"Não ligo a essas coisas de ter o maior currículo"

Diogo Carvalho aponta objetivos para os Europeus de piscina longa e para o Rio 2016. E recorda como foi trabalhar com o treinador de Lochte

Qual o significado da medalha de bronze que conquistou nos Europeus de piscina curta (200 metros estilos), em Netanya (Israel), no início do mês?

Foi o fruto do trabalho e da dedicação ao longo destes anos, até porque culminou num recorde nacional [1.53,45 minutos ].

Foi a sua segunda medalha em Europeus de piscina curta (também tinha sido 3.º nos 200 m estilos, na edição anterior, em 2013). Antes, Portugal só tinha outras duas medalhas (ambas ganhas por José Couto, em 1999). É justo dizer-se que o Diogo Carvalho já é um dos dos melhores nadadores portugueses de sempre?

A natação portuguesa tem vindo a evoluir. Já temos marcado presença em várias finais consecutivas em Campeonatos da Europa e Campeonatos do Mundo de piscina curta, e meias-finais em Campeonatos do Mundo de piscina longa, e penso que estamos no bom caminho. Quanto a mim, não ligo muito a essas coisas de ser quem tem o maior currículo, mais finais ou mais medalhas. É a natação portuguesa que está a ganhar mais e mais.

Em Israel até esteve perto de subir mais um degrau e chegar à prata.

O mais difícil foi perceber que tinha perdido o 2.º lugar e não ganho o 3.º. Foi por muito pouco [22 centésimos]. Nós, na prova, não temos perceção de quão perto estamos. Não sabia que tinha ficado tão perto. O alemão [Philip Heintz, que foi 2.º] é muito forte a crawl, era o campeão europeu em título, tinha ficado em 5.º no Campeonato do Mundo do ano passado... tem um currículo estrondoso. Depois de ver as filmagens senti um bocadinho de tristeza, mas passou rapidamente.

Quais são os próximos objetivos?

Em termos individuais, depois dos Nacionais, passam pelo Campeonato da Europa de piscina longa, em maio. E pelos Jogos Olímpicos, em agosto - o meu principal foco.

Nos Europeus até onde é que é possível sonhar?

O primeiro passo será a final. Depois, tudo é possível. Normalmente, os dois primeiros lugares é muito complicado. Principalmente, porque o Laszlo Cseh está a um nível muito superior a qualquer atleta aqui na Europa - é o único que se pode bater com o Michael Phelps e o Ryan Lochte. Depois dele, é uma competição muito renhida, todos podemos ir ao pódio.

E para o Rio 2016 qual é a fasquia?

O objetivo é a participação numa meia-final. Há muitos anos que a natação nacional não chega lá. Já estivemos muitas vezes perto: em 2008 e 2012 fiquei a menos de um décimo desse objetivo [18.º em ambas]. Espero que agora seja de vez.

O Diogo tem 27 anos. Até quando pensa competir: Tóquio 2020?

Temos como objetivo ir a Tóquio... e depois vamos ver. Mas, sim, pretendo fazer mais um ciclo olímpico.

E aí será possível chegar a uma final (algo que Portugal só conseguiu em Los Angeles 1984, com Alexandre Yokochi, nos 200 m bruços)?

Espero que sim. Há um longo caminho a percorrer. Para já temos o objetivo de fazer a meia-final no Rio. Temos tempo para preparar uma final em Tóquio. Quero acreditar nisso.

Além do Diogo Carvalho, o Alexis Santos também tem estado em bom nível internacional e já têm ambos mínimos olímpicos nos 200 m estilos. Vão puxando um pelo outro?

Claro. O Alexis tem sido importantíssimo para manter o nível da competição. Somos grandes amigos - por vezes, ele vem aqui a minha casa passar uns dias e treinamos juntos - e, ao mesmo tempo, somos adversários que se respeitam imenso. Ele faz-me querer manter cada vez melhor a nível nacional. Nem ele nem eu gostamos de perder. Isso faz-nos crescer e amadurecer.

Quais as maiores dificuldades que sentiu para chegar tão longe num país sem tradição na natação?

A maior é a conciliação com os estudos. Neste momento é impossível fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Nós temos boas condições. São estas coisas extranatação que nos deixam distantes dos outros países.

E seu curso de Medicina, na Universidade de Coimbra?

Está completamente em stand by. É impossível conciliar a este nível. Eu treino três vezes por dia (são cinco horas, no total), moro em Aveiro, tenho tudo aqui e é impossível deslocar-me a Coimbra para ir às aulas. O nosso sistema de ensino não permite que assista às aulas em casa... O curso fica para mais tarde.

Em 2014, passou uma temporada a treinar na Universidade da Florida (EUA). Como correu essa experiência e porque voltou para Portugal?

Queria experimentar, ver como seria. Optei por regressar porque sou muito ligado à minha família, à minha cidade e aos meus amigos. Nós tínhamos um grupo de treino espetacular; eles têm as melhores condições que alguma vez vi. Mas na vida nem tudo é desporto. Eu precisava de me sentir bem e feliz.

Como foi trabalhar com o Gregg Troy, que treinou o Ryan Lochte?

Foi ainda melhor do que esperava. Ele sozinho já conquistou mais medalhas do que Portugal, mas não mostra qualquer distanciamento. É uma pessoa que se preocupa muito com os atletas. De vez em quando ainda me manda uns e-mails, a perguntar se está tudo bem. Não tenho palavras para agradecer como me acolheu.

Michael Phelps e Ryan Lochte são duas das suas referências. Ambos passaram por alguns problemas nos últimos anos. Acredita que podem voltar em pleno no Rio 2016?

Não tenho dúvidas. Têm qualidades inatas e vão reaparecer em perfeitas condições para conquistar os objetivos deles.

Phelps e Lochte têm garantido um lugar na história da natação. E o Diogo como espera ser recordado pelos seus pares quando se retirar?

Honestamente, não ando na natação para me fazerem consagrações, festas ou o que seja... A única coisa que gosto é que se sintam bem com aquilo que faço. Gosto que os meus pais, amigos e a natação portuguesa sintam orgulho em mim.

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