Nem era preciso tanto!

Sete golos, duas bolas nos postes (Ricardo Carvalho, 6, e Cristiano Ronaldo, 70)! Não era preciso tanto! Só era necessário ganhar, jogando bem, à equipa n.º105 do ranking FIFA. Ninguém pedia que se passasse de um jogo nulo (com a Costa do Marfim) para uma goleada histórica, que marca o Mundial até ao momento e praticamente garante a qualificação portuguesa para a fase seguinte. 

Mas o incrível golo de Cristiano Ronaldo, na recta final, exemplifica bem a segunda parte e o resultado: uma coisa feliz, tudo a sair da melhor maneira, os jogadores descontraídos, libertos e finalmente a jogarem futebol de qualidade.

A pressão, no entanto, foi visível durante a primeira metade, e sobretudo até ao golo magnífico com que a dupla mais constante da equipa, Tiago-Meireles, acabou com a ansiedade patente nessa primeira meia hora. Até aí, percebera-se a intenção, mas a Coreia do Norte chegou a incomodar rematando três vezes em dez minutos.

Desta vez o treinador ganhou as apostas que fez: Miguel à direita (mais ofensivo que Paulo Ferreira); Simão em vez de Danny; até a opção por Hugo Almeida rendeu (apesar de Liedson ter provado, de novo, que é letal na área se lhe dão uma oportunidade); e Tiago a fazer a diferença, pelo empenhamento, pelo passe e pelo jogo vertical. Deco não foi lembrado. Tiago protagonizou a melhor exibição portuguesa (dois golos e outras tantas assistências), seguido de perto por Raul Meireles. Neste 4x3x3, tendo em conta o estado físico actual, Tiago é melhor opção do que Deco. Ele e Meireles trabalham na recuperação de bola e são capazes de aparecer na área adversária. Fizeram um jogo quase perfeito.

A análise ao jogo deve incorporar as dificuldades do primeiro tempo. Numa primeira fase, a equipa não conseguiu preencher bem o imenso espaço que ia de um meio-campo ainda muito colado à defesa - passando pelos extremos (Simão e Ronaldo), que desta vez abriram mesmo a frente de ataque - até ao isolado Hugo Almeida. Pedro Mendes não tem a verticalidade de Pepe (se não voltar contra o Brasil poderá perguntar-se o que foi fazer à África do Sul) e os primeiros minutos não soltaram logo Tiago e Meireles. Mas depois disso acontecer, e o passe de Tiago para o primeiro golo foi de grande qualidade e visão, a equipa começou a acalmar e a jogar. Passada a fase de um compreensível tomar de pulso ao jogo, os laterais viram-se a aparecer na frente, Simão e Ronaldo puderam pisar outros terrenos. A equipa passou a ser mais dinâmica, interactiva. Aí começou um outro jogo, aquele em que Portugal aproveitou a enorme diferença de qualidade entre as duas equipas e fez gala de uma eficácia absoluta e pouco habitual no futebol português.

Este jogo teve uma fase derradeira muito importante e bem gerida pelo treinador. Queiroz lançou Veloso, animou Liedson e aproveitou para lembrar a Duda que não está esquecido depois de ter perdido a titularidade de repente para o "intratável" Fábio Coentrão. Do princípio ao fim, o treinador tomou decisões acertadas e sempre norteadas pela ambição de atingir mais. Redimiu--se da péssima entrada em prova, mudou até o discurso. Deve continuar nessa senda, pedir mais e melhor aos jogadores. O objectivo mínimo está quase garantido.

A cereja em cima do bolo foi a inteligência com que Ronaldo resolveu entregar o prémio FIFA, destinado ao "homem do jogo", ao companheiro Tiago. Foi justo (já que o delegado da FIFA não viu bem…) e foi uma atitude de capitão.

Agora segue-se o Brasil e talvez uma rotação de jogadores destinada a começar a preparar os oitavos-de-final. A lição deve contudo ser apreendida: a partir de agora, há que fazer coexistir a necessidade de segurança com a ambição do espectáculo e da vitória. É possível.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG