Ministério Público admite intervir no caso das apostas

Risco financeiro suspendeu o Feirense-Rio Ave. MP está a recolher elementos e Serviço de Regulação está a averiguar o caso.

O Ministério Público admite instaurar um inquérito na sequência da suspensão do jogo do Placard entre o Feirense e o Rio Ave, disputado na segunda-feira, por parte da Santa Casa da Misericórdia horas antes do início do encontro relativo à 20.ª jornada da I Liga.

Em resposta à agência Lusa, a Procuradoria-Geral da República confirmou que não recebeu "qualquer comunicação relativa a este assunto". Mas adiantou que "o Ministério Público encontra-se a recolher elementos tendo em vista decidir se existe ou não matéria para a instauração de inquérito".

Em causa estará uma aposta de cerca de cem mil euros que fez soar os alarmes no Departamento de Jogos da Santa Casa da Misericórdia (DJSCML) e levou à retirada do jogo das apostas.

Este fluxo anormal levou também o Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos (SRIJ) "a averiguar em detalhe" as apostas do jogo. "O SRIJ está agora a averiguar em detalhe o ocorrido nas apostas efetuadas naquele jogo, tendo inclusive estabelecido contactos com outros reguladores europeus que também alertaram para esta situação", explicou o organismo numa resposta enviada ao DN, confirmando que "tendo tomado conhecimento de suspeitas de irregularidades, previamente à realização do jogo, notificou as entidades exploradoras para retirarem esta competição das respetivas listas de eventos sujeitos a aposta".

Este desafio da 20.ª jornada da Liga tornou-se, assim, o primeiro encontro do escalão principal do futebol português a ser cancelado por uma questão de "risco financeiro". Porém, segundo fontes contactadas pelo DN, o que poderá acontecer, numa situação que só uma investigação das autoridades poderá confirmar, é uma suspeita de branqueamento de capitais, pois os sistemas de monitorização europeus utilizados pelas diversas casas de apostas não terão detetado fluxos anormais de apostas neste desafio que indiciassem um interesse inesperado pelo desempenho das duas equipas.

O "volume atípico de apostas registado e do risco financeiro envolvido" só foi detetado no jogo que depende da DJSCML, tendo, segundo as informações recolhidas, as duas casas com autorização para disponibilizar apostas online - a Betclic e a Bet - decidido retirar o desafio das suas páginas depois de terem sido alertadas para a decisão da dona do Placard. Fizeram-no por precaução, pois não registaram nenhum movimento anormal de apostas nesse encontro.

Em resposta ao DN, o DJSCML confirmou que não alertou as casas de apostas online, frisando que tem autonomia para suspender a aceitação de apostas em qualquer evento. Aliás, adiantou que já o fez "noutros eventos desportivos, de acordo com os parâmetros de análise de risco financeiro que são normalmente executados".

Adiantou igualmente que ainda não tinha tomado qualquer decisão sobre os passos seguintes, nomeadamente se será entregue uma queixa às autoridades para apurar o que pretendia o cidadão que quis fazer a centena de apostas simples e pagar em dinheiro.

CDS quer esclarecimentos

Ontem, o CDS fez saber que quer ouvir na Assembleia da República o responsável do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos. No entanto, esta entidade - que depende do Turismo de Portugal e que ontem não respondeu às questões enviadas pelo DN - não tem jurisdição sobre os jogos que estão na tutela da Santa Casa da Misericórdia.

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