Iordanov voltou à casa de partida para reerguer o Lokomotiv Gorna

Antigo avançado trabalha no clube que o lançou para a ribalta - e de onde saiu para o Sporting. "O futebol é a minha vida", diz Iorda, garantindo que mantém o coração em Portugal

Construir uma equipa quase do zero é um desafio mais próprio de um jogo de computador do estilo Football Manager do que da vida real. No entanto, é essa obra que Ivaylo Iordanov tem em mãos desde o verão. O antigo avançado do Sporting voltou à casa da partida - o Lokomotiv Gorna, da 2.ª divisão búlgara -, para tentar ajudar a reerguer o clube de onde se lançou para a ribalta.

"Sou uma espécie de diretor desportivo, mas ajudo no que é preciso. Estou ligado a tudo, seja falar com jogadores, para negociar transferências, ou tratar de outros assuntos do dia-a-dia", descreve, ao DN, Iordanov. O ex-futebolista do Sporting (1991-2001) regressou, 26 anos depois, a Gorna Orjahovica, cidade do Norte da Bulgária, de onde se transferiu para Portugal no verão de 1991. "Os donos do clube estão a tentar todo o possível para subir à 1.ª divisão. Como sabiam que tenho sentimentos pelo Lokomotiv e que poderia aceitar, convidaram-me para este cargo", explica.

A passagem de Iorda pelo Lokomotiv Gorna, de 1989 a 1991, foi breve mas marcante. O humilde clube - que só passou dez épocas na 1.ª divisão, oito delas consecutivas, entre 1987 e 1995 - alcançou a melhor classificação de sempre (8.º lugar, em 1991), ao mesmo tempo que o avançado se sagrava melhor marcador do campeonato e abria as portas da seleção búlgara e da transferência para Portugal. Agora, após um curto retorno à ribalta - esteve na 1.ª divisão em 2016-17 e voltou a cair -, tenta reerguer-se, partindo quase do zero.

"Não é quase, é mesmo do zero", sublinha Iordanov. Após a descida, e tendo de se adaptar a uma nova realidade, o clube viu partir praticamente todos os futebolistas. "Começámos a época com dois jogadores. A adaptação a uma 2.ª divisão é sempre complicada. Mas ainda estamos na luta pela subida (6.º posto, a sete pontos dos lugares de promoção, antes da pausa de inverno)", aponta o antigo futebolista.

Iorda fala com entusiasmo do desafio. Após algum tempo afastado do desporto-rei, está a fazer aquilo de que gosta. "Estive muitos anos fora (após deixar, em 2004, o Sporting B, onde era treinador adjunto), mas nunca saí do futebol. É a única coisa que sei fazer, parece que no meu sangue só corre futebol", nota.

Raízes permanecem em Lisboa

O reencontro com essa paixão deu-se na Bulgária - onde Iordanov já estivera no ano passado, cinco meses como treinador adjunto do Beroe, da 1.ª divisão. Mas o antigo futebolista continua a ter fortes raízes em Portugal: conserva uma casa em Lisboa e é na segunda pátria que recebe acompanhamento médico por causa da esclerose múltipla que lhe foi diagnosticada em 1997 - "a doença está controlada", garante.

Por isso, Iordanov mantém portas abertas para Portugal. "Estou sempre disponível para voltar a trabalhar aí. Portugal é o meu segundo país. Sou do Sporting, mas também sou profissional: posso trabalhar outro clube", afirma.

Ainda assim, as histórias de Iorda e do Sporting estarão para sempre entrelaçadas. Esses dez anos como jogador e três como treinador da equipa B conservam tantas lembranças que o búlgaro não consegue escolher apenas uma. "Desde a primeira vez, quando fui apresentado pelo presidente Sousa Cintra, em Alvalade [durante um meeting internacional de atletismo, onde até se cruzou com Serguei Bubka], até sair do Sporting, são todos momentos especiais para mim. Não posso distinguir um ou outro", explica o antigo futebolista.

O cachecol na estátua do Marquês

Os sucessos - Iordanov conquistou a Taça de Portugal (1994-95), a Supertaça (1995) e o campeonato (1999-00) de leão ao peito - foram "muito marcantes". Até por terem posto fim a longos jejuns do emblema de Alvalade, que não ganhava a Taça há 13 anos (Iordanov bisou na final, frente ao Marítimo, 2-0) e a I Liga há 18 (para a história ficou o momento em que o búlgaro subiu à estátua do Marquês de Pombal, no coração de Lisboa, para lá colocar um cachecol do clube).

Agora, com o emblema leonino sem ser campeão nacional desde 2002, o antigo futebolista só quer que este seja o ano - "independentemente de alguém pôr lá o cachecol ou não". "Espero bem que esta época o Sporting ganhe o campeonato e vou estar lá para festejar", afiança, satisfeito por ver os leões firmes na luta pelo título. "Saí de lá, mas é como se nunca tivesse deixado o Sporting. Vou estar sempre com o clube", sublinha o ex-atleta.

De resto, só há outra camisola com que o antigo avançado foi tão feliz: a da seleção da Bulgária, pela qual fez 50 jogos (três golos) e esteve presente nos Mundiais de 1994 e de 1998 e no Europeu de 1996. Essa geração de ouro, com Stoichkov, Balakov e Kostadinov, que vergou Argentina e Alemanha e chegou ao 4.º lugar nos EUA (1994), ficou na história. "Nas cinco participações anteriores em Campeonatos do Mundo, a Bulgária nunca tinha ganho um jogo. Fomos para lá para conseguir uma vitória... e só parámos contra a Itália, num jogo em que fomos roubados, roubados", recorda Iordanov.

No entanto, desde finais dos anos 90, o futebol búlgaro eclipsou-se de novo - tendo apenas marcado presença numa grande competição (o Euro 2004). "Temos de fazer um restart, investir em infraestruturas e na mudança de mentalidades, como fizeram Portugal, França ou Alemanha", aponta. Ou seja, terão de começar quase do zero - no fundo, como o Lokomotiv Gorna está a fazer, com a ajuda de Iordanov.

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