Título e aumento de praticantes são incentivos para a afirmação definitiva

Portugal campeão europeu foi um projeto iniciado em 1997 e que ganhou forma em 2011. Agora há o difícil desafio de continuar no topo

Faz hoje um mês que a seleção nacional se sagrou pela primeira vez campeã europeia de futsal. Mais do que um troféu, o título é um ponto de viragem numa modalidade que ainda há menos de dez anos, como recorda o ex-selecionador Orlando Duarte, era classificada na Federação como "futebol menor". Hoje, o futsal é o desporto de pavilhão com mais praticantes em Portugal e ganhou estruturas próprias que permitem, finalmente, o início da formação ainda na escola. Terminou, pode dizer-se, a era em que o futsal entrava na vida de um jovem depois de ser recusado pelo futebol.

Em Portugal chegou a praticar-se três modalidades muito similares; o futsal, o futebol de cinco e o futebol de salão. "Três modalidades distintas com regras distintas", como conta ao DN Mário Brito, presidente do Freixeiro e tio do agora campeão europeu Tiago Brito.

Abreviando, passamos para o final da década de 90. "1997 é um momento importante. A FIFA informa da importância de integrar todas as práticas dentro da família do futebol e o número de praticantes em Portugal quase triplica", conta Pedro Dias, diretor da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) responsável pelo futsal. O futebol de salão ainda resistiu "mas começou a definhar e as melhores equipas passaram para o futsal", recorda Alípio Matos, ex-treinador do Benfica e atual coordenador da formação do clube da Luz.

"Desde que nos sagrámos campeões europeus já temos mais 1000 federados. O futsal é a modalidade de pavilhão com mais praticantes em Portugal", Pedro Dias - diretor para o futsal da FPF

"Este título europeu deve-se muito às pessoas que lutaram pela unificação da modalidade segundo as regras da FIFA, essas pessoas são um pouco obreiras do êxito porque foi aí que começou verdadeiramente este título", destaca Miguel Albuquerque, diretor do Futsal do Sporting, atual campeão.

Dom Quixote

Ainda assim, Orlando Duarte, selecionador de 1996 a 2010, tem uma visão um pouco diferente de quando o futsal começou a ser realmente levado a sério em Portugal. "Este título tem a marca das pessoas que entraram com esta direção da FPF. As pessoas que lá estavam antes não queriam saber do futsal para nada, chamavam-lhe um futebol menor. Andava eu armado em Dom Quixote na altura do Dr. Madaíl e o Jorge Braz sabe isso bem, ele era meu adjunto. Agora há uma retaguarda, há todas as condições. Lembro-me que em 2008 houve um Europeu sub-21 que o presidente da FPF decidiu que não devíamos entrar porque era um torneio particular, as ações para as seleções mais jovens foram chutadas para canto. E podemos ter perdido alguns talentos pelo caminho", acusa, para depois elogiar: "As pessoas agora sabem o que fazem e o Pedro Dias é, com distância, o melhor dirigente que conheci ."

Mas afinal o que mudou?

"Muito deste sucesso passou, não tenho grandes dúvidas, por a FPF ter exigido níveis aos treinadores, que foram obrigados a fazer formação e a terem competências para treinarem, a classe dos treinadores foi a que mais se dedicou em prol da comunidade", destaca Paulo Tavares, treinador do Sp. Braga, que em conjunto com a Universidade do Minho tem um projeto singular alicerçado na compatibilidade da vertente académica com a competição. "Temos jogadores que recebem apenas as propinas devido ao protocolo com a Universidade", acrescenta.

"As pessoas que estavam na FPF antes desta direção entrar não queriam saber do futsal para nada. Agora estamos na vanguarda", Orlando Duarte - Selecionador de 1996 a 2010

Retomando o caminho do futsal, em 2001/02 surgiu o último campeão nacional antes do reinado dividido entre Benfica e Sporting. Falamos do Freixieiro que contava "com um orçamento de 700 mil euros", como revela Mário Brito. "Depois não conseguimos acompanhar o Benfica e o Sporting e agora estamos a tentar voltar à I divisão em dois, três anos. Agora o orçamento é de 50 mil euros e sai do meu bolso", sublinha o dirigente.

Divergência na formação

Em 2000 fez-se o primeiro curso de treinadores de futsal, iniciativa da Associação Nacional de Treinadores de Futebol. E é aqui que reside a divergência entre as pessoas que ouvimos. Para Paulo Tavares e Alípio Matos existe uma lacuna ao nível da qualidade dos treinadores dos escalões jovens. "Fazem falta formadores. Tem que ser feita alguma coisa. A FPF tem apostado muito mas falta uma aposta em criar uma situação através de incentivos, algo bem pensado para termos formadores. Não faz sentido o treinador dos seniores do Sp. Braga, vice-campeão nacional, ensinar aquilo que se devia ter aprendido nos infantis", refere Paulo Tavares. "Temos de pagar a treinadores bons. Eles não gostam muito de trabalhar na formação porque não os valorizam. Falta ter mais treinadores de qualidade na base, porque é daí que vai nascer o resto", considera Alípio Matos.

