O ouro de Zagitova e novo caso de doping: as duas faces da Rússia

Patinadora de 15 anos é a mais jovem campeã destes Jogos e conseguiu o primeiro título para os atletas russos

A graciosidade e a técnica de Alina Zagitova ao som da música do bailado D. Quixote convenceram o júri da patinagem artística a coroá-la como a mais jovem campeã olímpica em PyeongChang, até agora. Com apenas 15 anos e 281 dias, a patinadora de Izhevsk, no Leste da Rússia europeia, é também a terceira atleta mais jovem de sempre a ganhar uma medalha de ouro nos Jogos de Inverno e a primeira a dar um título à comitiva russa que participa nesta edição sob a bandeira neutra do Comité Olímpico Internacional.

Ao 14.º dia dos Jogos Olímpicos de PyeongChang, Alina Zagitova emergiu como um raio de luz num desporto russo que continua a viver ensombrado pela realidade negra do doping. Pouco depois de Zagitova conquistar o ouro da patinagem artística, foi confirmado um segundo controlo positivo a afetar os Atletas Olímpicos da Rússia (OAR, sigla que os identifica nesta edição).

Desta vez, foi Nadezhda Sergeeva, que competiu no bobsleigh, a cair na rede do doping, depois de já Alexander Krushelnitsky ter sido obrigado a devolver a medalha de bronze que tinha ganho no curling misto ao lado da mulher, Anastasia Bryzgalova.

Adolescente a viver um conto de fadas, Alina Zagitova procurou manter-se à margem da polémica que não larga o desporto russo. "Posso por favor não responder a essa pergunta?", escusou-se, perante os jornalistas que queriam saber como é que ela iria sentir-se na cerimónia de pódio, sem poder ouvir o hino russo e com a bandeira olímpica a substituir as cores do seu país.

Momentos antes, Zagitova tinha- -se tornado a segunda patinadora mais nova de sempre a ganhar o ouro na patinagem artística (a norte-americana Tara Lipinski ganhou nos Jogos de Nagano, em 1998, com 15 anos e 255 dias), superando para isso a sua grande referência na modalidade, e colega de treino, Evgenia Medvedeva, invencida nos dois anos anteriores mas que nesta época teve de recuperar de uma fratura no pé direito.

Zagitova e Medvedeva são ambas produto da escola Sambo 70, uma fábrica de campeões de patinagem artística dirigida em Moscovo pela treinadora (e antiga patinadora) Eteri Tutberidze. E se Medvedeva, de 18 anos, arrebatou os títulos europeus e mundiais nas duas anteriores temporadas, nesta época foi o brilho de Zagitova a irromper pelos rinques, no seu primeiro ano como sénior: antes do ouro olímpico, a adolescente russa tinha já vencido o Europeu e a final do Grand Prix.

Entre o arsenal de truques da jovem Alina está aquele que é considerado o elemento mais difícil da atualidade na patinagem feminina: sequência de triplo lutz com triplo loop. E ontem, mais uma vez, combinou a graciosidade com o arrojo técnico para convencer os juízes, apesar de um ligeiro erro na forma como terminou um triplo lutz - que compensou com o maior grau de risco que coloca na segunda parte dos programas, a qual vale mais pontos. Zagitova viu a sua representação de D. Quixote ser pontuada com 156.65 pontos - o mesmo resultado obtido por Medvedeva ao som da música de Anna Karenina -, mantendo a vantagem de 1.31 pontos que obtivera no programa curto, no qual estabeleceu um novo recorde mundial com 82.92 pontos.

"Preciso de algum tempo para perceber que sou campeã olímpica. Sabia que não tinha margem de erro, as minhas mãos estavam a tremer de nervosismo, mas o meu corpo fez tudo aquilo que estava treinado para fazer", reagiu, ainda incrédula, Zagitova, que no início do per- curso na Sambo 70 esteve quase a ser mandada embora por falta de atitude nos treinos, antes de se entregar de corpo e alma a uma última oportunidade dada por Eteri Tutberidze. Agora, é ela a nova estrela da escola de campeãs moscovita.

Readmissão russa em risco

No dia de glória de Alina Zagitova, a Rússia (OAR) viu ainda a equipa masculina de hóquei no gelo apurar-se para a final da competição, na qual vai defrontar a Alemanha, mas o doping de Nadezhda Sergeeva no bobsleigh ensombrou os feitos. A atleta, uma dos 169 russos admitidos nestes Jogos de PyeongChang pelo COI a competir sob bandeira olímpica (devido à suspensão do comité russo, na sequência do escândalo de doping de Estado), acusou o consumo de trimetazidine, estimulante de efeitos semelhantes ao meldonium, a substância detetada no atleta de curling Krushelnitsky e largamente citada no caso que levou à suspensão da Rússia.

Uma mancha mais que pode inviabilizar as esperanças russas em ver o COI levantar a suspensão e permitir que a bandeira da Rússia desfile amanhã na cerimónia de encerramento - decisões que o organismo liderado pelo alemão Thomas Bach tinha programado para hoje.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG