JOÃO MARCELINO: Uma equipa sob várias suspeitas

Para que não fiquem dúvidas: acredito mais depressa na eventual lesão de Nani do que na possibilidade de esta equipa de Portugal poder ser campeã do mundo ou andar sequer lá perto (e muito gostaria de estar enganado). O futebol não é uma ciência, mas tem mais lógica do que ensinam alguns professores do jogo. Trata-se, sobretudo, de jogadores. E esta é a selecção portuguesa de futebol com menos valores individuais do século XXI. Por consequência, como de resto se viu durante a fase de apuramento, o colectivo é inferior ao que estávamos habituados. Há jogadores, como Deco, que já passaram a melhor fase. O meio-campo é banal. Cristiano Ronaldo é um génio, mas já não tem o apoio da experiência e personalidade de Figo e até perdeu de forma suspeita a companhia do talento emergente de Nani. Há um novo ciclo a iniciar-se e a força do colectivo não emerge de forma a suprir as necessidades evidentes.

Assim sendo, que esperar deste primeiro jogo do Mundial com a Costa do Marfim?

Empenho, sobretudo. A vontade individual que tem faltado tantas vezes durante os últimos dois anos e um sentido de equipa que possa fazer "regressar" Cristiano Ronaldo, aos golos e ao comando do jogo. Não é nada fácil. Uma equipa assim precisaria de ser sólida a defender, ter um meio-campo mais criativo de maneira a libertar o melhor jogador para o ataque à baliza adversária. Não é possível ter Ronaldo em todo o lado e ainda querer que ele marque golos.

Sectorialmente, e na perspectiva da abordagem directa ao jogo, deve dizer-se que na defesa pesa muito a ausência de Bosingwa. Se joga Paulo Ferreira, mais experiente, ou Miguel, mais atacante mas mais vulnerável, é irrelevante. Os dois juntos não fazem um lateral moderno e fiável. Não é por acaso que Queiroz aproveitou a saída do avançado Nani para ir buscar um polivalente defesa-médio (Rúben Amorim) que cobre a teimosia da suspeita aposta em Pepe e a desilusão de Ferreira-Miguel. Na esquerda as coisas são diferentes. Duda é posicionalmente sólido e experiente. Fábio Coentrão tem sangue nas veias. Apesar de tudo, ou seja, apesar das adaptações, há mais garantias desse lado.

Na zona média, se não houver Pepe, como é provável, faltará peso e decisão, mas haverá mais qualidade no primeiro passe com Pedro Mendes. Não é grave. A incógnita chama-se Deco e o rendimento do único "10" é absolutamente decisivo para a equipa. Se ele estiver bem, até porque jogou pouco este ano no Chelsea, a equipa pode ter algumas aspirações. Se Deco estiver como se suspeita, coisa que não se verá apenas num jogo, o conjunto ficará tremendamente debilitado porque Raul Meireles, como já se percebeu no FC Porto pós-Lucho González, pode ser lugar-tenente mas não chega a capitão.

A questão Simão ou Danny (antes da cambalhota suspeita era Simão ou Nani, lembram-se?...) é teórica. Queiroz, como Scolari, prefere garantir em primeiro lugar a coesão defensiva. E, portanto, tal como no basquetebol há o sexto jogador (que é melhor do que os titulares mas traz pontos do banco, como Jamal Crawford em Atlanta ou Ginobili em Santo António) no futebol da selecção seria uma surpresa que o melhor e mais rápido futebol de Danny destronasse a experiência de Simão embora fosse isso que a equipa precisava de facto para melhor enquadrar Liedson. Danny a titular seria um sinal de ambição e justiça face à forma do jogador.

A selecção está assim: uma incógnita sob suspeita. Há muito feeling comercial, poucas certezas futebolísticas. Mas hoje no campo acaba a especulação. Veremos, então, o verdadeiro espaço para o sonho…

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