SANTIAGO SEGUROLA: Prefiro os japoneses

Pertenço a uma geração que olhou com desconfiança para a tecnologia no futebol. Considerávamo-lo um jogo demasiado telúrico, demasiado tribal e humano, para o deixar nas mãos da electrónica, que sempre foi coisa de japoneses e americanos. Por detrás do chip víamos um mundo terrível, alheio ao futebol, dominado por publicitários e ratos de laboratório. Dizíamos que o árbitro era um mal necessário e olhávamos para o outro lado.

Este Mundial derrotou os nossos princípios. Não se pode viver de costas para a realidade, nem se pode condicionar os jogos por erros que são perfeitamente corrigíveis com a tecnologia actual. A Alemanha beneficiou ontem da incompetência dos ingleses e da falta de jeito do árbitro, que não validou o golo de Lampard num remate que entrou meio metro dentro da baliza. Tinha solução o problema? Sim, e muito simples. Bastava ver na televisão.

O futebol não se ressente por conhecer a verdade, especialmente quando se trata de questões tão objectivas como esta: a bola entrou ou não na baliza. Perde-se menos tempo a sabê-lo do que a resolver os protestos dos jogadores. O ténis, a NFL e a NBA aplicam a tecnologia sem que o espectáculo se tenha ressentido. Concedem um numerus clausus de oportunidades para contestar as decisões polémicas. Os juizes decidem com as imagens na mão e segue-se em frente.

A Alemanha sabe muito bem o que significam erros deste calibre. Perdeu a final de 1966 por um golo que não foi, o famoso remate de Hurst. Naquela época não existiam os meios tecnológicos actuais. Agora há dezenas de câmaras nos estádios e chips que se podem colocar nas bolas. Há soluções simples para os problemas que os árbitros criam, como ocorreu na partida seguinte, o Argentina-México.

O golo ilegal de Tévez evitou um mau bocado aos argentinos, que tinham jogado muito mal até ao tento do Apache. Estava num fora-de-jogo tão clamoroso que confirmou as nossas piores suspeitas. É melhor um pouco de tecnologia japonesa ou americana do que a decepcionante omnipotência dos árbitros.

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