JOÃO MARCELINO: Carta aberta ao seleccionador

A equipa de futebol que o senhor dirige, sem brilho há dois anos, mais uma vez desiludiu. Isso apenas se torna um apaixonante assunto de debate porque essa equipa é nacional e, sendo assim, pertence um pouco a todos aqueles que, como eu, gostam de futebol. Não é ilegal, acredite, nem temos de lhe pedir autorização. Mas não tenho dúvidas, pelo que lhe conheço, de que a esta hora mais uma vez se acha um injustiçado, uma vítima de um edifício futebolístico nacional que não tem por si a veneração de que o senhor se acharia credor depois de ter condescendido a voltar ao convívio desta triste comunidade após inúmeros feitos alcançados no futebol internacional. Passo por cima desse complexo que o faz desconfiar da própria sombra, às vezes até das pessoas com quem trabalha, porque me quero centrar numa mensagem e num pedido.

A mensagem é esta: ninguém lhe debita o empate com a Costa do Marfim. Como este Mundial tem demonstrado, as equipas estão a ficar muito iguais. Já depois do soporífero espectáculo que o senhor produziu e realizou em Port Elizabeth, o Brasil apoquentou-se com a Coreia do Norte. A Espanha perdeu com a Suíça. Antes a Inglaterra empatara com os Estados Unidos, e a Itália, campeã do mundo, com o Paraguai. Não é pelo resultado que se ouviram mais uma vez as críticas. O problema está na forma como esse empate foi conseguido.

A equipa portuguesa, goste ou não o senhor das palavras, actuou de forma cobarde durante demasiado tempo. Se de início se compreenderam as cautelas e alguma tónica na segurança, face à delicadeza do jogo, ao intervalo esse período esgotou-se. A sua equipa não fez nada para ganhar e essa responsabilidade cabe-lhe a si. É por isso que neste momento o senhor ouve tantas críticas.

José Mourinho, antes do Mundial começar, Jorge Jesus, ontem (ao referir-se à dinâmica de jogo de Deco), Manuel José hoje, aqui nas páginas do DN, até lhe fizeram, e fazem, um favor. Disseram coisas simples e verdadeiras. Toda a gente vê. O senhor é que complica colocando à equipa fasquias que ela não pode alcançar a não ser por milagre. Este é o conjunto mais fraco de jogadores da última década. Ricardo Carvalho já o reconheceu sem drama. O seu treinador não pode dizer o mesmo, obviamente, mas escusa de falar em ser campeão mundial. Não conheço ninguém que lhe peça isso, homem! Deixe o ranking do exagero para José Sócrates que, mês sim mês não, nos anuncia o fim da crise económica e social. As pessoas que gostam de futebol e se divertem com estas coisas lúdicas querem é que a equipa seja determinada, solidária, e ambiciosa em cada jogo e actue no limite das suas possibilidades.

Contra a Costa do Marfim, como o senhor bem sabe, apesar das desculpas do costume e das promessas artificiais com que vai perdendo credibilidade, aquilo não foi nada "inteligente". Antes pelo contrário, foi estúpido. Inteligente, e justo, e corajoso, seria o senhor dispensar o Deco que num jogo no Europeu de 2004, com Scolari, acabou a defesa-direito durante quase meia hora e não tugiu nem mugiu. Mas pelos vistos já houve comunicadozinho organizado pelo agenciador de ambos, seu e do Deco, e a afronta vai passar em claro. Sabe qual é problema? É que o senhor é "o professor" para meia dúzia de estagiários de jornalismo e "o Carlos" para quase todos os seus comandados. Olhe que ganharia muito em ser ao contrário…

Há outra coisa que lhe quero dizer, para terminar: quando voltar a falar de Drogba não seja provinciano e pequeno. Deixe o homem jogar e, pelo contrário, dê até os parabéns à FIFA por ser solidária com um atleta que pela sua força de vontade fez os possíveis e impossíveis para representar o seu país. Drogba deve ser apontado como um exemplo e não acredito que nenhum dos jogadores portugueses que o senhor comanda tenha gostado de o ouvir dizer aquilo que disse. Esse país dos instintos primários que bateria palmas ao ouvi--lo criticar a protecção do braço de Drogba e a autorização da FIFA para jogar, ou não existe ou felizmente é ultraminoritário.

Pense grande, s.f.f., e sobretudo contra a Coreia do Norte - é esse o pedido - faça jogar em grande. Arrisque! Faça por ganhar. Peça concentração e segurança, mas exija ambição e coragem. Se Portugal tiver de sair precocemente do Mundial que saia com a consciência tranquila. Dando tudo. Arriscando no limite. O que por aqui se não quer é assistir a mais uma tristeza exibicional e depois no fim vê-lo prometer, sempre sem convicção, de que no próximo (com o Brasil) é que vai ser! Poupe-nos a isso porque nem sempre há uma Bósnia-Herzegovina à nossa espera e uma FIFA a dar uma ajuda: ou já não se lembra da história dos cabeças de série que condicionaram à última da hora o sorteio dos play-off? O senhor sabe isso, eu sei que sabe…

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