Jogadores estrangeiros contam as diferentes formas de celebrar

Awer Mabil, Jorman Aguilar, Paolo Hurtado e Cristian Arango revelam ao DN as tradições e os costumes natalícios dos seus países

O Natal é tempo de festa e de família para os cristãos, mas é também, no caso do desporto, um momento de pausa para recarregar baterias para o que resta da competição. Que o digam os futebolistas que atuam nos campeonatos nacionais, que têm uma semana sem treinos e com as atenções concentradas nas famílias.

No entanto, esta é uma quadra que tem tradições e modos de viver diferentes, dependendo do ponto do globo onde nasceram. O DN foi procurar saber como é celebrado o Natal por alguns dos estrangeiros que atuam em Portugal. O peruano Paolo Hurtado, o colombiano Cristian Arango, o panamiano Jorman Aguilar e o sul-sudanês Awer Mabil têm alguns pontos em comum no ritual, sobretudo de estar com a família, abrir as prendas à meia-noite, bem como a ceia natalícia, mas há tradições ou hábitos distintos em cada um dos países. Todos eles concordam num aspeto: "É muito diferente da forma como se celebra em Portugal ou na Europa."

A vida como melhor presente

Awer Mabil tem dado nas vistas nesta época no Paços de Ferreira. O extremo nascido há 22 anos no Sudão do Sul tem uma história de vida dramática, tendo fugido da guerra, onde o pai morreu em combate, e passado parte da sua infância num campo de refugiados em Kakuma, no Quénia. Desses tempos tem recordações bem vincadas que partilha com o DN: "Eu e os meus amigos andávamos pelo campo a desejar um bom Natal às pessoas, que em troca nos davam bolos, bebidas e até dinheiro. No dia de Natal vestíamos roupas novas para ficarmos bonitinhos."

Ao contrário do que acontece em Portugal, no Sudão do Sul não há pratos típicos para a consoada ou troca de presentes. "Tínhamos apenas alguns bolos feitos pela nossa mãe e não oferecemos prendas, pois encaramos a vida como uma prenda e agradecemos a Deus por abençoar a nossa família", revela Mabil, lembrando que existe a tradição de "ir à igreja rezar" na noite de Natal, pelo que depois "as crianças vão de porta em porta desejando feliz Natal, recebendo em troca guloseimas".

Os tempos são agora diferentes para Mabil. "Este ano vou passar o Natal à Dinamarca, com a minha namorada e a família dela. Será muito diferente para mim, pois será a primeira vez que passo longe da minha família", refere o jogador pacense, que, quando deixou o campo de refugiados, foi viver para a Austrália, onde ainda está a família.

Festa panamiana na praia
Jorman Aguilar nasceu há 23 anos na cidade do Panamá e está a cumprir a terceira época no futebol português, estando agora no Estoril, depois de ter passado pelo Olhanense. E a primeira coisa que diz ao DN é que o Natal no seu país "é muito diferente".

Desde logo porque as famílias estão reunidas em casa no dia 24 "apenas até à meia-noite", pois a partir dessa hora há todo um mundo de diversões que os espera nas ruas. "Há várias festas pelas ruas, com músicas de Natal, mas também salsa e outros géneros. A diversão está toda ali, pois os bares também estão abertos", conta o extremo do Estoril, que recorda que nesta altura do ano "está calor no Panamá", o que favorece que as famílias festejem a quadra nas ruas.

Antes da diversão, durante o recolhimento em casa, a família junta-se em torno da mesa e da árvore de Natal. "Na ceia, temos como tradição comer arroz de frango ou arroz de guandu [uma leguminosa que se assemelha à ervilha], que é um prato típico panamiano, mas também se come peru assado, presunto e saladas", conta Jorman Aguilar, revelando que a única sobremesa típica da quadra é "um doce de frutas", que na prática é um bolo semelhante ao nosso bolo rei. É já com a barriga cheia que os panamianos abrem as prendas assim que o relógio assinala a meia-noite.

No dia 25 há mais festa, mas o palco é bem diferente. "A família continua junta no dia de Natal, mas a maioria das famílias vão para a praia, onde se juntam também os amigos", conta o futebolista, que sonha em 2018 estar presente no Mundial da Rússia, onde a sua seleção vai estar pela primeira vez.

Contudo, Jorman não poderá viver neste ano a agitação da cidade do Panamá , pois vai passar o Natal à portuguesa. "Vou ficar por cá, com a minha mulher... vai ser mais tranquilo", resumiu.

No Peru come-se... peru

Damos então um pequeno salto até à América do Sul, mais propriamente ao Peru, onde Paolo Hurtado nasceu há 27 anos na cidade de Callao, na costa do Pacífico. O médio do V. Guimarães, onde cumpre a terceira época, depois de ter passado pelo Paços de Ferreira, revelou ao DN que o jantar de Natal no seu país "começa à meia-noite e junta toda a família", sendo também nessa altura que as crianças abrem os presentes.

No Peru a consoada tem como principal prato... "o peru assado no forno, que é comido com salada russa", não havendo grande tradição de doces na sobremesa. "O mais típico é o chocolate quente e o panetone", que é um bolo de origem italiana, com baunilha e frutos secos. A meia-noite é ainda assinalada com a tradição de "brindar com champanhe".

Sem tempo para viajar para o Peru, uma vez que o V. Guimarães jogou neste sábado com o Tondela, Paolo Hurtado fica em Portugal com a mulher e os filhos. "Aqui é bem mais tranquilo, pois as famílias ficam em casa, talvez por causa do frio. Na América do Sul, como é verão, há mais emoção e agitação", sublinha o peruano.

O "amigo secreto" da Colômbia
Aliás, Cristian Arango, colombiano nascido em Medellín há 22 anos, concorda com Hurtado quanto à "maior festa e alegria" na América do Sul em comparação com Portugal. O avançado, que nesta época chegou ao nosso país para representar o Desp. Aves por empréstimo do Benfica, conta ao DN que a troca de prendas é chamada de "amigo secreto" e tem um ritual muito próprio: "Durante a semana que antecede o Natal são oferecidos doces em dois ou três dias diferentes, e no dia de Natal oferece-se a prenda propriamente dita."

É pois uma semana de suspense que culmina com a consoada, que tem como principal atrativo as "comidas típicas" da Colômbia. "Na minha cidade, em Medellín, comemos a bandeja paisa. É um prato que tem muita variedade, mas é muito rico e saboroso", revela. Este prato é composto por arroz, feijão, torresmos, ovo estrelado, carne moída, abacate, plátano, entre outras iguarias.

O jantar para toda a família "é animado com música e toda a gente dança", conta Arango, que também fica em Portugal na quadra natalícia, mas com uma incumbência muito especial: "Tenho muitos amigos colombianos que jogam aqui e vamos reunir-nos todos em minha casa para comemorarmos o Natal todos juntos. Vamos assar carne e ouvir música, será uma celebração colombiana, mas aqui em Portugal."

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