"Tenho um bom salário, mas a paixão pelo futebol é que me faz correr"

Scolari é treinador do Guangzhou Evergrande da China e está a preparar a nova época em Portugal, país onde quase foi campeão europeu e ficou conhecido pela frase: "E o burro sou eu?" O estágio na Cidade do Futebol, o futebol chinês e o convite do Benfica, que ficou por aceitar, foram motivos de conversa com o DN.

As saudades de Portugal eram tantas que veio estagiar cá com o Guangzhou Evergrande...

[risos] Saudades e não só. Também porque a federação proporcionou o tipo de pré-temporada que o Guangzhou precisava. O centro de treinos, a Cidade do Futebol, como dizem, está muito bem organizado, foi bem planeado. O Carlos Godinho, com quem já trabalhei na Federação Portuguesa de Futebol antes, coordenou tudo para que o estágio fosse possível. E não tenho uma falha a apontar. Nada. Os jogadores estão a adorar estar em Portugal e o clima tem ajudado. Portanto está tudo perfeito. E claro que as minhas saudades de Portugal, das pessoas e do meu filho, que mora em Lisboa, também foram tidas em conta para escolher Lisboa para estagiar.

Está a estagiar na Cidade do Futebol? Tinha dado jeito quando foi selecionador português (2003-2008)?

Pois é, naquela altura não tinha estas condições. Mas lembro-me de o Gilberto Madaíl falar que era preciso um centro de treinos. Ainda bem que esta direção concluiu essa ideia. Foi um trabalho em sequência que terminou com a Cidade do Futebol de pé. Nós fizemos estágios muito bons e com muito boas condições: em Évora, em Óbidos e em Alcochete, onde nos recebiam muito bem. Mas este é diferente, foi montado pela federação para servir a seleção. É um trabalho muito bom, fiquei maravilhado.

Em Portugal ficou conhecido pela expressão "e o burro sou eu?"

Essa ficou, né? E quando venho a Portugal as pessoas perguntam-me quem era o burro afinal. Ainda agora, quando cheguei ao hotel a minha televisão não funcionava, chamei o pessoal do hotel, o rapaz mexeu, mexeu e nada! Chamaram um técnico e ele mexeu e trocou uma válvula lá e funcionou. E eu disse, "bom, agora ficou provado que o burro não sou só eu [risos].

Depois de viver e ganhar tanta coisa na carreira, o que o faz ainda correr e aceitar ir para a China, por exemplo, em vez de curtir a reforma numa fazenda no Brasil ou em Portugal?

Bom, em primeiro lugar por razões profissionais... eu tenho um bom salário, mas, acima de tudo, o que me faz correr é a minha paixão pelo futebol e continuar a gostar do que faço. E até me sentir útil e obter aquilo que os clubes querem, resultados e legado, vou continuar. O grupo que eu tenho na China, tanto os jogadores chineses como os estrangeiros, é maravilhoso. Por isso...

Adaptou-se bem à cultura e ao futebol chinês?

Muito bem. Os jogadores chineses têm uma coisa muito boa, são rápidos a captar os meus pensamentos e o que desejo para a equipa, o que se pretende do treino, como se devem comportar em campo, adaptam-se perfeitamente. E a questão da língua é ultrapassada facilmente com a tradução, os resultados mostram que o trabalho funciona e isso ajuda melhor do que qualquer tradutor. E os meus estrangeiros são top, mas não são top só como jogadores, também são top como pessoas e top como companheiros e isso é que faz muitas vezes a diferença no final do campeonato. Por isso eles ganharam seis campeonatos seguidos e dois asiáticos.

Sempre deu muita importância ao lado humano do jogador...

Sempre. Faz muita diferença quando as coisas não correm como queremos ou não temos resultados, porque nessa altura tem amizade, tem carinho um pelo outro... e sabemos que podemos dialogar sem apontar o dedo e procurar um culpado para cobrar dele. Quando tens esse ambiente é mais fácil suportar os maus momentos.

Há potencial na China para dominar o futebol daqui a 20 anos, como querem os governantes?

Olha, potencial humano para um país que tem milhões de habitantes há, mas o futebol não é jogar uma bola de um humano para o outro. A China vai passar por um período de crescimento como passaram as escolas árabes, japonesas, coreanas... Daqui a 10 ou 20 anos vai haver essa qualidade na escola chinesa. Pelo número de habitantes e pelo investimento que está a fazer, apoiado pelos governantes, vai superar os concorrentes na Ásia.

