JOÃO MARCELINO: O espírito de Queiroz e o papel de Ronaldo

O boletim clínico de Deco, pronunciado de cor pelo treinador, foi peremptório: o médio não joga hoje. E assim sendo, estejamos nós a presenciar mais uma "história da carochinha" ou a testemunhar nova e eficaz oportuna intervenção divina em questões futebolísticas, atrevo-me a dizer: fez-se justiça! Deco não joga no exacto momento em que a equipa vai definir muito do seu futuro nesta fase da competição. E tinha mesmo de ser assim, desculpas à parte. Um treinador não pode ser questionado pelos seus jogadores no momento em que precisa deles, a meio da competição, a meio de um jogo. Aí pede-se solidariedade, empenhamento, esforço, independentemente da estratégia e da liderança serem ou não as melhores. E se o treinador não está para aí virado, a Providência que intervenha. É justo.

Casos à parte, estamos na "hora h" da qualificação. Os crânios FIFA que nos alegraram com a revelação de termos em casa a terceira melhor equipa do mundo são muito explícitos na sua mensagem: vamos jogar com a equipa n.º 105 do mundo! Os norte-coreanos conseguem impor-se ligeiramente à Tailândia e ao Ruanda, mas estão abaixo da Jordânia, do Líbano, do Congo, de Omã, da Síria, do Haiti, e de outras selecções mais fortes que aqui não estão. Por isso, só há um caminho: jogar para ganhar.

Para um desafio deste nível, o fundamental não é a escolha de jogadores - se continua Pedro Mendes ou volta o mais vertical Pepe (justificando a pré-época que o Real Madrid agradecerá a devido tempo); se é Tiago quem surgirá no lugar de Deco; se Simão voltará a ultrapassar Danny; se a ala esquerda pode juntar Fábio Coentrão e Duda para conseguir profundidade; ou, até, se a maior inteligência do jogo de Liedson pode ser posta em causa pelo músculo de Hugo Almeida. Tudo isso são questões interessantes e óptimo pretexto para exercitar feelings e beber umas "minis", mas o fundamental é perceber o que quer o treinador da equipa.

Contra a Costa do Marfim, a táctica teve 50% de segurança, 49% de puro medo e 1% para Cristiano Ronaldo fazer o que quisesse. É preciso inverter isso. Numa competição destas, cuja qualificação tão curta pode ser comparada à dos concursos (saltos e lançamentos) no atletismo, há um momento para perceber e outro para arriscar. A primeira fase já teve um ensaio nulo. Retiradas as devidas e quase unânimes conclusões, o treinador tem de dotar a equipa de um espírito conquistador para os dois que faltam. Não significa isto, é óbvio, que não se jogue sem as necessárias cautelas: posicionamento táctico realista, conhecimento individual do adversário, rotinas colectivas que numa primeira abordagem ao jogo evitem percalços. Mas, depois de ter a bola, a equipa não pode entreter-se a fazer passar o tempo. Tem de ser rápida, agressiva, e os jogadores devem arriscar mais no 1x1 (e não só Ronaldo).

Hoje, não haverá lugar para desculpas. Uma equipa que entrou no Mundial para, no dizer (absolutamente dispensável) do seu treinador, lutar pelo título, por maioria de razões tem de ganhar à Coreia do Norte. Mas, sobretudo, se por um acaso o não conseguir, deve sair do terreno de consciência tranquila depois de 90 minutos de trabalho e divertimento. Às vezes parece que muita gente, e até alguns protagonistas, com o seu ar melodramático, se esquecem disto: de que neste jogo apaixonante a componente lúdica joga um papel importante, às vezes decisivo. É por isso que Cristiano Ronaldo é tão importante para a selecção: ele não tem medo de arriscar. Deve exercer essa influência cada vez mais "lá dentro" e comandar a equipa. Como Figo antes dele.

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