No dérbi ganha quem está pior? Não é regra, mas acontece muito

João Tomás e Carlos Xavier contam como é estar atrás na tabela e acabar a vencer o dérbi... mas não acreditam no "mito" criado

"Em jogo está o presente, não o passado", como diz João Tomás. E este encontro é de "maior imprevisibilidade do que qualquer outro", como lembra Carlos Xavier. Os ex-futebolistas de Benfica e Sporting (respetivamente) sabem bem que nos dérbis entre águias e leões - como o de hoje à noite - ganha muitas vezes a equipa que está pior na classificação. Não é a regra, mas acontece com bastante frequência.

João Tomás ajudou a adiar a festa do título do Sporting, em maio de 2000 (0-1, na 33.ª jornada de 1999/00), e bisou diante dos arquirrivais, na despedida de Mourinho do Benfica, no dezembro seguinte (3-0, na 13.ª jornada de 2000/01). Carlos Xavier tirou o campeonato ao emblema da águia, em abril de 1986 (1-2, na 29.ª jornada de 1985/86). E estes foram apenas três dos 45 dérbis - de 166 realizados desde 1934/15 - em que a equipa mais mal classificada no campeonato levou a melhor. O Benfica venceu 24, o Sporting 21.

Não é um mito que no clássico muitas vezes ganha quem está pior - mesmo que a realidade mostre também que quem estava melhor venceu num número maior de ocasiões (64). No fundo, a classificação e os resultados até ao dia do dérbi pouco influenciam o resultado final, concluem João Tomás e Carlos Xavier - crentes de que acontecerá o mesmo, esta noite, na Luz (onde o Sporting chega com três pontos de avanço sobre o Benfica).

"Não acredito muito nessas análises [de que ganha quem está pior], mas também não acredito que, neste caso, uma das equipas esteja melhor do que a outra. Há apenas uma diferença de três pontos e o resultado não será decisivo para o campeonato", aponta, ao DN, João Tomás. "Um dérbi é sempre um jogo de resultado imprevisível, que é vivido com um estado de espírito diferente. Neste caso, o Benfica sabe que não pode perder, depois de ter ficado de fora das outras competições todas, enquanto o Sporting entra mais tranquilo", descreve Carlos Xavier.

Para ambos, não há sobranceria (de quem parte como favorito) nem descontração (de quem entra mais mal classificado e, por vezes, sem tanta pressão aos ombros) que justifiquem diretamente tantos triunfos de quem chega pior ao dérbi. "Não há sobranceria. Estes são jogos especiais, que ninguém gosta de perder. Ganha quem lida melhor com as emoções", nota João Tomás. E, seja qual for a posição da equipa, "há sempre aquele gosto de ganhar ao rival", afirma Carlos Xavier.

O avançado esteve lá numa dessas vitórias capazes de animar um triste final de época para o Benfica. Em 1999/00, em 3.º e com menos 11 pontos, os encarnados impediram que os verde e brancos fizessem a festa antecipada do regresso aos títulos, 18 anos depois: ganharam em Alvalade, 0-1, na penúltima jornada, com um golo de Sabry, de livre direto, aos 88". "Fui eu que sofri a falta. São momentos que ficam marcados", recorda João Tomás, que tinha entrado em campo três minutos antes.

Desde que as vitórias valem três pontos, esse foi o jogo em que o Benfica contrariou uma maior desvantagem pontual no clássico - em 1957/58, com a vitória a valer dois pontos e nove de atraso em relação ao emblema leonino, venceu-o por 2-0. Contudo, João Tomás (que jogou de águia ao peito em 2000 e 2001) viveu uma situação ainda mais especial em 2000/01: chegado do clássico em 6.º, a cinco pontos do Sporting (4.º), o emblema encarnado venceu por 3-0, no jogo que marcou a despedida do treinador José Mourinho. O avançado bisou (o outro golo foi de Van Hooijdonk). "Foi um jogo supermarcante na minha carreira. Só consegui participar a custo, pois vinha de uma série muito boa mas lesionei-me a 10 ou 15 dias do dérbi. Foi algo extraordinário, num antigo Estádio da Luz completamente cheio", conta.

Ora, também foi num Estádio da Luz lotado que Carlos Xavier viveu as emoções do dérbi de 1985/86, quando o Sporting - 3.º, a cinco pontos de distância - foi bater o líder Benfica (1-2, golos de Morato, Manuel Fernandes e Manniche), abrindo caminho à ultrapassagem do FC Porto, que se sagraria campeão, uma jornada depois. "Foi um balde de água fria para eles. Não queríamos ter o papel de "cabeçudos" na festa do Benfica e fizemos um jogo categórico", recorda o antigo médio, que vestiu 12 épocas de verde e branco entre 1980 e 1996).

Já tinha acontecido algo semelhante em 1958/59: também aí os leões (4.º lugar, com dez pontos de atraso) venceram as águias, por 2-0, permitindo que fosse o FC Porto a sagrar-se campeão - apesar de uma polémica arbitragem de Inocêncio Calabote no Benfica-CUF (7-1) da última ronda. Esse foi um dos triunfos leoninos num cenário de maior atraso pontual. O outro, com vitória a valer três pontos, aconteceu em 2011/12: 5.º, à 26.ª jornada, com 12 pontos de atraso para o Benfica, 2.º, o Sporting ganhou por 1-0.

Essa foi também a derradeira ocasião em que, partindo de trás, os leões venceram o dérbi. Já o Benfica fê-lo pela última vez em 2015/16: chegou a Alvalade, à 25.ª jornada, em 2.º lugar com um ponto de atraso, e saiu na frente, com dois de avanço, graças a um golo de Mitroglou(0-1), na primeira época de duelos entre Jorge Jesus e Rui Vitória nestes dérbis. Então, quem estava pior acabou a I Liga como campeão.

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