Tilman Zychlinski: "Temos de evitar um segundo Robert Enke"

Criada em 2012, a Fundação Robert Enke concretizou aquilo que era uma vontade do próprio guarda-redes alemão, que se suicidou em 2009. Ajudar outros futebolistas a lidar com problemas de saúde mental e contribuir para alterar a forma como o desporto olha para o tema tem sido a missão.

A morte de Robert Enke fez alterar perceções sobre a saúde mental no futebol profissional?

Essa foi a ideia com que partimos para a criação da fundação. Gostávamos, através da fundação, de mudar a forma como o desporto olha para a saúde mental dos atletas. E este é um grande desenvolvimento no futebol. Não podemos interferir com o seu lado político ou económico, mas podemos ajudar a torná-lo mais sensível nesta área, mais preocupado com os seus jogadores, mais consciente.

E alterou mentalidades entre os jogadores na Alemanha? Nota-se mais abertura para falar destes casos?

Há muitos antigos jogadores, sobretudo, que entretanto vieram a público admitir ter lidado com problemas de depressão ao longo da carreira. Mas também sabemos que há muitos jogadores atuais que têm problemas e não falam sobre eles porque ainda têm medo de ser vistos como jogadores fracos pelos colegas e pelos adversários.

E em relação à forma como os adeptos olham para esses jogadores, nota alguma evolução?

Na Alemanha, os adeptos foram muito sensíveis ao caso do Enke, mas ainda há ultras para quem é muito difícil entender este tipo de estigma. Temos de continuar a quebrar o estigma não só entre os atletas como entre os adeptos.

Quais os objetivos principais da Fundação Robert Enke nesta área?

Há dois ou três objetivos fundamentais. Um era criar e desenvolver uma infraestrutura à qual jogadores com algum tipo de doença mental possam recorrer. Uma estrutura que contempla uma equipa de psicólogos e psicoterapeutas com formação específica para trabalhar na área do desporto, porque o Robert, por exemplo, recorreu a quatro ou cinco psicólogos antes de começar a trabalhar com um vocacionado especificamente para a área do desporto e perdemos ali algum tempo que podia ter sido crucial na sua recuperação. Outro objetivo passa por distribuir informação sobre saúde mental a jogadores, treinadores, árbitros, dirigentes, etc., para saberem reconhecer sinais e saberem como podem ajudar futebolistas nessa situação. Também fazemos aconselhamento de jogadores sobre como abordar o tema e falar publicamente do assunto. E atuamos junto das camadas jovens para prevenção.

Já têm números sobre o resultado do vosso trabalho? Quantos jogadores recorreram à ajuda, por exemplo?

Temos data compilada sobre a qual trabalhamos, mas não a tornamos pública por uma questão de filosofia interna. Se disséssemos que foram cinco casos até agora, as pessoas tenderiam a desvalorizar o problema. Se disséssemos que foram milhares, haveria um alarmismo social sobre os futebolistas. Achamos que a discrição em relação aos dados é importante, em favor da segurança e do bem--estar do jogador.

Vocês têm protocolos com a Bundesliga e a federação alemã. Há sensibilidade das organizações do futebol para tratar esta área?

As entidades estão muito mais despertas. Não só federação e Bundesliga como os clubes. O Ronald Reng [autor da aclamada biografia de Enke: Uma Vida Curta Demais] e o Martin Amedick [antigo futebolista] vão a academias jovens e aos clubes fazer apresentações. Temos tido excelente recetividade, em grandes clubes como Bayern, Hoffenheim, Estugarda, etc., e é bom ver essa consciência a desenvolver-se.

Teresa Enke, a viúva de Robert, dirige a fundação. Numa entrevista recente ela usou a palavra mártir para descrever o legado de Robert para o futebol nesta área. Pensa que é assim que os adeptos o recordam?

Não foi a palavra mais feliz, ela própria o admite e não a repetiria. Penso que os adeptos o recordam como um símbolo de alerta para estes problemas. Temos de evitar um segundo Robert Enke no futebol. É esse o grande fundamento desta fundação. E era esse, aliás, o plano do Robert para o pós-carreira: poder falar sobre a depressão e saúde mental, formar consciências, ajudar os outros a lidar com isso.

Tilman Zychlinski é um ex-jogador e conselheiro da Fundação Robert Enke

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