O duelo do meio-dia que pode afastar o Real do título

Separados por 11 pontos à hora do pontapé inicial (12.00), triunfo do Barcelona pode arrumar com o rival em La Liga

Prevê-se que mais de 650 milhões de pessoas em 185 países sigam hoje o grande clássico do futebol espanhol, duelo em hora pouco comum - 12.00 em Portugal, 13.00 no país vizinho. O caso não é para menos: é uma das rivalidades mais ferozes, que transcende o lado desportivo e coloca no mesmo relvado - o do Santiago Bernabéu - os dois jogadores que têm dominado o desporto-rei na última década. Ronaldo e Messi dividiram equitativamente a Bola de Ouro durante este período e estabeleceram uma competição muito particular, que atinge o ponto alto nos confrontos diretos - ainda por cima, chegam a esta altura com 53 golos apontados no ano civil.

O embate de hoje tem uma importância extrema para o Real Madrid, que, depois de prometer uma época arrasadora a abrir - com a conquista das duas Supertaças que disputou, uma delas frente aos blaugrana -, chega a esta partida da 16.ª jornada sem opções: ou ganha ou a revalidação do título não passará de uma miragem.

Os 11 pontos que separam os dois conjuntos não deixam margem de manobra à formação de Zidane. Mesmo considerando que os merengues têm um jogo em atraso por força da participação no Mundial de Clubes (que venceram), a distância é demasiado larga - e mesmo triunfando nas duas partidas, ainda ficará um fosso de cinco pontos e uma viagem a Camp Nou na segunda volta. Por isso, Zidane considerou ontem que "este será o jogo mais difícil da temporada", garantindo que Ronaldo está a 100% e desmentindo qualquer conflito entre o português e o clube.

Já Ernesto Valverde, treinador do Barcelona, confirmou que não haverá guarda de honra ao Real Madrid pela conquista do Mundial de Clubes: "O pasillo perdeu essência. Não vamos fazer nem queria que nos fizessem."

Clássicos de Natal

Desde o primeiro confronto entre as duas equipas no hipódromo da capital espanhola, ainda os merengues não tinham a atual designação (eram apenas o Madrid FC), em 1902 (numa partida a contar para uma Taça da Coroação que os catalães venceram por 3-1, tendo o fundador Joan Gamper assinado um dos golos), apenas por uma vez se encontraram a 23 de dezembro. Foi há dez anos, em Camp Nou, e os madridistas regressaram a casa com uma prenda de Natal, cortesia de Júlio "a Besta" Baptista, aos 36 minutos. Com Rijkaard e Schuster nos bancos, só sobram dois jogadores que participaram nesse encontro nos respetivos plantéis: Andrés Iniesta pelos catalães e Sergio Ramos pelos merengues.

Já os outros clássicos disputados em época natalícia põem as contas em termos de igualdade: a 22 de dezembro de 1935, o Madrid venceu fora por 3-0; a 28 de dezembro de 1969, coube ao Barça triunfar por 1-0; proeza repetida seis anos depois, mas por 2-1.

RONALDO VS MESSI

Pela 34.ª vez na história, Cristiano Ronaldo e Leo Messi vão estar em simultâneo no relvado. Desde 23 de abril de 2008, quando se defrontaram na primeira mão das meias-finais da Liga dos Campeões, que os dois melhores jogadores da atualidade mantêm uma rivalidade que até se tem tornado saudável - pelo menos, a aparentar pela forma como ambos se comportam quando se cruzam nas galas em que foram colecionando os prémios individuais da última década. Então, em Camp Nou, o craque português ainda vestia a camisola do Manchester United, tendo desperdiçado uma grande penalidade logo a abrir, num jogo que curiosamente terminou empatado sem golos - Frank Rijkaard, o holandês que treinava os culé, até substituiu a então jovem "pulga" aos 62".

Uma semana depois, novo encontro, para a segunda mão, com os ingleses a levar vantagem graças a um golo de Paul Scholes (CR7 ficou-se por um cartão amarelo), seguindo para a final da prova que acabariam por vencer.

Ainda antes de Cristiano trocar a cidade inglesa pela capital espanhola, Messi "abriu o livro" e foi o primeiro a marcar ao terceiro confronto: e que melhor palco do que uma final da Liga dos Campeões? A 27 de maio de 2009, no Olímpico de Roma, o argentino selou o triunfo da sua equipa (2-0) com um grande golo de cabeça, de fazer inveja ao português.

Entretanto, Cristiano Ronaldo mudou-se para Espanha e o número de jogos entre os dois foi subindo substancialmente. Ainda assim, não lhe foi fácil inaugurar a contenda: perdeu os três primeiros clássicos, além de que o Real Madrid ficou sempre em branco (tendo até perdido por cinco na estreia de Mourinho). E foi na seleção, ao fim de sete jogos que CR7 quebrou a malapata. Num particular em Genebra, o capitão português inaugurou o marcador e, apesar da derrota final (1-2, com Messi a fazer o golo decisivo de penálti), abriu-se uma nova era em fevereiro de 2011. No clássico seguinte, empate a um golo, com os dois a marcar de penálti, para quatro dias depois CR7 celebrar em grande graças a um cabeceamento no prolongamento que valeu a vitória nessa Taça do Rei. A partir daí, a luta foi taco a taco até hoje. Os dois golos que Messi ganhou de avanço antes de CR7 "abrir o ketchup" são os que ainda agora separam os dois craques: 20 para o argentino, 18 para o português, o último deles na Supertaça deste ano, antes de ser expulso. Já em termos de vitórias, Messi tem um avanço maior: ganhou 15 vezes, contra dez do seu rival. Hoje voltam a medir forças com o mesmo número de golos neste ano: 53.

