do DN: Jim Courier, em Roland-Garros, farto de os media elogiarem o jogo fácil do seu compatriota Pete Sampras e qualificarem o seu próprio ténis de esforçado, declarou enfaticamente que há também talento em alguém que se levanta todos os dias de madrugada para trabalhar horas a fio, faça chuva ou sol, frio ou calor, sem se queixar.

Talento não é só manobrar uma raqueta com tal fluidez, naturalidade e estética ao ponto de a transformar na extensão do próprio braço. No atletismo também tivemos talentos diferentes em Fernando Mamede e Carlos Lopes.

Nuno Marques fez-nos sonhar quando o País acreditava caminhar para níveis de vida próximos da média europeia. Mas numa altura em que vivemos a maior cri-se económica da democracia portuguesa, Frederico Gil e Rui Machado são o melhor exemplo de esperança de que com trabalho, perseverança, querer e crer poderemos ser iguais aos melhores do mundo.

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