Frederico Gil: "Ofereceram-me 300 mil dólares para perder um jogo"

Frederico Gil conta como também foi aliciado. Ténis é o desporto com mais alertas para resultados viciados. Em Portugal não há suspeitas

"Há imensas histórias assim. Eu próprio já recebi várias propostas. Uma vez [em 2010] ofereceram--me 300 mil dólares para perder um jogo da primeira ronda do torneio Challenger de Roma [contra Alessio Di Mauro]". Frederico Gil conta o episódio com a mesma naturalidade com que admite que "isso faz parte" do circuito mundial de ténis. Afinal, mais do que ficar em choque, a modalidade ficou em xeque com a denúncia de que 16 tenistas que ocuparam o top 50 mundial nos últimos dez anos estiveram envolvidos em encontros com resultados combinados. O ténis está no olho de um furacão - motivado pelos negócios das apostas - que abala todas as atividades desportivas, mas ainda tem pouca expressão em Portugal.

"Na última década, 16 jogadores classificados no top 50 foram repetidamente assinalados pela TIU (Unidade de Integridade do Ténis) devido a suspeitas de que estariam a combinar resultados de jogos. Os envolvidos, incluindo vencedores de Grand Slam, foram autorizados a continuar a competir." A denúncia parte de uma investigação conjunta da estação televisiva BBC e do sítio Buzzfeed e - divulgada anteontem à noite - teve impacto imediato (e veio ensombrar o início do Open da Austrália, onde estão a participar oito tenistas suspeitos).

Ténis predomina entre os alertas

O primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, veio exigir que os casos - com ligações a redes de apostas desportivas em Itália e na Rússia - sejam "investigados por autoridades independentes". E a imprensa sueca divulgou uma extensa lista de suspeitos de participar em jogos viciados (BBC e Buzzfeed recusaram revelar o nome dos envolvidos "por não ser possível provar o seu envolvimento sem acesso a comunicações e dados bancários"). Fabio Fognini, Janko Tipsarevic, Ivo Karlovic, Marin Cilic, Viktor Troicki, Agniezska Radwanska, Flavia Pennetta, Maria Kirilenko, Roberta Vinci, Sara Errani e Victoria Azarenka estão entre os visados - na qualidade de vilões ou de vítimas (que não sabiam do "arranjo").

Com o avolumar destes casos, o ténis ficou ainda mais no olho do furacão. Mas a desconfiança sobre a viciação de jogos não é uma novidade. Di-lo Frederico Gil, que só ficou surpreendido pelo número de atletas de topo envolvidos - "são muitos", aponta. E provam-no os números: segundo contas do DN, de 195 alertas lançados pela Agência Europeia de Segurança no Desporto (ESSA), entre janeiro e o fim de setembro de 2015, relacionados com apostas desportivas, quase dois terços (123) referiam-se ao ténis e 45 acabaram remetidos para as autoridades.

Frederico Gil fez o mesmo com a tentativa de aliciamento que recebeu, e rejeitou, em 2010. "Recebi a proposta através das redes sociais, a propor que perdesse esse jogo em Itália, e denunciei o caso à TIU. Aliás, somos obrigados a fazê-lo. Senão podemos ser punidos por omissão", explica ao DN o tenista português, contando que também já soube de casos de rivais que foram aliciados para perder consigo e denunciaram o caso

De resto, o mesmo fizeram outros tenistas, como o n.º 1 mundial, Novak Djokovic (ver fotolegenda, à direita), que ontem se mostrou revoltado com estes episódios, que ameaçam a credibilidade da modalidade. "Para mim, é um crime e não há nenhuma justificação para isso. O desporto não tem espaço para esse tipo de problemas", afirmou o sérvio.

Investir na formação e prevenção

No entanto, o problema dos jogos viciados - para manipulação de apostas desportivas - promete continuar a dar que falar no ténis como noutras modalidades. O futebol é frequentemente visado - foi alvo de 43 alertas da ESSA nos nove primeiros meses de 2015 -, mas também foram reportados casos suspeitos em atividades tão distintas como corridas de galgos (9), snooker ou ténis de mesa (ambos com 5). E os responsáveis encaram as denúncias - que se tornam cada vez mais frequentes - com natural "apreensão".

É o caso do presidente da Confederação do Desporto de Portugal, Carlos Paula Cardoso, que se mostra "muito preocupado" com o assunto, garantindo que está a acompanhar de perto o problema, em coordenação com as instâncias europeias (até porque também lidera a Organização Europeia não Governamental dos Desportos). "Temos de investir na formação - não se pode ganhar a todo o custo - e na prevenção por parte dos clubes e das autoridades", aponta ao DN o dirigente.

Subdesenvolvimento é vantagem

No entanto, Portugal, apesar de alguns casos-alvo de desconfiança no futebol (ver texto à direita), não é dos terrenos mais problemáticos. "Se existirem casos, teremos de arranjar soluções. Mas até aqui não me chegaram ao conhecimento casos de jogos viciados ou algo do género no nosso país", assegura Carlos Paula Cardoso. A isso ajuda o fraco impacto das competições nacionais de outras modalidades (que não o futebol) no mercado de apostas desportivas. "O nosso desporto não está desenvolvido a esse nível. E, neste caso em concreto, não estarmos na primeira linha internacional é uma vantagem", admite o líder da Confederação do Desporto de Portugal.

Ainda assim, podem repetir-se episódios como o de Frederico Gil, entre atletas nacionais que competem em torneios no estrangeiro. "É mais complicado subornar uma equipa de 11 jogadores. Por isso, desportos de combate e outros de um para um, como o ténis, estão mais sujeitos a estas situações", diz Carlos Paula Cardoso. Assim, além de apostar na formação e prevenção, resta esperar que todos reajam como o tenista português: "Viciar um jogo é ridículo. Desporto não é isto."

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