OUTROS DUELOS

Navas vs Ter Stegen

Os dois guarda-redes não têm um histórico longo de confrontos: o costa-riquenho Navas vive a sua quarta temporada ao serviço do Real depois de três no modesto Levante, as mesmas que o germânico ostenta como blaugrana, onde chegou oriundo do Borussia Mönchengladbach. No entanto, só na época passada é que Ter Stegen se impôs como titular em Camp Nou, aproveitando a saída do chileno Claudio Bravo para Inglaterra, daí resultando que só defrontou o Real Madrid em quatro ocasiões, das quais ganhou uma (na última Liga, em pleno Bernabéu), empatou outra e perdeu as outras duas já nesta temporada. Nestes confrontos em que ambos os guardiões estiveram em campo, apenas uma vez um deles não sofreu golos: foi Navas, na segunda mão da Supertaça, que terminou com o triunfo merengue por 2-0. Ainda assim, em quatro partidas, o centro-americano encaixou cinco golos do Barcelona - número que sobe bastante se se incluir todos os jogos em que defrontou o Barcelona (19, incluindo sete de uma vez na segunda vez que foi a Camp Nou, e quatro em pleno Bernabéu na sua estreia em clássicos...) -, enquanto o alemão teve de ir oito vezes ao fundo da baliza, à média de dois por jogo.

Sergio Ramos vs Piqué

Formam uma espécie de "queridos inimigos" no futebol espanhol, não só porque representam os dois maiores clubes e rivais do país como pelas posições políticas que defendem. Ainda assim, já jogaram lado a lado, com a mesma camisola (seleção espanhola), em 79 partidas, tendo sido campeões da Europa e do mundo. Em lados distintos do campo, Ramos e Piqué também contam com uma longa história, até ao momento favorável ao catalão com nome de... estádio merengue (é verdade, a sua mãe passou-lhe o apelido Bernabéu): são 27 encontros, com o antigo jogador do Sevilha a vencer apenas oito, enquanto Piqué celebrou em 14 ocasiões, quase o dobro. Mesmo assim, Ramos leva a melhor no número de golos apontados em partidas com os dois em campo (3-2) - ambos deixaram essa marca no primeiro clássico em que se defrontaram, embora o blaugrana tenha tido mais motivos para sorrir (6-2 no Bernabéu, em 2009). Dois anos antes, tinham-se encontrado pela primeira vez, mas Piqué ainda jogava no Saragoça cedido pelo Manchester United: a partida no La Romareda terminou empatada a dois golos (bisaram Diego Milito e Van Nistelrooij) e ambos viram o cartão amarelo.

Benzema vs Suárez

Na teoria deviam ser os goleadores de Real Madrid e Barcelona, mas na prática acumulam a função com o apoio que dão às grandes estrelas dos rivais espanhóis. A primeira vez que se cruzaram num relvado foi em 2008, num particular entre a França e o Uruguai que terminou com um empate sem golos. Dois anos depois, voltaram a encontrar-se na Liga dos Campeões, quando o dianteiro sul-americano ainda representava o Ajax - já a atuar em Madrid, onde chegou oriundo de Lyon, Benzema não só levou a melhor no jogo (4-0), como ainda abriu o marcador aos 36 minutos a passe de Özil, com CR7 a bisar perto do fim. Com ambos a jogar em Espanha, o que se verificou a partir de 2014, há registos de mais oito encontros entre ambos, com o gaulês a somar um melhor registo total: cinco triunfos contra três de Suárez e dois empates. Mas o sul-americano também deixou a sua marca nos clássicos, com quatro remates certeiros - Benzema, entretanto, marcou três vezes, pelo que neste jogo de avançados terminam empatados (4-4). Curiosamente, o primeiro que Suárez marcou foi num triunfo por 2-1 em março de 2015, com o outro golo a pertencer a Jérémy Mathieu, atualmente no Sporting.

Zidane vs Valverde

Praticamente dois anos depois de ter sido nomeado técnico do Real Madrid, Zidane chega a este clássico com um lote incrível de troféus conquistados e uma grande vantagem no duelo direto com Ernesto Valverde, que vive a sua primeira temporada como técnico blaugrana (clube que representou também como jogador, entre 1988 e 1990, e onde venceu uma Taça das Taças e uma Taça do Rei). Em cinco jogos que ambos se defrontaram no banco, o francês venceu todos, três deles ao Athletic Bilbao e dois ao Barcelona, com uma vantagem de 13-5 em golos. Tudo começou numa partida entre os merengues e os bascos a contar para a Liga espanhola de 2015--16, a 13 de fevereiro do ano passado no Bernabéu, que a equipa da casa venceu por 4-2, com Cristiano Ronaldo a bisar. Na temporada seguinte, Zizou voltou a levar a melhor nos dois encontros do campeonato (ambos por 2-1), o mesmo acontecendo nesta época na Supertaça, uma vez que o Real bateu o Barça por 3-1 e 2-0 e conquistou o troféu. Ainda assim, como jogador, o treinador madridista foi derrotado duas vezes por Valverde técnico do Athletic, tendo apenas ganho uma, numa primeira vez em que ambos estiveram no mesmo estádio (em 2003, 3-0 no Bernabéu).

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