Viagem às maiores ondas do mundo e à boleia de Garrett McNamara e Hugo Vau

O DN aceitou o desafio e meteu-se ao mar até ao sítio onde se formam as grandes ondas da Nazaré. O norte-americano McNamara demonstrou como "louco é" subir e descer as vagas, mesmo com ondas pequenas mas muita agitação marítima. O português Hugo Vau revelou uma das imagens mais fortes de quando está no cimo da onda: "A minha sombra." O russo Andrey Karr acha que "é calmo" agarrar-se às cordas de uma prancha e navegar a grande velocidade. Ele que caminhou numa fita de elástico entre dois rochedos.

"Experiência exclusiva com Garrett McNamara nas maiores ondas do mundo." Dizia o convite que chegou à redação do DN. Desafio aceite, lá viajámos até à Nazaré. Percebemos que a experiência não era nada exclusiva, tantos os jornalistas e convidados presentes, embora se contassem pelos dedos das mãos os que foram à água. Talvez quisessem dizer "única". E foi! Com McNamara mas também com Hugo Vau e Andrey Karr. Em mota de água até às grandes ondas entre os rochedos ou agarrada a uma prancha e dependendo da força de braços. Medo? Não. Muito respeito pelo mar e por quem faz das ondas uma forma de vida. E emoção!

A ausência de medo, não totalmente, pode explicar-se pela perceção de que num evento destes a segurança dos participantes é a primeira prioridade. Também porque aprendi a nadar nas praias do Pedrógão e da Vieira de Leiria, 40 km mais à frente no oceano Atlântico. Para mim, um mar flat é uma coisa desenxabida. De resto, nunca surfei. O mais próximo que estive da modalidade foi andar à boleia das ondas até à rebentação. Já o fotógrafo Jorge Amaral pratica e até levou equipamento, enquanto eu tive de me enfiar num fato-macaco de neoprene, que quanto mais apertado estiver melhor. Isso, sim, revelou-se uma verdadeira dificuldade.

Ponte de encontro marcado para o porto de abrigo da Nazaré junto às boxes dos surfistas. Um primeiro contacto com alguns dos oito big rider (especialistas em ondas gigantes), preparados para dar boleia a quem quisesse sentir o que é estar perto de uma onda com mais de 20 metros de altura. Mais até do que os 23,8 metros de McNamara, o recorde mundial obtido em 2011. A última poderá ter sido no dia 19 de janeiro e surfada pelo português Hugo Vau, acredita o próprio e garante quem o viu surfar. Uma big mama apanhada na praia do Norte, que até na Nazaré é raro surgir, com um mar monstruoso e a ondulação perfeita. A performance é avaliada pelo júri da World Surf League (WSL), cuja decisão conhecer-se-á no fim de abril. Parece que há dificuldade nas medições devido à contraluz.

"O que depende de mim está feito. Estou há 10 anos na Nazaré à espera de uma onda que se destaque e ela apareceu, tive essa sorte. É a maior onda surfada e há forma de a medir. O que vier a acontecer já não depende de nós, depende do júri da WSL", diz o português.

"Vai ficar sem o recorde da maior onda?", pergunto a McNamara. Ele reagiu bem à provocação: "O meu recorde é de 2011, disseram que tinha sido batido em 2012 e não foi confirmado. Depois em 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017, nada foi confirmado. Este ano? Vamos ver. Mas devo dizer que gosto muito do Hugo Vau, sei que fui uma inspiração para ele, veio para cá surfar comigo, aprendeu e temos trabalhado juntos."

Não vimos ondas gigantes - e ainda bem -, uma outra com cinco/seis metros de altura mas a maioria a ficar-se pelos três, com muito vento e agitação marítima, sol mas com temperatura baixa. Era este o tempo e o mar na última terça-feira, dia em que a imprensa e convidados, cerca de 80 no total, participaram nesta iniciativa organizada pela Mercedes, patrocinadora de alguns dos surfistas presentes, nomeadamente McNamara e Hugo Vau. E que montou arraiais na Nazaré.

Antes da partida e ainda no porto de abrigo, uma explicação dos organizadores sobre as atividades. Fomos divididos em três grupos: quem não queria apanhar um pingo de água, quem aguentava enxurradas mas no interior do barco e quem optava pelo programa completo, o que significava "surfar" ondas à boleia num jet ski (mota de água) e numa prancha que está acoplada usada para o resgate dos surfistas.

