"Estou dedicada de corpo e alma aos Jogos Olímpicos de 2012"

Dois anos de depressão deixaram a carreira de Vanessa Fernandes em perigo, após a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, em que já não esteve  feliz. O prazer de competir deu lugar ao sacrifício, revela: "Fiz treinos a chorar do princípio ao fim." Mas agora está de volta aos treinos a sério, com um objectivo em mente: o pódio em Londres

Depois de dois anos de ausências, depois de faltar a vários estágios, está decidida a retomar os treinos e as concentrações?

Estou. Se queria ir aos Jogos Olímpicos de 2012 tinha de me decidir agora. Este era o momento para tomar uma decisão, e na minha cabeça está decidido. Vou treinar, recuperar, para estar presente nos Jogos de Londres E não vale a pena andar com rodeios - só posso ir aos Jogos à procura de uma medalha. Esses são os meus objectivos próximos. Nos dois últimos [Atenas 2004 e Pequim 2008] fui oitava e segunda. Portanto, para os próximos não pos-so pensar senão no pódio. Não escondo que essa é a minha meta.

Depois de tanto tempo eclipsada, foi uma decisão difícil?

Passei dois anos terríveis em que estive a recuperar de mim própria. Andei muito confusa, permanentemente desanimada e triste. Agora tomei uma decisão que é irreversível, não há hipótese de voltar atrás. Por várias razões. E uma delas é porque seria uma enorme falta de respeito por todos.

Já não é a primeira vez que o regresso é anunciado sem êxito. O que mudou agora?

Tem de ser agora. Em Novembro, isso ficou claro. Há muita gente que acredita em mim, outra que não acredita, que acha que eu desapareci para sempre. É mentira. Essas pessoas servem-me até para aumentar os níveis de motivação.

Em algum momento destes últimos dois anos, em que, como disse há pouco, "esteve a recuperar de si própria", lhe passou pela cabeça mudar de vida e de profissão?

Não, nunca. No entanto, foram tempos em que me senti bloqueada. Nestes dois anos, aquilo que tanto prazer me dava - correr, nadar, andar de bicicleta - tornou- -se um sacrifício. Perguntei-me muitas vezes porquê.

Má gestão de expectativas, excesso de competição, o que pode explicar o que se passou?

Comecei muito cedo, muito jovem. Fiz muitas provas, se calhar demasiadas provas, fui submetida a um esforço enorme ainda adolescente. Pode ter sido isso, sim. Acredito que o meu caso serviu de exemplo. Noto hoje um comportamento diferente aos atletas mais jovens. Vivem o dia-a-dia de uma maneira mais descontraída.

Esse excesso de competição foi a pensar em patrocínios?

Não, nunca pensei no dinheiro. Dá jeito ter dinheiro, claro, mas nunca corri a pensar no dinheiro.

No meio do atletismo há quem lhe note uma grande fragilidade psicológica e considere que essa foi a base do problema destes últimos tempos...

Se eu fosse frágil, já estava fora disto há muito tempo, podem crer. Não, não sou frágil.

E é a superatleta que muitos disseram que era?

Sempre sorri quando me chamavam superatleta. Não há superatletas. Mas duvido muito de que tenha sido esse pedestal que me afectou, até porque nunca o subi. Sempre competi de acordo com os meus objectivos, a pensar que cada prova seria exactamente aquilo que eu entendesse e não o que os outros queriam. Nunca competi para corresponder ao que os outros pensavam de mim. Foi sempre por mim que eu corri. Agora, uma coisa é certa: a vida é severa. E quanto mais alto nos põe, mais depressa nos deixa cair. Agradeço aos meus pais e a Paulo Cabeças, o meu treinador, terem-me ajudado a levantar. Sem ajuda é muito complicado.

E teve desilusões?

Coisas sem importância. Nessa fase da minha vida, a grande desilusão tinha-a comigo própria. Dois anos sem fazer nada que se visse é muito tempo.

Quando começou essa fase depressiva?

No final de 2007 já não andava bem. Havia um bloqueio, é difícil de explicar.

Bloqueio no treino?

Sim, uma incapacidade para treinar. Quase todos os dias destes últimos dois anos a senti. Até o mais fácil - calçar as sapatilhas e desatar a correr - me custava. Lá corria uns quilómetros, mas a partir de certa altura começava a chorar. E na minha cabeça a mesma pergunta : "Se já fui tão feliz a fazer isto, porque é que agora não consigo? "Fiz treinos de ciclismo a chorar do princípio ao fim. Nunca contei isto, mas conto agora porque penso que pode ser importante para quem chega. É bom que os mais novos saibam que estas coisas podem acontecer a um atleta, por muito que já tenha ganho.