E num cenário mundial?

É difícil prever, porque os outros países não param no tempo e há coisas que ainda faltam: organização, campeonatos mais disputados, campeonatos de jovens, que ainda não existem. Não há um único campeonato sub-16, sub-18 ou sub-19, e enquanto não houver dificilmente surgirão jogadores jovens, porque as equipas só contratam jogadores formados e com currículo... Eu acho que no futuro, com as informações e experiências que vêm de fora, como o Lippi, agora na seleção, os dirigentes podem aprender muito e aplicar.

Além do Scolari, há André Villas-Boas e Jaime Pacheco a treinar na China. Conhece-os? O que acha deles?

Sim, conheço os dois. Tenho tido boas conversas com o Jaime, antes de ele assinar pelo Teijin Teda estivemos juntos, porque estava no mesmo hotel onde nós estagiámos para um jogo, jantámos e conversámos bastante. Com o Villas--Boas tive mais contacto quando ele era treinador do Zenit, mas não tão amplo como tinha com o Jaime. Agora é cada um no seu clube e a gente batendo aquele papo em português antes e depois dos jogos...

Quem vai ser campeão?

[risos] Quem for o melhor, mas eu acho que a minha equipa tem grandes hipóteses de ser campeã novamente, porque tenho grandes jogadores e tenho uma ótima equipa...

Já percebe ou fala alguma coisa de chinês? Por exemplo, como se diz Felipão em chinês...

Eles falam lá, mas eu não entendo...

O mercado chinês está nas bocas do bundo pelos milhões que se têm pago em atletas e treinadores. É essa a forma de os convencer a ir?

Não seria a única forma, mas ajuda. Foi a forma que o futebol saudita e japonês usaram quando precisaram de incrementar o futebol no país. É preciso ter jogadores e treinadores conhecidos mundialmente, com fãs. Eles partiram dessa premissa e bem. Agora é preciso dar consistência aos projetos para tudo isso não ser dinheiro perdido.

Que jogador português gostaria de contratar para a sua equipa?

Eu agora não levava ninguém. Tenho quatro jogadores estrangeiros, só posso jogar com três e um nem posso inscrever na Champions da Ásia porque as leis mudaram. É bom que eu esclareça que não indico ninguém, não quero ninguém. Por isso, quando alguém diz que é indicação minha, não é verdade. Estou feliz com a minha equipa.

Mas quantos milhões valeria o seu menino de ouro, o Cristiano Ronaldo?

Ui, não sei. Não dá para pôr preço no Cristiano Ronaldo. Sem preço. Até porque o futebol da Europa quando vê que a China está interessada o preço duplica ou triplica. Então... não há preço para o Cristiano.

A China vai ser a última paragem, ou ainda vamos ver o Scolari a treinar em Portugal de novo?

Não sei se vou treinar em Portugal ou no Brasil ou noutro lugar. Em princípio, pelo que eu vivo atualmente na China e pelo ambiente que tenho no meu clube, devo ficar este ano, tenho contrato, e talvez permaneça mais algum tempo na China. Se quisesse já tinha voltado à Europa no início da época, tive propostas de Espanha e de Inglaterra, mas pela tranquilidade e pela segurança que me dá a China preferi ficar no Guangzhou, onde tenho um ambiente fantástico.

Ficou por aceitar aquele convite do Benfica em 2004...

Ah pois ficou! Já tinha boas relações com o Benfica e continuo. Fomos visitar o Seixal esta semana, bem dirigido pelo Nuno Gomes... Luís Filipe Vieira escolheu a pessoa certa, o trabalho que ele está a fazer no Benfica é grandioso. Hoje sou um torcedor. Aliás o meu filho é adepto do Benfica e eu apoio quem o meu filho gosta. E também tem o Júlio (César) e o Luisão.

Tem visto o campeonato? Já tem uma ideia de quem pode ser campeão?

O Benfica está na frente e é o que está mais bem posicionado, mas falta uma volta toda e manter a regularidade é muito difícil. O Rui [Vitória] tem um grupo muito forte e, pelo que se vê de fora, tem boas opções para rodar a equipa. Gosto do Rui. É simples, trabalhador, humilde, sabe que tem de fazer um bom trabalho. E isso dá ao Benfica mais hipóteses de ser campeão outra vez.

Dei os parabéns ao Fernando. Ele conseguiu, eu estive quase...

