"Convém ter medo. É graças a ele que calibramos a aventura"

A última conquista do português foi abrir uma rota nova num pico virgem no Nepal.

Aos 47 anos, João Garcia segue a filosofia de um dos pioneiros do alpinismo, George Mallory, e continua a subir montanhas porque "elas estão lá". A última conquista do português que já subiu aos 14 cumes mais altos do mundo foi abrir uma rota nova num pico virgem no Nepal.

Jaime é o seu mais recente legado no alpinismo. Quem é Jaime?

Antes de mais, deixe-me explicar que o alpinismo, para mim, é explorar. Avançar por sítios onde nunca estivemos e, de preferência, onde nunca ninguém antes esteve. Durante muitos anos escalei, por razões financeiras e de patrocínios, as montanhas mais altas do mundo. Teve de ser. Mas um alpinista que se preze procura sempre abrir vias novas. E o Jaime é isso [uma via nova num pico situado entre o Tawoche e o Cholatse, no Nepal, aberta a 31 de outubro].

E o João e o espanhol Ángel Salamanca, seu companheiro de expedição, resolveram homenagear um amigo falecido, certo?

Sim. Eu estive em Espanha a fazer o curso de 2.º nível técnico-desportivo de média montanha, que permite obter uma cédula de treinador profissional com reconhecimento internacional. E nesse curso tínhamos um colega, o Jaime, com quem criei alguma empatia e que faleceu depois num acidente de esqui. Eu e o Ángel pensamos que seria bonito dar o nome dele a este pico.

Em 2010, quando acabou a sua 14.ª montanha de 8000 metros, completando assim o circuito das montanhas mais altas, disse que ia passar a fazer algo mais comprometido e menos mediático. Tem sido compensador?

Continua a fazer sentido. Claro que os patrocinadores continuam a ser, vá, um mal necessário. Eu não escalo montanhas para aparecer na televisão, mas as pessoas devem perceber que os patrocinadores precisam de exposição para ter retorno. No entanto, neste momento, a economia está em baixa, as empresas estão retraídas e eu, desde 2010, quando fiquei sem o contrato com o BCP, que não consigo arranjar um patrocínio. Por isso tive de reformular a minha vida outra vez. Voltei a ser guia com a Papa Léguas, a levar uns grupos para trekking no Nepal, na América do Sul... e depois já que estou lá faço alguma coisa para mim. Coisas mais técnicas, que obviamente me dão mais gozo.

Mas ser uma das únicas 15 pessoas no mundo que já conseguiram subir as 14 montanhas mais altas sem ajuda de oxigénio artificial não lhe dá crédito suficiente para convencer patrocinadores?

Andei dois anos a tentar e não consigo. Isto está tramado. E depois as empresas pensam que este tipo de patrocínio pode ser mal interpretado. Imagina a EDP, com os portugueses a pagar cada vez mais na fatura ao fim do mês, a resolver dar dinheiro a um tipo para andar a subir montanhas? Ficavam mal vistos. As pessoas só querem saber que a empresa está a gastar um milhão, não querem saber se tem um retorno de dez milhões. E, depois, a um patrocinador o que interessa é a taxa de sucesso comercial da expedição. Por isso, olhe, nesta altura estou a fazer o que fazem muitas famílias portuguesas: mais do que ganhar dinheiro tento gastar pouco, para poder continuar a fazer aquilo de que gosto.

Em 1923, George Mallory dizia que a razão pela qual queria escalar o Evereste era porque ele estava lá. É isso também que o faz continuar a subir montanhas depois de tantos anos e tantos objetivos cumpridos?

É porque elas estão lá, acho que sim. Isto é uma atividade que se entranha. Uma paixão. Demora mais tempo a ganhar experiência do que condição física para se ser um bom alpinista. São precisos pelo menos 10 anos a ganhar experiência no terreno. Por isso, são tantos anos a fazer isto, que se agora fosse dedicar-me à pesca não fazia sentido. Há hoje a obsessão de se fazer muitas coisas, há muitas solicitações de todo o lado, e depois há gente que quer fazer tudo e acaba por não fazer nada bem feito. A montanha para mim é uma paixão e uma profissão, e é a isso que me dedico.

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