E agora já corre, de novo, a sorrir?

Agora já corro a sorrir.

Ainda sobre estes dois anos. Provavelmente, mudaram em si alguma coisa...

Estou mais tranquila. Recuperei o prazer de treinar. Eu adoro competir e não sei fazê-lo se a competição não trouxer alegria. Não consigo competir quando me sinto vazia. E aprendi muita coisa. Devo dizer que não engordei. Pelo contrário, cresci.

Um exemplo disso...

Dou outro valor a algumas coisas e pessoas. Passei a adolescência a competir. Nem com a minha aparência me preocupava, o que é estranho numa adolescente. Agora vivo mais devagar e olhando para todas as facetas da vida. É evidente que não deixei de ser quem era. Quero voltar a ganhar muita coisa, ou seja, quero ser uma pessoa equilibrada, um misto do que era antes e do que sou agora.

Colocou recentemente a possibilidade de ir viver durante uns tempos para a Austrália e fazer nesse país a preparação para os Jogos Olímpicos. Vai?

É uma ideia antiga. Um dia gostava de treinar na Austrália porque gosto muito daquele país. Nunca se concretizou e talvez nunca se concretize. A ir, iria no próximo mês de Fevereiro, mas, como disse, não há nada de concreto. Além disso, por muito que aquele país me fascine, custa-me muito deixar a família e o meu treinador, que é pessoa mais incrível que eu conheci até hoje.

A determinada altura destes dois anos, o seu treinador afirmou que a Vanessa teria de recomeçar do zero. Tratando-se de uma atleta com o seu currículo, uma medalhada olímpica, tecnicamente a declaração faz sentido?

O que ele quis dizer é que tinha de começar lentamente a correr, a ganhar o prazer de treinar, a motivar--me. Uma coisa é certa: quero voltar a viver certos momentos. Em alguns momentos fui muito feliz.

Quais, por exemplo?

Quando fui campeã do mundo e quando ganhei a primeira Taça do Mundo.

Deixa de lado o momento mais alto da sua carreira, aquele que vale mais do que todas as outras taças e conquista - a medalha de prata olímpica. O momento mais alto da sua carreira foi um momento triste?

Não foi triste, mas aquele não foi dos melhores dias que já tive. Não por ter sido a medalha de prata - é uma medalha olímpica, é uma honra enorme e é o ponto mais alto das carreiras -, mas porque queria ter ganho aquela medalha de outra maneira. Com felicidade. O que me segurou animicamente em 2007 e princípios de 2008 foram os Jogos Olímpicos. Nesse dia não corri por mim, mas pelas pessoas. Houve menos prazer. E quando acabei aquela prova deveria ter sentido mais felicidade. Mas o que eu senti foi, sobretudo, alívio.

Nesse sentido, os próximos Jogos de Londres, em 2012, serão os Jogos da sua vida?

Não sei se vão ser os Jogos da minha vida, mas acredito que vou participar neles de uma maneira diferente da que aconteceu em Pequim. Espero que seja de uma maneira mais feliz.

E depois?

Ainda sou muito nova. Gostava de competir nos de 2012 e 2016 no triatlo. E, depois, participar nos de 2020 na maratona ou no ciclismo e conseguir fazer, nessas modalidades, uma surpresa.

Faria assim cinco Jogos Olímpicos...

Se gerir bem a minha carreira, se tiver ao meu lado as pessoas certas, penso que poderei cumprir esse sonho. É preciso cabeça, trabalho e dedicação.

É atleta do Benfica. Que papel teve o clube na sua recuperação?

Excedeu as minhas expectativas. Têm sido incansáveis, todos, desde o presidente a Ana Oliveira [coordenadora das modalidades]. Te-lefonam, querem saber do que preciso e, sobretudo, preocupam- -se e acreditam em mim. Muito sinceramente não esperava do clube tanto apoio. Agradeço-lhe.

E a federação?

Da federação tive também muito apoio. Ainda agora abriu-me as portas do centro de treinos de Montemor, permitindo-me treinar ali sempre que entenda e precise.

Nesta fase da sua vida, o que gostaria de dizer para fecho da entrevista?

Agradecer ao meu treinador e à minha família. Nas fases piores, o meu pai puxava por mim, mas também sempre me disse que tudo o que eu decidisse fazer da minha vida contaria com o apoio dele. Nunca me pressionou, pe-lo contrário, disse sempre que o mais importante é a felicidade. Quero agradecer o apoio que recebi de muitos portugueses. Nunca pensei receber tantas mensagens de apoio e motivação. A todos quero dizer que estou comprometida de corpo e alma com os Jogos Olímpicos de 2012.

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