"Na Ericeira superei o meu medo, foi um dos maiores mares que surfei"

Entrevista a Camilla Kemp, vencedora do Allianz Ericeira Pro

Camilla Kemp é a surfista que há mais tempo persegue de forma tenaz o título nacional da Liga Meo, com três segundos lugares, superada nessas campanhas por Teresa Bonvalot e Carol Henrique. Neste ano venceu o Allianz Ericeira Pro, etapa inaugural da Liga Meo Surf, em condições que a fazem assumir que "foi mais uma luta contra o mar do que contra as adversárias". Uma das melhores surfistas nacionais também no plano internacional, a local do Guincho foi, em 2016, a primeira portuguesa a alcançar uma final do circuito mundial de qualificação, o Netanya Pro (Israel).

O Ericeira Allianz Pro foi marcado por ondas muito grandes e condições desafiantes. Foi um dos campeonatos mais difíceis da sua carreira?

Um dos mais difíceis não, penso que foi mesmo o mais difícil da minha carreira. O sábado foi um dia bastante longo de competição, que durou até às oito horas da noite, mas que refletiu uma boa opção da organização para tentar contornar o pior momento do mar. Mas, no dia das finais, o mar foi subindo sempre, o que me obrigou até a mudar a prancha que tinha pensado usar. Foi mesmo um dos maiores mares que surfei em competição e acabou por ser mais uma luta contra o mar do que contra as adversárias.

Que tamanho estima que tinham as ondas?

Penso que dois metros e meio a três metros na final, com bombas gigantescas a entrar lá fora.

Foi especialmente gratificante ganhar nessas condições?

Por um lado, sim, foi um desafio e uma oportunidade de competir com pranchas diferentes, condições diferentes, mas a desvantagem foi não haver muitas oportunidades para pontuar. Mas não temos muitos campeonatos com mar tão grande, pelo que encarei esta prova como uma oportunidade.

Uma oportunidade de mostrar que o surf feminino...

... Também aguenta [risos]. E de mostrar a nós próprias que conseguimos surfar nestas condições. Na verdade, não estive muito à vontade e acabei por superar o meu medo, o que é sempre bom.

Começou 2018 da mesma forma como terminou a Liga Meo Surf em 2017, com uma vitória. Um bom prenúncio para o título que tem vindo a perseguir?

É ótimo começar a Liga com uma vitória, mas vejo isto como mais uma etapa, só isso. Quero mostrar o meu surf e fazer pontuações mais altas.

Foi vice-campeã nacional três vezes. O título nacional é uma "besta" para matar?

Sim, o sonho de vencer a Liga está lá sempre. Embora o meu objetivo seja o QS [circuito mundial de qualificação], entro no campeonato com objetivo de ganhar, treinar e manter o ritmo de competição. E é claro que o prize money é importante para nós que viajamos muito e temos muitos gastos para comportar.

O surf feminino continua o parente pobre em Portugal?

De certa forma, sim. Os patrocínios são difíceis e viajar para os QS [etapas do circuito de qualificação mundial] é bastante caro, mas tenho patrocinadores que me ajudam. Dito isto, tudo conta e o prize money da Liga conta muito.

A Camilla constitui, a par de Teresa Bonvalot e Carol Henrique, o trio feminino que domina a Liga Meo. Como descreve cada uma das suas rivais?

Ambas muito boas competidoras e surfistas. São ambas referências. Lá fora tentamos ajudarmo-nos ao máximo, afinal somos portuguesas. E amigas, acima de tudo.

O surf feminino português está perto de ter uma portuguesa no CT [Liga Mundial]?

Penso que sim. Temos três atletas que fazem o QS a tempo inteiro e queremos chegar lá e quebrar a barreira para podermos ter uma portuguesa no CT. Mas para isso precisamos treinar muito.

É muito grande a distância que vos separa das atletas do CT?

Não há grandes diferenças, pelo que temos de acreditar que é possível. Assim que a primeira quebrar essa barreira, as outras vão atrás.

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