José Mourinho regressa à Serie A: junta-se a fome à vontade de comer

Depois de ter vencido tudo ao serviço do Inter Milão, o treinador português mais titulado de sempre está de regresso a Itália. Vai orientar uma equipa que venceu o último dos seus três títulos de campeão em 2001 e não conquista qualquer troféu desde 2008.

Já terão passado cerca de 11 anos e três meses desde a última vez que José Mourinho orientou uma equipa na liga italiana quando, este domingo, estiver no banco do Estádio Olímpico da capital do país campeão europeu a dar instruções aos jogadores da AS Roma frente à Fiorentina (SportTV3, às 19.45), na partida da primeira jornada da Serie A 2021/22. A estreia oficial do técnico português nos giallorossi deu-se durante a semana, na partida da Liga Conferência Europa frente aos turcos do Trabzonspor, que terminou com uma vitória apertada por 2-1, tal como o adeus ao Inter Milão se dera num jogo europeu, culminado com a conquista da Liga dos Campeões, em Madrid, frente ao Bayern Munique.

No 16 de maio de 2010, em Siena, Mourinho celebrou a segunda conquista consecutiva do título de campeão italiano com um conjunto experiente e de grande qualidade, mas agora a missão é outra: a de construir uma equipa que possa ombrear com as formações do norte, sobretudo Juventus de Cristiano Ronaldo, Inter e AC Milan, na luta por troféus. Uma situação semelhante à que encontrou em Londres quando chegou, pela primeira vez, ao Chelsea, em 2004, para pegar num clube que vencera o seu único título de campeão inglês 50 anos antes e que iniciaria aí um período de ouro com dois triunfos consecutivos na Premier League.

Também a AS Roma está a viver um longo jejum (a última das suas três vitórias na Serie A já tem 20 anos e não ganha qualquer troféu desde a Taça de Itália de 2008) e tem um novo proprietário, o californiano Dan Friedkin, com capacidade financeira para colocar o clube em melhor posição no mapa do futebol italiano. A principal diferença é que, à fome de títulos dos romanos, junta-se agora a vontade de comer de Mourinho: habituado a ganhar em todos os clubes onde passou, o técnico setubalense - que vai ter a ajuda dos compatriotas João Sacramento (adjunto) e Nuno Santos (treinador de guarda-redes), além do general manager Tiago Pinto - chega a Roma sem ter vencido qualquer título no Tottenham (que durante as duas primeiras épocas do contrato ainda lhe vai pagar a maior parte do salário, cerca de nove milhões dos 16 que receberá nesse período).

É verdade que o dono dos Spurs lhe retirou essa possibilidade ao despedi-lo em vésperas da final da Taça da Liga mas, ainda assim, desde 24 de maio de 2017 que Mourinho não levanta um troféu - nessa ocasião, ganhou a Liga Europa pelo Manchester United frente ao Ajax, num conjunto que contava com o arménio Mkhitaryan, avançado que reencontra nesta nova aventura italiana. Nunca, desde que iniciou a carreira de treinador, na qual venceu 25 competições, esteve cinco anos sem celebrar qualquer título.

Ambição com risco

Depois de dois anos sob o comando do também português Paulo Fonseca, nos quais a AS Roma não conseguiu dar o salto desejado, o novo proprietário - detém 86,6 % da società, através do The Friedkin Group, que pagou cerca de 500 milhões ao anterior dono, James Pallotta - justificou a contratação de José Mourinho como "um grande passo na construção de uma cultura de vitória, consistente e de longo prazo no clube". "José é um grande campeão que ganhou troféus a todos os níveis e trará uma liderança excecional e experiência ao nosso ambicioso projeto", disse.

E ambição não deve ser palavra vã para um homem que tem uma fortuna avaliada em 4,1 mil milhões de dólares (3,5 mil milhões de euros), a distribuição exclusiva de carros Toyota em cinco estados norte-americanos e interesses no turismo e na indústria cinematográfica (a empresa Imperative Entretainment produziu "O Quadrado", Palma de Ouro em Cannes, e distribuiu o oscarizado "Parasitas"). Aliás, a paixão pelo cinema e pela aviação permitiu-lhe mesmo ser o duplo de Tom Hardy no filme "Dunquerque", de Christopher Nolan, onde pilotou um Spitfire. Por isso mesmo, foi o próprio presidente a sentar-se aos comandos do avião privado que esteve em Lisboa para apanhar Mourinho com destino a Roma, no início de julho.

Se o técnico de 58 anos ficou impressionado ou não com o novo presidente só o próprio poderá dizer. Mas recebido em euforia pelos adeptos do clube, o mais titulado treinador português da história confirmou estar em sintonia com os seus novos patrões: "Depois de reuniões com os proprietários e Tiago Pinto, percebi imediatamente a extensão das suas ambições para a AS Roma. É a mesma ambição que sempre me motivou e juntos queremos construir um projeto vencedor no decorrer dos próximos anos."

Quatro reforços

Naturalmente, Mourinho tem-se mostrado cauteloso neste início de temporada, sem fazer grandes promessas. A pré-época correu relativamente bem, com um empate frente ao FC Porto e apenas uma derrota a fechar (2-5 perante o Betis, numa partida em que teve três jogadores e o próprio responsável técnico expulsos), e no primeiro encontro oficial as coisas correram da melhor forma com o triunfo no terreno do Trabzonspor.

"Vi uma Roma equilibrada, muito sólida, que sofreu um pouco na segunda parte do ponto de vista físico, mas que foi uma equipa e isso para mim é o mais importante. O sonho dos adeptos em ganhar um troféu é o mesmo dos profissionais do clube, mas no ano passado a Roma terminou a 29 pontos do Inter e longe do quarto lugar. É preciso ir com muita calma", referiu Mourinho no rescaldo do encontro.

Com quatro contratações efetuadas até ao momento, não se pode dizer que existirão grandes mudanças em relação ao ano passado. Chegou o português Rui Patrício para a baliza (que encantara Mourinho num Sporting-Chelsea na Liga dos Campeões), o lateral-esquerdo Viña que jogava (e muito) no Palmeiras de Abel Ferreira, e dois avançados, um com experiência na Serie A (o uzbeque Shomurodov, autor do golo da vitória na quinta-feira) e outro oriundo da Premier League, o jovem Tammy Abraham, que perdeu espaço no Chelsea.

Ainda assim, foram quase 100 milhões (15 deles para pagar Ibañez e Reynolds, que já estavam no clube por empréstimo), confirmando Mourinho como o técnico que mais gastou em contratações no século XXI, segundo o site transfermarkt.com: 1,76 mil milhões de euros em 104 jogadores, à frente de Guardiola que viu os seus clubes investirem 1,59 mil milhões em 67 contratações.
"A direção esteve muito bem no mercado, mas foi algo mais reativo e não planificado como pensávamos, devido à lesão de Spinazzola e à saída de Dzeko. Falta-me qualquer coisa. Nesta época vamos empatar e perder, mas de certeza que jogaremos sempre para ganhar". Para Mourinho, os dados estão lançados. Que comecem os jogos.

dnot@dn.pt

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