Mulher, mãe, fisioterapeuta e copiloto. E fez história nos ralis

Aos 10 anos o pai deu-lhe um kartcross, mas Inês só se deixou seduzir pelas corridas quando experimentou ser copiloto, aos 16. Agora, mãe recente, cumpriu o sonho: é campeã nacional de ralis

Ao primeiro contacto telefónico, Inês Ponte pede delicadamente para se ligar mais tarde. Está a meio de uma tarde de trabalho na clínica e tenta compensar a menor atenção dedicada à fisioterapia ao longo de um ano em que acabou de fazer história no automobilismo português.

"Tenho tentado conciliar tudo, não tem sido fácil. Este ano principalmente, com o nacional de ralis e o meu pequenote [o filho, Duarte, nascido no ano passado]. Mas não me vejo a abdicar da fisioterapia, é a minha profissão", explica então mais tarde, ao DN, a primeira mulher campeã nacional de ralis, um título confirmado no fim de semana passado, com a vitória no Rali de Espinho.

Inês Ponte não é bem a versão portuguesa de Michèle Mouton, a lendária piloto francesa que nos anos 1980 andava a bater-se com os homens ao volante dos carros do mundial de ralis. Mas Mouton, hoje dirigente da Federação Internacional do Automóvel, é "uma inspiração", claro. "Mostrou valor num mundo de homens, com resultados." Tal como Inês tem feito.

No entanto, ao contrário de Mouton, Inês Ponte prefere o "lugar do pendura": é copiloto de José Pedro Fonte, com quem fez dupla num Citroën DS3 R5. "Já fiz algumas brincadeiras como piloto, mas não acho piada, não gosto, não tenho jeito... Costumo dizer, a brincar, que um piloto só conduz. E o que me realiza é a diversidade de tarefas que tenho para fazer, desde estudar o terreno a tirar notas, preparar vídeos, etc." Até mudar pneus, "claro".

Um kartcross aos 10 anos

Quem ficou "um pouco triste" com a preferência de Inês foi o pai, Luís, um militar apaixonado pelo desporto automóvel e também ele um ex-piloto, que foi o grande responsável pela ligação da filha, desde bem cedo, ao mundo das corridas. Preferia ter visto Inês a competir ao volante, mas acabou por se render ao talento da navegadora. "Eu comecei quase obrigada. Aos 10 anos tive o meu primeiro kartcross. Tínhamos uma pista de terra à volta de casa e comecei lá a treinar. E aos 13 anos o pai ensinou-me a conduzir num Marbella. Mas na altura não era o que eu mais gostava de fazer", admite Inês Ponte.

Até que, aos 16 anos, deu-se o clique. "Experimentei ser copiloto num carro zero num rali e adorei aquilo. Desde aí que fiquei rendida a este papel", explica. Começou então por coadjuvar o piloto João Pinto, "um piloto muito experiente, que me ensinou quase tudo", lembra, e teve mais alguns líderes de equipa até assumir uma experiência que marcou a paisagem do automobilismo português, em 2006, quando se juntou a Diana Pereira [ex-manequim e mulher do piloto Tiago Monteiro] para uma equipa 100% feminina.

"Foi muito diferente, por vários motivos. Primeiro porque não conhecia a Diana de lado nenhum, depois porque estávamos numa equipa oficial e também porque a Diana não tinha experiência nenhuma de ralis. Mas resultou bem e foi muito giro, fizemos bons resultados e éramos muito apaparicadas na altura", recorda, entre risos.

Apesar de estar integrada num universo predominantemente masculino, Inês Ponte - casada também com um piloto, de todo--o-terreno, Pedro Grancha - acha que o mundo dos ralis já não é tão preconceituoso em relação às mulheres. "Começo a mudar um pouco a minha opinião sobre isso. Toda a gente me trata muito bem, não ouço aqueles comentários machistas que se associam ao mundo automóvel e, felizmente, nunca tive nenhum momento em que me sentisse desrespeitada."

Maternidade não a amoleceu

A maternidade recente também não a fez refrear a paixão pelos ralis. Inês descobriu que estava grávida quando se preparava, no ano passado, para começar o projeto atual com o experiente piloto portuense José Pedro Fontes, na Citroën. Teve de abdicar do primeiro ano, em 2015, e regressou neste ano à estrada, três meses depois de dar à luz o Duarte.

Mas não se deixou amolecer pelo instinto maternal, garante. "Felizmente consigo separar muito bem os papéis. O Duarte não vai às provas, por opção nossa. Fica com o pai ou com os avós. E assim consigo manter a concentração", expõe, admitindo que houve apenas uma vez em que deu por si a pensar no filho após um susto num rali deste ano. "Foi nos Açores, num rali muito sinuoso e em que íamos a arriscar mais. Mas foi a única vez."

De resto, já colecionou alguns acidentes, desde quedas em ravinas a capotamentos, como aquele que a fez partir um pé e uma perna, em 2010, mas nada que a faça repensar a participação nos ralis. Neste ano, mãe, fisioterapeuta e copiloto, Inês Ponte cumpriu então, aos 32 anos, o grande sonho de carreira: sagrar-se campeã nacional. Ser a primeira mulher a consegui-lo é apenas um bónus.

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