Japão volta a festejar um título de yokozuna, 19 anos depois

Kisenosato Yutaka é o 72.º grande campeão de sumo da história e o primeiro japonês a conquistar esta distinção suprema desde 1998. Um feito que devolve o orgulho ao país do sumo

Tradição milenar com origens ligadas ao culto religioso e espiritual, o sumo foi apadrinhado por imperadores e shoguns [chefes militares] ao longo dos tempos na cultura japonesa e tornou-se o desporto nacional do Japão, único país onde é praticado de forma profissional desde o século XVII. Chegar ao título de yokozuna, ou grande campeão, é uma honra só ao alcance de muito poucos e um dos títulos mais respeitados na sociedade japonesa.

Por isso, o país vivia com alguma inquietação a inexistência de um yokozuna japonês desde que Takanohana Kooji se retirara, em 2003, deixando o título apenas na posse de lutadores (rikishi) mongóis, que neste século começaram a disputar o domínio desta arte de luta. E também por isso o Japão celebrou com pompa e circunstância o feito de Kisenosato Yutaka, que ontem pôs fim a esse hiato inédito, recebendo o título de 72.º yokozuna da história - e o primeiro japonês nos últimos 19 anos a conquistar o estatuto mais desejado. Wakanohana Masaru, em 1998, tinha sido o último lutador nipónico a chegar a yokozuna, retirando-se pouco depois, em 2000, após uma derrota.

Kisenosato, cujo nome real é Yutaka Hagiwara, recebeu agora a honra, três dias depois de vencer o Grande Torneio de Ano Novo, um dos seis grandes torneios organizados pela federação japonesa de sumo (que rege a vertente profissional da modalidade) ao longo do ano. Kisenosato obteve um registo de 14 vitórias e uma derrota ao longo dos 15 dias do torneio, vencendo assim pela primeira vez um dos principais eventos do sumo, aos 30 anos e 73 torneios depois de ter chegado à principal divisão deste desporto, em 2004.

O trajeto de Kisenosato é o mais longo e demorado de sempre para um yokozuna, título que geralmente é atribuído a um lutador que conquista dois grandes torneios consecutivos. Ou então, como aconteceu agora com o lutador natural de Ibaraki, no Norte de Tóquio, a lutadores que vençam um grande torneio e tenham um percurso de mérito reconhecido (ver caixa). Foi esse o entendimento da federação japonesa de sumo, que ontem oficializou a promoção.

A notícia foi celebrada ao mais alto nível. "Muitos japoneses estavam à espera de voltar a ter um yokozuna ", assinalou Koichi Hagiuda, chefe adjunto do primeiro-ministro Shinzo Abe, na conferência de imprensa que anunciou a atribuição do título a Kisenosato, em Tóquio. "Espero que ele dignifique esta honra com o seu carácter e capacidade de forma a ser recordado ao longo da história", acrescentou.

Kisenosato Yutaka prometeu fazer tudo para honrar a distinção. "Aceito-a com toda a humildade e vou dedicar-me a tentar não manchar o nome de yokozuna", disse perante uma sala cheia.

"Um yokozuna" é considerado o homem mais forte e eu vou estar certamente sob o escrutínio dentro e fora dos ringues. Por isso vou fazer tudo para me tornar mais forte ainda e crescer como ser humano", acrescentou Kisenosato, que é agora o quarto lutador no ativo com o título máximo de grande campeão no sumo profissional. Os outros três sãos os mongóis Kakuryuu Rikisaburoo, Harumafuji Koohei e Hakuhoo Sho, numa modalidade que tem visto o interesse acrescido de olutadores de outras geografias, como Bulgária e outros países do Leste Europeu, Brasil ou Havai - foi, aliás, do 50.º estado dos EUA que saiu o primeiro yokozuna não japonês: Akebono Taroo, que ganhou o título em 1993.

No Japão, o sumo tem visto aumentar a concorrência do futebol e do basebol como desportos mais populares e o número de praticantes foi decaindo. Em parte, também devido à dureza de um regime de vida com regras rígidas: os lutadores vivem em quase reclusão, em pequenas comunidades (ou clubes) com regras de conduta próprias, num estilo espartano muito rigoroso, projetado para moldar corpo e espírito.

Na hora da consagração, Kisenosato, o 72.º yokozuna da história, lembrou as palavras do seu mentor, Naruto, que morreu em 2011. "Ele dizia que ser um yokozuna é algo solitário. Vou esforçar-me por perceber o significado disso."

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