"Sonho comprar o jornal e ver que uma vitória é já algo normal"

Liam Walker, médio do Notts County, da quarta divisão inglesa, fez o golo que deu a Gibraltar um histórico triunfo ante a Letónia

25 de março de 2018. Esta data ficará marcada na história de Gibraltar, tudo porque a seleção deste território ultramarino britânico venceu pela primeira vez desde que se filiou na FIFA. O grande responsável foi Liam Walker, autor do único golo da vitória sobre a Letónia, por 1-0, que rasgou um enorme sorriso numa nação de pouco mais de 30 mil pessoas. O sonho agora passa por...vencer mais vezes, tudo para criar uma cultura de vitória diferente.

"Foi algo bonito, porque competimos há muito pouco tempo com seleções experientes. Sabemos que ainda temos muita coisa para vencer, mas estamos no caminho correto, estamos a fazer as coisas bem feitas. Provavelmente muitos ainda pensariam que não sairíamos de todos os jogos com menos de dez golos sofridos, mas estamos a provar o contrário", disse ao DN o jogador do Notts County, da quarta divisão inglesa, perspetivando o futuro da sua seleção.

"Não vamos ganhar nada, é claro, mas estas pequenas vitórias fazem os mais novos pensar no futebol em Gibraltar de outra forma. Ganhando aos poucos, como nestes jogos, fá-los acreditar num futuro diferente para a seleção, por isso o nosso treinador disse-nos no final do jogo que a vitória ficava fora do balneário. Ficámos de boca aberta, mas depois percebemos quando eles nos transmitiu a mensagem: não podemos festejar como se não fôssemos vencer mais vezes. O nosso sonho agora é vencer cada vez mais, é comprar o jornal e ver que uma vitória já é uma coisa normal para Gibraltar", confessou o médio.

Em toda a sua história no futebol principal de seleções, Gibraltar somava apenas um triunfo, frente Malta (1-0), em 2014, mas nessa altura apenas se encontrava filiado na UEFA. Desde 2016 os gibraltinos ficaram então também filiados na FIFA. Ou seja, nos últimos dois anos ainda não sabiam o que era vencer, tendo perdido todos os dez jogos de qualificação para o Campeonato do Mundo de 2018, no grupo H, incluindo pesadas derrotas por 0-9 na Bélgica e por 1-8 na Estónia.

A equipa, que jogou no Estádio Algarve os seus jogos caseiros de qualificação, jogou desta vez no "rochedo" (como é conhecido Gibraltar, devido ao famoso rochedo que domina a paisagem do território), no Victoria Stadium. E contou assim com um apoio mais entusiasta dos adeptos locais, que celebraram efusivamente o golo de Liam Walker, de livre direto, no último minuto.

Contudo, a seleção de Gibraltar vai continuar com os pés bem assentes na terra, assegura Liam Walker, que acredita que os próximos anos continuarão a ser uma longa travessia, até o investimento na formação começar a dar frutos.

"Vencemos dois jogos em quatro anos, como disse, o objetivo é que as vitórias comecem a ser uma coisa normal, mas sabemos que nos próximos tempos será como foi até agora: derrotas e mais derrotas. Importante é que o trabalho feito pela federação com os jovens possa crescer, para dar mais estabilidade à equipa. Há uns anos ninguém queria jogar por Gibraltar, agora se calhar já é diferente, já se percebe que o trabalho que se está a fazer pode dar frutos mais tarde. Esta pequena vitória é fruto desse mesmo trabalho que vem a ser feito", confessou o jogador de 29 anos, consciente de outro tipo de dificuldades.

"Ninguém pode exigir a um jogador de Gibraltar o que se exige a um jogador como Messi ou Cristiano Ronaldo. A grande maioria trabalha durante o dia e depois à noite treina nos seus clubes, de escalões secundários. Até a própria Letónia já está muito mais avançada a esse nível. Conseguimos vencê-los mesmo assim, mas a mentalidade dos nossos jogadores não vai mudar de um dia para o outro, de uma hora para a outra, alguns sabem que têm de acordar cedo para ir trabalhar, não podemos pensar apenas no futebol", salientou o jogador que vê na seleção portuguesa uma inspiração. "Também ninguém dava nada por Portugal, apenas por Cristiano Ronaldo, e foram campeões europeus. Foi com trabalho, e é esse tipo de trabalho que nós temos de seguir e copiar, são esses bons exemplos que nos podem fazer crescer como uma seleção. E no Mundial? Claro que [Portugal] também pode vencer", concluiu.

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