JOÃO MARCELINO: Objectivo mínimo garantido

Missão cumprida! A selecção portuguesa garantiu o apuramento, e o objectivo mínimo que lhe era exigido para este Campeonato do Mundo, com segurança e sem sofrer qualquer golo, num jogo que revelou a maturidade de Eduardo ao mais alto nível. A equipa tem um guarda- -redes de personalidade, e isso viu--se em dois lances decisivos, um dos quais mesmo à beira do final.

Portugal voltou a jogar com imensas cautelas, mas desta vez compreende-se. O adversário era o Brasil, na memória estavam ainda os traumáticos 2-6 do particular de há ano e meio, e havia um apuramento a ratificar. Mesmo sem Kaká e Robinho, esta equipa de Dunga é um teste duro para qualquer adversário. Por isso, Queiroz fez Portugal assumir uma posição de expectativa. Abdicou do ponta-de-lança fixo, entregou à mobilidade de Cristiano Ronaldo o preenchimento da zona de ataque. Ao mesmo tempo provou que Pepe pode jogar, testou a polivalência de Ricardo Costa e deu uma oportunidade a Duda. E destes três, em resumo, pode dizer--se que Pepe esforçou-se, mas não tem ritmo; que Ricardo Costa cumpriu também porque à sua frente só viu Nilmar sempre desamparado e que Duda, fora de posição (jogou surpreendentemente à direita!, à frente de Ricardo Costa), esteve muito fraco.

O Brasil jogou inclinado para a direita (Maicon e Dani Alves juntos…) e Portugal tentou aproveitar algum adiantamento desse lado. Deve ser essa a explicação para Danny ter jogado à frente de Fábio Coentrão…

Só a entrada de Simão, a render um Duda sem dinâmica nem profundidade, deu alguma agressividade à equipa na segunda parte.

Até ao intervalo, Cristiano Ronaldo jogou muito desamparado. O nosso teórico 4x3x3 foi, de facto, um 4x5x1 ou até, com mais rigor, um 4x1x4x1. Mesmo quando Pepe deu o lugar a Pedro Mendes nada se alterou. A entrada de Veloso só confirmou que o objectivo da selecção portuguesa, sempre com muitos homens atrás da linha da bola (às vezes todos menos Ronaldo…), era acima de tudo segurar o empate.

O Brasil teve muito mais posse de bola, mas a falta de criatividade foi evidente. Com Gilberto Silva, Filipe Melo e Júlio Baptista a pautarem o jogo, a equipa parece uma Alemanha a jogar de amarelo. Não tem nada que ver com a grande criatividade de outras selecções do Brasil do passado e quanto muito é uma versão ainda mais musculada da selecção de Ronaldo e Bebeto que tinha a suportá-la o trabalho de Mauro Silva e… Dunga. A ausência de Kaká e Robinho nota-se demasiado.

O melhor período da equipa nacional aconteceu a meio da segunda parte, com Simão. Meireles e Tiago também apareceram um pouco mais na frente, mas este jogo confirmou que o meio-campo português não é uma oficina de bem trabalhar a bola - é sobretudo um entreposto por onde ela passa, e quanto mais depressa melhor…

O ponto forte de Portugal é, não embandeirando em arco com os 7--0 à equipa n.º 105 do ranking mundial, a organização defensiva. O conjunto mexe-se de forma coerente, é servido por jogadores tacticamente evoluídos. O problema começa com a posse da bola. Faltam soluções. Claro que a equipa "normal", para jogar a partir de agora, há-de ter uma referência fixa na frente (Almeida ou Liedson) e Ronaldo no seu posto, mas não vai poder abdicar de dias de brilhantismo à vez de outros homens. Já foram Tiago e Meireles, é preciso que também sejam Simão e Danny. Caso contrário, como se esperava, a equipa é curta.

Agora abre-se o verdadeiro Mundial: um torneio a eliminar no qual qualquer erro pode ser fatal - e já se percebeu que Queiroz não abdica de jogar a partir de detrás. Isso está certo como princípio, mas Portugal não poderá repetir mais jogos como este. Quem quer ganhar também tem de jogar com avançados. Hugo Almeida e Liedson não podem voltar a ficar sentados, se bem que ontem isso se tenha entendido. A equipa ainda não perdeu, não sofreu um golo, e terá ganho confiança para o estágio seguinte onde também entrará sem mais lesões nem castigos. E onde chegou sem precisar de Deco…

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