Viu os jogos da seleção no Euro 2016?

Vi na televisão, claro. Estava na China, em pleno campeonato, mas mantive o contacto com o Carlos Godinho (diretor desportivo da federação) e o Fernando [Santos]. Assisti aos jogos em casa, os horários são muito dilatados. No final do treino eu e os adjuntos fazíamos o plano do dia e da semana, "temos isto e isto e temos o jogo". E fomos vendo um, dois... até à final! Ganhar à França em França é algo que todos gostariam de fazer e só esta seleção de Portugal fez. Nós perdemos a nossa com a Grécia em casa em 2004, por isso sabia quão importante e boa foi esta vitória.

Muitos criticaram a forma de jogar de Portugal no Euro 2016. E Scolari, o que achou?

Eu não critiquei. Eu vi o crescimento da seleção. A primeira parte foram três empates, bom... mas os três empates conseguiram o primeiro objetivo, que era passar. A Itália foi campeã mundial em 1982 com três empates no grupo. O objetivo era a qualificação e depois vem o mata-mata. E no mata-mata tens de saber se queres jogar bem ou se para passares tens de ser mais frio e pensar que um morre ali. É o jogo do resultado. Mas o crescimento da equipa do Fernando foi visível, pelo menos para mim. Passou da fase em que se calhar muitos não acreditavam para a final e lá já todo o mundo acreditava. E os jogadores foram ficando cada vez mais motivados e venceram a final com sobriedade.

Quando viu a lesão de Ronaldo...

Fiquei preocupado, lógico! Mas depois vi aquilo que já tinha percebido antes. O Nani e o Quaresma davam ao Ronaldo a consistência que ele precisava, porque o Ronaldo estava sempre muito bem marcado. Por isso, quando o Ronaldo sai lesionado, na minha opinião, todos os jogadores portugueses ficaram ainda mais motivados para mostrar a todo o mundo que mesmo sem o seu melhor jogador dava para ser campeão. E a França achou que sem o Ronaldo ficava mais fácil.

Agora imagine que estava no papel de Fernando Santos, com o Ronaldo atrás de si o jogo todo...

O Ronaldo ainda há dias fez uma piada comigo no Real Madrid a dizer que continua atrás de mim me enchendo e chamando de guri. Temos uma boa amizade, gostamos um do outro, então se fosse eu ele estaria do meu lado do mesmo jeito. Quando quiser ele pode vir para o meu lado, porque é uma pessoa maravilhosa...

O Scolari esteve perto de ser campeão com a seleção em 2004. O que recorda desse tempo e desse europeu?

Tudo. Ainda esta semana, quando fui ao Seixal e passei pela ponte, me lembrei dos barcos com as bandeiras, as ruas cheias de gente, tinha sítios que o autocarro quase não cabia de tanta gente. As pessoas estavam felizes... Eu, o Darlan e o Murtosa falamos muito sobre isso e um vira para o outro e diz lembra disto, lembra disto o tempo todo...

Quando falou com Fernando Santos pela primeira vez após o título europeu o que lhe disse? "Tu conseguiste"?

Naaaa! [risos]. Dei-lhe os parabéns e disse-lhe que fiquei muito feliz por ver Portugal campeão europeu. Ele merecia, não que eu e a minha seleção de 2004 não merecêssemos, mas o trabalho que ele e a estrutura fizeram foi brilhante. Ele merecia. Ele conseguiu, eu estive quase...

Na altura de Scolari, Ronaldo era um menino, tinha 18 anos.

Eu já estava à espera de que ele fosse um jogador fenomenal, mas nunca imaginei ver o Cristiano Ronaldo a disputar sete, oito Bolas de Ouro e sendo considerado quatro vezes o melhor do mundo. Isso eu não podia imaginar. Ele sim, provavelmente, já pensava nisso [risos] e trabalhava mais do que qualquer outro para o conseguir.

Treinou Ronaldo, Ronaldinho e Cristiano Ronaldo. Com qual dos três, no auge, começava uma equipa?

Treinei Ronaldo, Cristiano Ronaldo e Ronaldinho, Rivaldo, Roberto Carlos, podia fazer uma grande equipa só de R. Ia usar todos eles, nunca um só.

Mas há sempre a discussão sobre quem é o verdadeiro Ronaldo e quem é o melhor de sempre...

Isso aí não tem discussão. O melhor de sempre na nossa era foi, é, e será o Pelé.

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