Mundial 1938: a ditadura da Itália

Muito contestada pelos adeptos, a ditadura da Itália dominava o futebol mundial

Quatro anos volvidos, a Itália impôs-se (4-2 na final com a Hungria) no Mundial 1938, atribuído à França pelo valoroso trabalho desenvolvido pelo presidente da FIFA Jules Rimet (mentor da prova). Foi uma vitória política em toda a linha para o regime de Benito Mussolini: bons desempenhos dentro do campo contrariavam a ideia generalizada de manipulação de árbitros no Itália 1934. Além de que, nos Jogos Olímpicos de 1936, a azzurra sagrou-se campeã. Fortemente contestada pelos milhares de adeptos, a ditadura da Itália dominava o futebol mundial.

A presença da representante do fascismo italiano (usavam no peito o emblema do molho de lenha atada adotado pelo regime) causou grandes convulsões, numa época em que a o Mundo se preparava para a II Guerra. Já uma tradição nos primórdios, e que foi tendo episódios pelo tempo fora, houve boicotes, sobretudo dos sul-americanos, com Argentina e Uruguai à cabeça contra novo torneio na Europa (beneficiou o Brasil, que foi ao mundial sem disputar qualificação como único país sul-americano). A Espanha ficou retida na Guerra Civil, a Áustria qualificou-se, mas tinha sido entretanto anexada pela Alemanha (acabou por ser convidada a Suécia para o seu lugar), o Egito e o Japão recusaram jogar as eliminatórias e a Inglaterra mantinha a altivez com que ignorava estes torneios (havia um conflito com a FIFA sobre a influência estrangeira no futebol, e também por não querer defrontar equipas de países com os quais manteve guerras - suspendeu a filiação na FIFA entre 1920 e 1946). No meio de tanta ausência, dos 53 países filiados na FIFA, apenas 25 participaram na qualificação de 14 equipas (França, como organizadora, e Itália, como campeã, tiveram entrada direta).

Tal como quatro anos antes, não houve fase de grupos - mas houve participações jamais repetidas de Cuba e as Índias Orientais Holandesas (que ocupavam o território da atual Indonésia). O Brasil, pela primeira vez, apresentava todos os seus melhores jogadores (ao contrário das duas primeiras edições) e era considerado um forte candidato liderado pelo espetacular Leônidas da Silva, o jogador que "patenteou" o remate de bicicleta (e melhor marcador do torneio com 7 golos). Mas a Itália mantinha uma equipa muito competitiva, sob regime militar de Vittorio Pozzo, o treinador-comandante com fortes ligações aos altos quadros do fascismo que deu dois títulos seguidos à Itália (1934 e 1938, o único a consegui-lo no Mundo). E com Silvio Piola, que ainda hoje mantém o recorde de golos na Serie A (274 golos em 23 épocas, entre 1930/53, sem nunca ser campeão... e à frente de Francesco Totti, que em 22 anos pela Roma chegou aos 250). O avançado que somou 30 golos em 34 partidas pela azzurra apontou cinco golos, dois na final com a Hungria.

O episódio mais caricato do torneio que se disputou em 11 estádios franceses entre 4 e 19 de junho aconteceu no dia 12. Quartos-de-final, Paris, França e Itália, equipamentos azuis idênticos. A Itália, em vez do alternativo branco, usou um equipamento preto para sublinhar que, mais do que a equipa de um país, era a equipa de um regime (as camisas negras foram um grupo paramilitar, e posteriormente milícias, de vigilância às ordens de "Il Duce"). A saudação romana foi realizada pelos jogadores (em todos os jogos), que sofreram fortes protestos do público, que continha milhares de italianos exilados em França.

A ditadura venceu e podia ter alargado o seu domínio, não fosse a ​​​​​​​II Guerra interromper o mundial por 12 anos.

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