Optámos pelo pacote inteiro, obviamente. Se é para fazer, que seja tudo. Esta foi a versão oficial, porque na equipa do DN houve quem tivesse verdadeiramente o programa completo. E isso no mundo do surf significa ser atirado para a areia, incluindo a mota. Culpa de uma descoordenação entre um pendura desprevenido e o condutor, Hugo Vau, este ainda incrédulo com o resultado (ver vídeo): "Uma pessoa apanha ondas de 20/30 metros e não acontece nada. E, hoje, com uma onda de meio metro foi o que se viu." Sorte para o Jorge Amaral, que ficou com uma boa história para contar.

Mas o meu primeiro embate no mar da Nazaré foi no speedboat, um barco com capacidade para umas 20 pessoas e que atinge grandes velocidades num ápice. Com uma máquina destas, imaginem-se os peões e as travagens a fundo. Parece que passamos por debaixo de uma queda de água, além da força que se faz perante a mera hipótese de ser projetada borda fora. Quinze minutos disto, cabelo e corpo encharcados, os pés de molho em água salgada. Pensava que tinha vivido a melhor experiência, percebi depois de apanhar boleia nos jet ski de McNamara, Hugo Vau e Andrey Karr, que era pura diversão.

McNamara é uma simpatia em pessoa e até se ofereceu para filmar. Explicação do próprio sobre esta viagem: "Vamos levar-vos ao sítio onde apenas os surfistas das grandes ondas vão, partilhar o que é estar no local onde as grandes ondas se formam. É por causa daquele canhão e daquela parede que tem 1300 metros de profundidade que se formam as maiores ondas do mundo. Podes experimentar o que fazemos e ver quão louco é!"

Tratamento por tu, incluindo eu, o que nunca faço em trabalho. Podia explicar pelo ambiente desportista, mas acho que foi mesmo pelo nervoso miudinho. Os rochedos e as ondas que se formam entre eles metem respeito.

Hugo Vau fez um percurso maior e mais ousado, para lá dos rochedos e até à rebentação com voltas e reviravoltas. Revela a imagem mais assustadora quando está no cimo de uma onde de mais de 20 metros. "A minha sombra." É através dela que se percebe a altitude a que se está a surfar. E se uma onda nos joga em direção às rochas?, pergunto. "Não há escapatória!" Adiante, o melhor é pensar em outra coisa.

Mais tarde, Hugo Vau explica porque gosta tanto do mar, ele que nasceu no centro de Lisboa, junto ao Castelo. "É a ligação com a natureza que é única. Uma coisa é estar na praia e outra no meio de ondas, especificamente na praia do Norte onde o mar é muito intenso. E, muitas vezes, é aquela onda de meio metro que nós chamamos "chapadinha do milagre"."

Paixão é um dos substantivos que une os dois surfistas e também o russo Andrey Karr. Segue-se uma terceira boleia porque acabaram por não ser muitos os participantes que foram ao mar. Este surfista (Karr) nasceu em Moscovo, num país onde nunca pegou numa prancha, e descobriu há três anos a Nazaré. Não quer outra coisa. Viajar na prancha da sua mota de água foi a segunda atividade para mim mais arriscada, com metade do corpo no mar, às vezes a seguir numa direção contrária à plataforma. E a depender apenas da força dos braços e agarrada a duas cordas. Os minutos pareceram horas. "Bem, esta foi violenta", balbuciei. "Não, foi muito calmo", disse Andrey Karr, que atravessou duas grandes rochas na praia do Norte, com grande ondulação, através de uma corda de slackline (fita elástica entre dois pontos fixos).

"Foi uma grande emoção para mim que faço surf há mais de 32 anos. Imagino o que sentiram as pessoas que nunca surfaram. Deve ser inesquecível", comentou o ator e modelo Afonso Vilela. É amigo de McNamara e revelou-se um grande companheiro, sempre a ajudar os mais amadores.

O diretor de marketing da Mercedes, empresa que levou a cabo esta iniciativa, Jorge Aguiar, referiu ao DN: "Alguns dos surfistas que aqui estavam são dos maiores especialistas em ondas grandes. É uma forma de nos dar a conhecer num mercado diferente, mais perto das pessoas, e dar a conhecer esta beleza da Nazaré, que hoje é visitada por gente de todo o mundo e, isso, deve-se ao Garrett. Estamos há seis anos no surf, um mercado mais novo e muito desafiante." Um colaborador importante, além do próprio Garret McNamara, na concretização da iniciativa foi Lino Brazão, gerente da Nazaré Water Fun. Alugam buggy, jet ski, fazem viagens aos golfinhos e prometem emoções fortes.

A jornalista participou nesta iniciativa a convite da Mercedes-Benz Portugal.

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