Martha Gens: "Mais do que alarme social é preciso que Estado, Liga, FPF e clubes entrem em cena"

"Forma como o futebol trata os adeptos precisa ser repensada de forma genuína e profunda", segundo a presidente da Associação Portuguesa de Defesa do Adepto (APDA). Advogada lamenta que hoje em dia os adeptos tenham mais deveres que direitos. Legislação e mentalidade arcaicas não ajudam a combater a violência no Desporto.

No espaço de uma semana o futebol português foi abalado por três incidentes a envolver adeptos. Uma criança alegadamente obrigada a ver um jogo em tronco nu em Famalicão, outra a chorar ao colo do pai obrigado a sair do lugar no Estoril-FC Porto e o ataque ao carro da família de Sérgio Conceição. Como presidente da APDA como olha para estes casos?
É preciso apurar factos e não julgar fotografias e momentos. Esses três casos são para as autoridades competentes e espero que vão ao fundo da questão para que consigamos consertar o que está profundamente errado. A forma como o futebol trata os seus adeptos precisa ser repensada de forma genuína e profunda, sem o peso das camisolas que todos vestimos. A APDA não se pronuncia sobre violência quando não sabe a verdade dos factos. Todos queremos que as crianças vivam o futebol de forma saudável porque são elas o futuro do futebol vivido na bancada e por isso o alarme social tocou mais alto. Mas porque não centrar atenções no preço do bilhete para uma criança ir ver um jogo de I Liga?

Estes incidentes são reflexo da sociedade ou de uma microssociedade clubística e futebolística? Afinal o futebol concentra mais de 90% dos incidentes...
Proporcionalmente é normal que haja mais casos no futebol porque agrega a maior parte dos adeptos de bancada... E claro que é um reflexo da sociedade. Se há antropólogos e sociólogos a estudar as questões ligadas aos adeptos é porque é importante enquadrar o adepto social e culturalmente. Os comportamentos são espelho da sociedade, mas o futebol vivido na bancada tem as vicissitudes e ambiente próprios, que precisam do devido enquadramento.

Os adeptos foram identificados. Podem ser multados, impedidos de entrar nos estádios e alvo de processo crime. Chega? É a punir que vamos lá?
Quem causa qualquer incidente nas bancadas em Portugal tem vários tipos de responsabilidade, disciplinar, contraordenacional e em último caso penal. Certamente que os organismos responsáveis vão entrar em cena. Só assim quem prevarica será penalizado, mas para isso é preciso apurar fatos. Mais do que alarme social é preciso que o Estado, as entidades como a Liga e a Federação e os clubes entrem em cena e façam o que é da sua responsabilidade. É preciso atuar de forma preventiva.

O presidente da Liga Pedro Proença e o secretário de Estado João Paulo Correia repudiaram os incidentes, sendo eles alvo de críticas pela precocidade condenatória...
Mais do que afirmações de repúdio temos de perceber se temos o remédio para o mal deste futebol. Todos temos responsabilidades. O Estado enquanto garante desse pelouro deve atuar. Há centenas de incidentes todos os fins de semana nos estádios de norte a sul do país que ninguém quer saber.

E qual é "o mal deste futebol"? O cartão do adepto não era remédio?
Nós condenámos o cartão do adepto à morte. Paz à sua alma, porque não servia o combate à violência como diziam. É uma medida falhada desde os anos 80 em toda a Europa. O que está mal? A mentalidade dos clubes em relação aos adeptos. A imposição diária de regras sobre a postura dos adeptos, subjugando a festa às regras securitárias. Sofrermos com estigmas. Medidas populistas em nome de uma violência que na verdade é questionável. Uma legislação que só cria deveres. Uma polícia com pouca formação para lidar com adeptos e grupos organizados. A falta de hospitalidade como consagra a convenção de St. Dennis.

A APDA já disse isso a quem de direito? Tem sido ouvida e considerada pelas entidades desportivas e legislativas?
Há diálogo com a Liga Portugal e com a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto, mas o problema está numa lei de 2009, farta de levar remendos e sem uma revisão digna, que depois leva a normas e normazinhas ad hoc, que na verdade resultam em situações dúbias e a necessitar de clarificação. E os adeptos andam sempre nisto. A entrada no recinto com uma camisola do clube visitante, uma bandeira ou uma pandeireta, que nada tem de ilegal, depende da interpretação do promotor, da polícia ou de um stewart. Isto é tão mais gravoso do que o que se passou em Famalicão.

Quer dizer que o futebol trata mal os adeptos?
Trata mal e os estádios vazios são exemplo disso. O promotor do evento devia cuidar daquele que é o seu maior ativo - o adepto - e não usá-los como moeda de troca. Temos um modelo arcaico ao nível da mentalidade, mas também legal. É preciso interpretar os artigos da lei em prol dos adeptos e não contra eles. Precisamos que se pare de falar dos adeptos só quando algo de negativo acontece, sabendo nós que o adepto mau prevalece sobre os adeptos bons. Porque não incitar à promoção dos valores do bom adepto? Eles existem em todas as bancadas. Na Alemanha os clubes têm departamentos de adeptos e com direito de voto nas assembleias. Nós ainda vamos demorar muito tempo a chegar aí, mas esse é o caminho e não é preciso ter medo para dar o pontapé de saída.

Os adeptos têm mais deveres que direitos? E que direitos têm afinal?
Quando se criou a APDA achámos crucial criar uma carta de direitos e deveres do adepto, porque a legislação tem mais evidentes os deveres, até o dever de comprar bilhete e não contestar o preço. Hoje tudo ou quase tudo afasta o adepto. O adepto tem direito a quê? Festejar as vitórias e sofrer com as derrotas... E sobretudo estar sujeito a decisões que nunca passam por ele. Quando a parte securitária se sobrepõe à festa e à alegria, eu diria que já se perdeu tudo. É preciso que se perceba que muita gente não vai ao futebol por isso.

isaura.almeida@dn.pt

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