O "velho" Farense está de volta

O gigante algarvio recuperou a credibilidade e a mística ganhou novo alento. Os êxitos na Taça de Portugal e a liderança na Série E do Campeonato de Portugal ajudam à retoma

Catorze vitórias e uma só derrota nos 15 jogos disputados, liderança confortável na Série E do Campeonato de Portugal e presença assegurada nos oitavos de final da Taça de Portugal após superar duas equipas dos escalões superiores: é este o cartão de visita do Sporting Clube Farense, o gigante algarvio que dá mostras de querer, mais uma vez, guindar-se ao plano que ostentou anos a fio e que lhe permite, ainda hoje, ocupar o 14.º lugar no "campeonato dos campeonatos" do futebol português.

Com João Rodrigues a presidir à SAD, Manuel Balela como diretor desportivo e Rui Duarte no comando da equipa, os leões de Faro querem regressar esta época às ligas profissionais, quiçá o único objetivo que norteia clube e adeptos e que leva ao São Luís assistências superiores às de muitos jogos da I Liga.

"O que mudou? Pode dizer-se que houve um maior cuidado na planificação da época e na escolha dos jogadores, já que, na temporada passada, foi tudo feito à última da hora. De resto, a mística está lá, o envolvimento também, mas é óbvio que as pessoas acreditam mais, e, devido ao que estamos a fazer, há uma supermotivação. Os adeptos voltaram a despertar, assistem a bons espetáculos e querem ajudar a devolver o Farense às ligas profissionais", conta Rui Duarte, o jovem técnico (39 anos) que vai na quarta época em Faro, onde terminou a carreira de jogador, depois de ter sido durante uma década a principal referência do vizinho e rival Olhanense. Esta, aliás, é a primeira vez que Rui Duarte assume o cargo de treinador principal desde a ronda inaugural.

Os últimos tempos do Farense têm sido de altos e baixos. Mais "baixos", convenhamos, sobretudo a partir do início do atual século, quando o clube entrou num "período negro", com falta de liquidez, que culminou com descidas consecutivas, até aos Distritais. Houve quem chorasse de vergonha e de tristeza, pensando, certamente, que a presença na final da Taça de Portugal, em 1989/90, e o quinto lugar em 1994/95 e consequente presença na Taça UEFA jamais poderiam ser repetidos. Em 2009, porém, com António Barão na presidência, começam os sinais de retoma, que culminam em 2012/13, com a subida às ligas profissionais e a cidade de corpo e alma ao lado da equipa de futebol. Três anos na II Liga são insuficientes para estabilizar o clube, que volta a descer ao Campeonato de Portugal. Agora, com João Rodrigues (investidor e principal acionista) ao leme da SAD há pouco mais de um ano, está aí um novo ciclo.

"A credibilidade é nesta altura o grande trunfo do Farense. A SAD de João Rodrigues é a responsável pela mudança de opinião das pessoas, que chegaram a duvidar de tudo e de todos. Sentimos problemas até para contratar jogadores. Felizmente, ultrapassou-se esse período de extrema dificuldade e os adeptos voltaram a aproximar-se, fruto da tal credibilidade transmitida pelo presidente da SAD. Há mais organização e todos somos mais responsáveis", assinala Manuel Balela, cuja história desportiva - jogador, treinador, dirigente - se confunde com a do Farense desde a temporada 1969/70.

À procura de um final feliz

"Com esta alma e este carisma, o Farense não pode estar nesta divisão", garante Rui Duarte. Para já, tudo corre de feição, desde os resultados até às condições de trabalho, mas o treinador rejeita todo o tipo de deslumbramento. Após a sua equipa ter eliminado o Leixões (o Estoril também tinha caído no São Luís), falou em meia dúzia de horas para festejar, com o foco já no campeonato e no jogo seguinte. "Isto não pode acabar aqui. Em casa somos fortes e os adeptos fazem do estádio um inferno. A equipa galvaniza-se, mas não há tempo para festejar. Estou 200% focado no objetivo da época", atira, aludindo à subida de divisão.

Manuel Balela reconhece que o critério e o rigor, paulatinamente, ajudam a progredir, rumo ao "final feliz" que todos os farenses desejam. Um trunfo importante, comenta-se também na cidade, é a qualidade do plantel, e, nesse sentido, Rui Duarte mexe nas peças sem alterar a dinâmica. "O grupo é competente e competitivo, mas ainda nem estamos a meio da época, não pode haver euforias. O plantel dá-me totais garantias, até porque foi feito na perspetiva de qualquer jogador poder assumir o lugar de um companheiro que esteja a passar um momento menos bom", diz o técnico, "encantado, orgulhoso e com uma paixão tremenda" por ser treinador do Farense e poder assim retribuir o carinho que lhe tem sido dispensado.

Jogadores como Neca, Jorge Ribeiro -ambos internacionais pela principal seleção portuguesa - , Zambujo e Livramento são a voz da experiência num grupo cuja valia se estende do guarda-redes Hugo Marques aos avançados Irobiso e Fábio Gomes. Por isso, no Campeonato de Portugal, o Farense dispõe de três pontos de avanço na sua série e tem o segundo melhor ataque e a melhor defesa entre as 80 equipas que lutam, nesta primeira fase, pela subida à II Liga. Na sombra, o empresário João Rodrigues, que é o dono da marca de vinhos Couteiro-Mor e tem outros investimentos, prima pela discrição. Recatado, não gosta de falar aos jornalistas, mas acompanha sempre a equipa, reúne-se com os jogadores em pleno relvado antes de um treino, e, nos jogos fora, até se costuma sentar na bancada, junto dos adeptos. É também o primeiro a revelar ambição e crença no regresso do "velho" Farense aos tempos áureos. Como diz Rui Duarte, "esta onda a preto e branco não pode ficar por aqui".

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