O alerta de Machado numa Liga que "marcha no sentido errado"

Só centralização dos direitos de TV pode diminuir o fosso entre clubes. A culpa é dos "pequenos", diz Guilherme Aguiar

"O futebol português é como o soldado que vai na parada com o passo errado mas pensa que todos os outros é que vão mal. Na Europa, todos têm direitos televisivos centralizados e uma divisão mais equilibrada [dessas receitas] por todos os clubes. Em Portugal, continuamos a marcha no sentido errado", descreve, ao DN, Manuel Machado. A imagem é o último contributo do técnico do Moreirense para a discussão que lançou anteontem, sobre a desigualdade entre os meios ao dispor dos "três grandes" e dos restantes clubes da I Liga. "O fosso sempre existiu, vai continuar a existir", e a culpa é, em grande parte, dos "pequenos" - que não conseguiram forçar a mudança (a negociação e venda em bloco dos direitos de TV), apontam, por sua vez, os ex-dirigentes Augusto Inácio e José Guilherme Aguiar e o presidente do Paços de Ferreira, Paulo Menezes.

Manuel Machado pôs o dedo na ferida após a pesada derrota do Moreirense com o FC Porto (3-0) - "ou se promove o equilíbrio ou esta desigualdade vai acabar com o futebol; só importam os "três grandes", o resto é carne para canhão". Ontem, não quis "acrescentar mais ao que foi dito". Mas a parábola do soldado desalinhado também serve de imagem de uma Liga onde não marcham todos para o mesmo lado: é muito por causa dessa falta de união entre clubes que se mantém uma disparidade que já não é nova, notam as outras personalidades do futebol nacional ouvidas pelo DN.

"Este fosso sempre existiu. Antes era pela diferença nas metodologias de treino existentes nos grandes, agora é pela qualidade técnica dos jogadores que têm ao dispor", explica Augusto Inácio, comentador televisivo, antigo treinador do Moreirense e ex-dirigente do Sporting. "Não concordo que que este ano [a discrepância] seja maior. Todos os anos aparecem equipas mais fracas e outras mais fortes, é cíclico. E este fosse vai continuar a existir", afirma.

O líder do Paços de Ferreira - um dos clubes que, apesar das limitações financeiras, têm conseguido intrometer-se entre os "grandes" (foi 3.º na I Liga em 2012/13) - revê-se no diagnóstico de Manuel Machado. "Há quatro clubes a um nível diferenciado e os outros estão num patamar inferior, tanto nas condições económicas como na projeção na comunicação social", descreve Paulo Menezes. "O problema é cultural. Enquanto não houver quem regule estas situações, a nível de direiitos televisivos e não só, o problema não se vai resolver", acrescenta.

"São subservientes aos grandes"

Embora a desigualdade seja eterna (os 83 títulos dos "três grandes" em 85 edições do campeonato nacional falam por si), a última esperança de aproximação dos "pequenos" gorou-se com o fracasso da tentativa de negociação centralizada dos direitos televisivos, através da Liga de clubes. "Os clubes "pequenos" têm razão, é grande a diferença de orçamentos. Mas a culpa é toda deles, quando podiam ter votado a centralização dos direitos televisivos, obrigando a uma distribuição mais equilibrada das receitas entre todos, não o fizeram. Cada um negociou para o seu próprio umbigo. Agora, a Liga nada pode fazer", afirma José Guilherme Aguiar, antigo dirigente do FC Porto e da Liga.

As alianças e rivalidades no seio da Liga mexem nestas contas. "Se um dos grandes, como o Benfica, tivesse aceitado, o acordo global podia ter avançado; ao sair ficou esfrangalhado", diz Augusto Inácio. "Na I Liga, todos temos votos iguais mas há clubes que são subservientes aos grandes, há uma vassalagem que não faz sentido mas que se tem visto nas Assembleias-Gerais da Liga", anui Paulo Menezes.

Ora, enquanto não houver centralização dos direitos de TV, "vai continuar tudo na mesma", sentencia Inácio. Mas será essa centralização a panaceia para todos os males? Depende dos moldes. Paulo Menezes diz que um modelo misto como o espanhol - que favorece Barcelona e Real Madrid mas distribui uma fatia do bolo de forma mais equilibrada, tendo em conta as classificações das épocas anteriores - "nada resolveria".

Ainda assim, Augusto Inácio garante que "o nível competitivo e a qualidade do futebol" praticado poderiam melhorar. E José Guilherme Aguiar recorda os exemplos recentes dos títulos de Montpellier (em França) e Leicester (Inglaterra). "Sabe qual é a diferença desses campeonatos? Os direitos centralizados", sublinha.

Seja como for, o grito de alerta dos "pequenos" faz-se ouvir. "Caso contrário", vamos continuar "a ter quatro ou cinco clubes em Portugal com 40 ou 50 jogadores nos quadros e os outros a terem de se sujeitar aos empréstimos dos ditos grandes ou à entrada de investidores que apenas se preocupam com lucros e resultados", sentencia Paulo Menezes. O aviso está dado.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG