Jogou no Benfica e agora treina futebol no país do hóquei no gelo

Armando Sá acabou a carreira em 2010, no Irão, mas foi no Benfica que se destacou - ganhou uma Taça de Portugal ao FC Porto de Mourinho. Atualmente treina os sub-16 dos canadianos do KNSC

Moçambicano de nascimento, português de passaporte e coração, Armando Sá notabilizou-se ao serviço do Sp. Braga e do Benfica. Na Luz, o veloz lateral-direito venceu uma Taça de Portugal, em 2004, sob as ordens de José Antonio Camacho, "um treinador muito honesto, que dizia as coisas na cara", e que um dia lhe disse para não passar o meio-campo... porque não era o Roberto Carlos. Hoje conta isso com a mesma naturalidade com que admite não ter sido o melhor lateral do mundo: "Claro que tinha algum talento [risos] ou não teria chegado onde cheguei só com entrega e profissionalismo. Tive altos e baixos, mas sinto-me um sortudo e um vencedor por ter superado tantas dificuldades e realizado o sonho de ser jogador de futebol."

Armando acabou a carreira em 2010, no Irão, "sem drama ou choque", e, desde então, segue ligado ao futebol. O primeiro projeto foi uma escola de futebol em Lisboa, mas "não correu como esperado" e resolveu dedicar-se "mais a sério" à área do treino. Chegou a orientar a seleção portuguesa de futsal no Europeu para atletas diabéticos, em 2013, e conseguiu um honroso segundo lugar na Croácia.

Nessa altura, o bichinho do treino já estava instalado e resolveu tirar cursos de preparação física e de treinador em Inglaterra, Moçambique, Portugal e Canadá, país onde está a orientar os sub-16 da KNSC (Kleinburg Nobleton Soccer Club), na província de Ontário. "Fui desafiado pelo meu amigo holandês Klerk de Berg, que trabalhou na academia do Ajax e é o diretor do Kleinburg, e pensei "porque não?" Queria dar seguimento à carreira e treinar no Canadá era um desafio interessante e invulgar por ser num país que vive e respira hóquei no gelo", contou ao DN.

Foi em 2016 que o sol e a praia deram lugar à neve e ao gelo. "Treinamos e jogamos muitas vezes no pavilhão e no campo coberto. Fazemos quase um ano de indoor e depois vamos fazer torneios em relva natural. É complicado, mas o país tem condições para o futebol crescer e existe matéria-prima. Na minha equipa tenho dois miúdos que podiam bem jogar no FC Porto, no Benfica ou no Sporting", disse o antigo lateral, confessando ainda que o clima é um problema.

Benfica foi o topo da carreira

Chegou a Portugal aos 12 anos e teve a "sorte" de ir estudar para uma escola onde João Couto dava aulas de Educação Física. Na altura, o atual técnico dos juvenis do Sporting era também treinador na formação do Belenenses e levou-o para o Restelo, onde Armando fez a formação. No último ano foi emprestado ao Vilafranquense, onde jogou com Rui Vitória, atual treinador do Benfica, "um senhor" que lhe deu algumas "lições de humildade". Depois viu-se sem clube e com o serviço militar à porta...

Saído da tropa, decidiu ir com um amigo à procura da sorte em Bragança e ficou logo lá. Seguiu-se o Vila Real, depois o Rio Ave e o Sp. Braga, antes de rumar ao Benfica em 2002, numa transação que incluiu Tiago e Ricardo Rocha e que o apanhou de surpresa. "Quando cheguei à sala de imprensa as primeiras palavras foram "ainda estou abalado". Estava nas nuvens e depois lá disse que queria ser um bom reforço e ajudar o Benfica a ser campeão", recordou.

Não conseguiu ser campeão, mas "roubou" uma Taça de Portugal ao FC Porto de José Mourinho: "Estávamos sob pressão, o Benfica já não vencia a Taça de Portugal há sete anos e ainda por cima íamos jogar com o FC Porto antes da final da Champions - viria a ser campeão europeu dez dias depois, isso assustou-nos um pouco, mas também nos motivou. O Derlei marcou para o FC Porto, que estava melhor no jogo, mas o Fyssas empatou na segunda parte e já no prolongamento o Simão fez o 2-1 que nos deu a Taça e salvou a época."

O sucesso pessoal na Luz acabou por o levar a Espanha, onde jogou no Villarreal (Taça Intertoto) e no Espanyol de Barcelona (Taça do Rei). Foi na Liga espanhola que jogou contra alguns ídolos como Zidane, Messi e Ronaldinho Gaúcho, o que mais admirava. "Sempre que jogava contra o Barcelona era a sombra do Ronaldinho, não o deixava respirar, mas lembro-me de um jogo em que ele se virou para mim e disse "aperta a bota, eu prometo não pedir a bola e fugir [risos]", recordou o ex-jogador de 42 anos, que ainda hoje tem Diego Simeone "atravessado" por causa de um empurrão num Villarreal-Atlético: "Estava a marcar o Ibagaza, fiz uma falta durinha e vi um amarelo, normal... Veio o intervalo e, no túnel, nem percebi que o Simeone vinha como um louco direto a mim, deu-me um empurrão e criou uma confusão do caraças, mas acho que ainda levou uma galheta."

Sete anos depois do fim da carreira e de ter passado por Portugal, Espanha, Inglaterra e Irão, ainda sente saudades da adrenalina dos jogos, mas o facto de se sentir "útil" tem amenizado esse sentimento. "Se te sentes útil aceitas a realidade, que a vida de jogador acabou, e, no meu caso, com muito orgulho na carreira que construi. Quando deixamos o futebol é uma nova vida, ingrata até, porque ninguém nos prepara para a reforma aos trinta e muitos anos. Quando jogas, tens treinadores, empresários, clubes, advogados a aconselhar e, às vezes, a escolher por ti. Depois és tu que tomas a rédea da tua vida e dos teus negócios, e muito jogadores não sabem o que fazer e como fazer", lamentou Armando Sá, que se foi "safando" a investir num ginásio e em imobiliário.

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