Xhaka e Shaqiri arriscam ser castigados pela FIFA

Regulamentos são claros quanto a gestos com significado político. FIFA já abriu investigação. Em 2013 o croata Simunic foi suspenso 10 jogos por gesto nazi.

Granit Xhaka e Xherdan Shaqiri podem estar debaixo da alçada disciplinar da FIFA, que já abriu uma investigação por causa do gesto que fizeram após terem marcado os golos da vitória da Suíça frente à Sérvia. Os dois jogadores de origem kosovar imitaram com as mãos a águia da bandeira da Albânia, num gesto simbólico em jeito de contestação pelo facto de os sérvios não reconhecerem a independência do Kosovo.

A Federação Sérvia quer agora que os dois futebolistas sejam castigados, uma vez que os regulamentos da FIFA proíbem claramente qualquer referência de cariz político, gestos ou atos de provocação, ridicularização ou inflamação dos ânimos dentro do campo. Nesse sentido, os sérvios querem que sejam cumpridos os regulamentos, até porque há uns anos alguns adeptos exibiram uma bandeira a dizer "Kosovo é Sérvia".

Ainda para mais há antecedentes que envolveram jogadores. Em 2013 o croata Josip Simunic foi suspenso por dez jogos e multado em 26 mil euros por ter feito uma saudação nazi após a vitória da Croácia frente à Islândia, num jogo de qualificação para o Mundial 2014.

Xhaka e Shaqiri têm sido duramente criticados na Suíça, mas também pela imprensa sérvia, que de uma forma geral considera ter sido uma provocação vergonhosa por parte dos dois jogadores. No final da partida também o selecionador da Suíça, o bósnio Vladimir Petkovic, mostrou-se incomodado com a situação. "Nunca devemos misturar política e futebol", disse.

Granit Xhaka assumiu após o jogo de Kaliningrado que tinha sido "um dia especial" para ele. "Esta vitória foi para a minha família, para a Suíça, Albânia e Kosovo. O gesto foi para todos os que me apoiaram e não para o nosso adversário. Foi um jogo muito emocional", explicou, enquanto Shaqiri optou por dizer que não tinha de explicar o seu gesto.

A verdade é que os dois futebolistas podem agora estar sob alçada disciplinar da FIFA que, se avançar com a punição, poderá deixar a Suíça em maus lençóis para o que resta do Campeonato do Mundo, uma vez que são dois dos mais importantes jogadores da equipa helvética.

Pai de Xhaka espancado na prisão

Granit Xhaka é filho da albanesa Eli e do kosovar Ragip, que aos 22 anos era estudante de engenharia agrícola na Universidade de Pristina e participava em manifestações a favor dos direitos do Kosovo, que ainda era uma província da Jugoslávia. Acabou por ser detido, tendo passado três anos na prisão, onde dividia uma pequena cela com quatro homens. Em entrevista ao jornal The Guardian, Granit revelou que o pai foi mesmo espancado, tendo sido libertado em 1990 graças à Amnistia Internacional, que o ajudou a emigrar para Basileia, na Suíça, onde o médio nasceu.

Shaqiri era ainda um bebé quando os pais fugiram de Gjilan, cidade do Kosovo onde nasceu, por causa da guerra, tendo a sua casa saqueada, destruída e as paredes pintadas. Pior sorte teve a casa dos tios, que foi queimada. O extremo faz questão de não esquecer as suas origens e nas suas chuteiras exibe a bandeira da Suíça na esquerda e a do Kosovo na direita.

Apesar do Kosovo ter-se tornado membro da UEFA e da FIFA em 2016, os dois jogadores decidiram continuar a representar a Suíça. Já Taulant Xhaka, irmão de Granit, tomou a decisão de jogar pelo Kosovo.

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