Pedro Dias responde com as dificuldades inerentes a um lote de vagas limitadas: "Vamos ter mais treinadores de qualidade na formação mas Roma e Pavia não se fazem num dia. Temos 18 anos de formação de treinadores em Portugal, não temos muitos com grau três, precisávamos de ter mais com o grau dois mas as perspetivas... para investir numa carreira é preciso haver pespetivas de progressão e só há 14 clubes na I divisão de futsal. Do início ao topo são oito anos ."

Já o Sporting parece não ter esse problema. Miguel Albuquerque classifica o quadro técnico de treinadores leoninos como "fabuloso, maioritariamente de graus dois e três, habilitados a trabalhar com os jovens talentos".

A triagem feita pela escola

Desde que Portugal se sagrou campeão europeu já foram registados mais "1000 praticantes" federados, diz-nos Pedro Dias, que vê o futsal como "a modalidade de pavilhão com mais praticantes em Portugal". Entre federados, desporto escolar, Inatel e sistema militar serão "sensivelmente 75 mil a praticar futsal por todo o país".

Mas Carolina Silva, primeira treinadora de Ricardinho, coloca o dedo na ferida. "Hoje aproveitaríamos um Ricardinho, se ele não tivesse possibilidades de pagar 20 euros para jogar futsal?". Pedro Dias responde com o caminho traçado pela FPF em 2012 e que consiste na aplicação da "maioria das 55 medidas do plano estratégico de desenvolvimento desportivo para o futsal". Foi criado um campeonato feminino, uma Taça de Portugal aberta a todos, uma Taça nacional de juniores e aumentou-se o torneio inter-associações. Mas isso será suficiente para acolher os que não têm posses? "Hoje em dia os clubes não têm o pavilhão aberto. Os clubes perderam apoios, da quotização e das autarquias. A solução está na escola e se existir um jovem acima da média o clube irá procurá-lo. Um jogador que seja talentoso, seja qual for a modalidade, terá o clube a procurá-lo. Os sistemas têm é de comunicar para que as crianças sejam vistas pelo contexto federado. O futsal está no programa nacional do desporto escolar e é a modalidade com maior número de grupos e equipas em escolas. Inclusivamente já damos formação a professores porque a maior parte não tem formação específica da modalidade da universidade. Se andarmos uma, duas décadas para trás, uma criança não podia começar a prática do futsal de uma forma estruturada. Os clubes não tinham essa oferta."

"Hoje aproveitaríamos o Ricardinho se ele não tivesse possibilidades de pagar 20 euros para poder praticar futsal?", Carolina Silva - primeira treinadora de Ricardinho

Alípio Matos está mais de acordo com Carolina Silva e, por isso, reclama "um centro de alto rendimento para miúdos talentosos sem posses e com talento que possam treinar, descansar e estudar". "Não podemos desperdiçar talentos, somos poucos, mesmo sabendo que Ricardinho é um num milhão ou mais", complementa.

Paulo Tavares deixa mesmo o aviso. "Temos que aproveitar este título europeu e saber tirar partido deste boom. É agora ou nunca", apela o técnico que lamenta não ter "pavilhões disponíveis em Braga para avançar com escolinhas e infantis".

No que diz respeito ao campeonato, Miguel Albuquerque alerta para os "poucos minutos" que os campeões europeus têm na I divisão em Portugal. O dirigente explica que podia ser melhorada a competitividade se fosse implementada a regra da UEFA "com 14 convocados e sete formados localmente" ao contrário dos 12 e cinco formados localmente. "Isso permitiria que uma equipa como o Sporting, com aspirações europeias, se possa reforçar com bons atletas estrangeiros mantendo a sua base de jogadores portugueses e da sua formação e libertar jogadores portugueses para outras equipas, onde possam ter mais minutos de utilização. Com a atual regra "Sporting e Benfica absorvem a maior parte dos jogadores portugueses, enfraquecendo as outras equipas e o campeonato".

Para que o futsal português se afirmasse na plenitude só falta mesmo o título europeu do Sporting na UEFA Final Four dentro de seis semanas. "A FPF está muito focada em ajudar o Sporting a fazer tudo o possível para ser campeão europeu ", diz Pedro Dias. "Isso era excelente juntar os dois títulos europeus. Mais praticantes, mais sponsors, mais tudo" reforça Orlando Duarte. "Era interessante para a a afirmação do futsal português e deixarem de nos ver como coitadinhos, passávamos a ser mais respeitados", sublinha Miguel Albuquerque, que em jeito de alerta deixa um aviso. "Não se pode deixar de dar mérito à FPF pelo projeto arrojado, mas é importante que façamos um debriefing , porque nem tudo está bem quando se ganha. O importante não é ganhar uma vez, é ganhar muitas vezes e Portugal não se pode contentar em ganhar apenas uma vez."

Mais confiança parece ter Orlando Duarte: "Conheço bem as pessoas que estão na FPF, não vamos regredir. Portugal está na vanguarda do futsal."

E falta ainda o Euro 2019 de futsal feminino. "Fixe bem esta data, 17 de fevereiro de 2019", atira Pedro Dias registando a data da final da primeira competição para mulheres.

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