Oliveirense, a 'outsider' que faz frente aos grandes nos pavilhões

Clube de Oliveira de Azeméis desafia Benfica e FC Porto no hóquei e no basquetebol, ameaçando um título inédito.

É caso único nos pavilhões nacionais, um clube singular que se consegue intrometer entre os ditos "grandes" em duas das principais modalidades coletivas. Na União Desportiva Oliveirense, hóquei em patins (onde lidera o campeonato nacional, com um ponto de avanço sobre o Benfica e dois sobre o FC Porto) e basquetebol (onde segue em 3.º lugar, a um ponto das águias e três do FC Porto) voam mais alto que o futebol, caído esta época no terceiro escalão. E contam a história de um crescimento sustentado, ainda que com contornos bastante diferentes.

Outsiders sempre existiram nas principais modalidades coletivas, mas a Oliveirense é a única que o consegue, por agora, em dois campos. "Este ano, propusemo-nos estar nas decisões de todas as provas onde estamos inseridos", aponta, ao DN, Tó Neves, treinador da equipa de hóquei em patins - um conjunto histórico que nunca foi campeão, mas somou pódios no campeonato nos últimos 30 anos, ganhou três Taças de Portugal e brilhou nas provas europeias (venceu a Taça CERS em 1997 e foi finalista vencido da Liga Europeia na época passada). "Vamos até onde nos deixarem ir, sabendo que é muito difícil sermos campeões", fixa, por sua vez, Hélder Albergaria, responsável pela secção de basquetebol, que renasceu em 2009, subiu de divisão por três vezes nos quatro anos seguintes e, desde aí, se vem (re)afirmando entre a elite.

O contexto é diferente, mesmo que o cenário seja igual: uma cidade "com uma relação especial com o desporto", como explica Tó Neves. O hóquei investiu para tentar fazer história. "No ano passado, fizemos uma equipa bastante competitiva que conseguiu ir à final da Liga dos Campeões, um feito inédito para o clube. Este ano, renovámos o plantel e não fugimos às responsabilidades. Estamos na decisão do 1.º do campeonato e bem encaminhados para a final four da Liga dos Campeões... Queremos chegar ao final da época e ter influência em todas as decisões", afirma Tó Neves, que comanda, pelo segundo ano consecutivo, o clube de Oliveira de Azeméis.

O técnico, de 50 anos, conhece bem a casa: foi lá que terminou a carreira de jogador, aos 45, e lá regressou após nova passagem pelo FC Porto. "A Oliveirense é um histórico do hóquei. Tem-se afirmado como uma equipa muito competitiva, que aparece logo ali atrás dos grandes. E em dois/três anos deu um crescimento ao plantel que permite andar mais perto deles", descreve. O corolário desse salto foi a chegada à liderança do campeonato, há duas semanas.

Sem comparar orçamentos, Tó Neves elogia o plantel - "desde o primeiro dia mostrou muita vontade e seriedade" -, mas admite que a luta vai durar até à última jornada. "É o campeonato mais competitivo de sempre. Não é por acaso que o consideram o melhor do mundo. Tem quatro equipas a lutar pelo título, incluindo os três grandes do futebol. Nós sabemos que nem tudo se joga com qualidade de jogadores, não temos o mesmo número de adeptos e o nome do clube não pesa o mesmo, mas vamos lutar até ao fim", afiança o técnico.

O basquetebol conta uma história diferente, com um passado similar. "A Oliveirense é um histórico, que nunca foi campeão mas já perdeu algumas finais [quatro, de 1997 a 2003], tem uma Taça de Portugal, uma Supertaça e duas Taças da Liga [Hugo dos Santos]. Em 2006, decidiu fazer uma pausa na modalidade. E, em 2009, quando assumi a secção, começámos do zero com o projeto de a colocar novamente na Liga em quatro anos, trazendo de volta o máximo de atletas formados no clube", recorda Hélder Albergaria, vice-presidente responsável pela secção.

A meta foi alcançada com distinção. "Fizemos algo inédito no básquete português: subimos três vezes em quatro anos. Conseguimos chegar mais cá para cima e revitalizar o básquete na cidade", diz o capitão de equipa, João Abreu - uma das âncoras do projeto. "Quando, em 2009, saí de uma Ovarense campeã e vencedora da Taça, para a 4.ª divisão nacional, muita gente me criticou, mas não me arrependo de nada. Ter possibilidade de contribuir, numa situação de dificuldade, para revitalizar a modalidade num clube que me é muito querido e numa cidade que é especial, significou muito para mim", explica o jogador, de 33 anos, que aproveitou a mudança para preparar o pós-carreira desportiva.

A escalada não parou com o regresso à Liga. No ano passado, a equipa chegou às meias-finais dos play-off, onde vendeu cara a derrota com o Benfica (duelo só decidido na negra). E Helder Albergaria salienta precisamente o carácter sustentado do projeto, que nunca deu passos maiores do que a perna (rejeitando a possibilidade de subir mais cedo, por convite).

"Temos vindo sempre a progredir. Um dos segredos é termos 50% da equipa com atletas formados no clube, o que dá margem financeira para ir buscar estrangeiros, mas sempre com algumas limitações... Este ano, queremos fazer no mínimo igual ao ano passado", fixa o dirigente. "É para continuar, sempre com um crescimento estabilizado", acrescenta João Abreu. A apoiá-los, está a população local, que "já tem nos genes o basquetebol", tal como o hóquei. Muitas vezes, essas modalidades têm mais assistência do que o futebol: afinal, os sonhos de grandeza da Oliveirense passam pelo pavilhão, não pelo estádio.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG