Seleção feminina aproveita embalagem do Euro francês

É um ano ímpar para o país futebolístico. Depois dos homens terem conquistado o Euro 2016, ontem as mulheres carimbaram na Roménia uma inédita presença num Europeu

A seleção feminina apurou-se ontem pela primeira vez para um Europeu, que se vai realizar na Holanda em 2017. Não diremos que será irrepetível, mas será muito complicado Portugal ter tantos sucessos num só ano no que diz respeito às suas seleções nacionais de futebol.

2016 marca a conquista do Europeu de futebol em seleções A, o maior marco de sempre na modalidade com a vitória em Paris diante da França com o inesquecível golo de Éder. Dois meses antes, os sub-17 também tinha quebrado um jejum de 13 anos ao vencer o título europeu, no Azerbaijão, diante da Espanha.

Mas este texto serve para destacar o grande feito da seleção feminina de futebol que ontem, em Cluj, na Roménia garantiu a presença no Europeu... pela primeira vez.

Depois de um empate sem golos na útima sexta-feira, no Restelo, o resultado repetiu-se ontem ao cabo de 90 minutos, mas com a primeira parte do prolongamento ao virar da esquina, Andreia Norton, jogadora do Sporting de Braga que já passou pelo Barcelona e um dia confidenciou que gostava de almoçar com Neymar e Messi, colocou Portugal em vantagem.

No início do segundo tempo, a Roménia empatou por Laura Rus, futebolista dos sul-coreanos do Suwon, lançando assim a incerteza quanto à seleção vencedora deste play-off, fase que Portugal nunca havia disputado.

Os 120 minutos chegariam e o que valeu foi o golo da antiga futebolista do Barcelona a passe de Ana Borges, atleta do Chelsea. E este talvez seja o ponto mais importante.

"É uma mais-valia para a seleção ter jogadoras a competir no estrangeiro, pois aporta outra qualidade que infelizmente o campeonato português ainda não tem, mesmo evoluindo claramente. Dá outro ritmo competitivo à seleção", resumiu recentemente Cláudia Neto, jogadora do Linkopings da Suécia e conhecida por CN7, que foi a grande artífice da chegada de Portugal a esta fase da prova ao marcar três golos no último encontro da fase de apuramento com a República da Irlanda quando as britânicas venciam... por 2-0. Só esse resultado permitiu que Portugal acabasse na vice-liderança, atrás da Espanha, e em condições de disputar o play-off.

Num país que investe quatro milhões de euros anuais no futebol feminino e que tem pouco mais de duas mil jogadoras federadas isto é um feito só possível devido ao fenómeno da emigração e à grande aposta da Federação que este ano lançou o desafio aos clubes da I Liga para terem uma equipa do sexo feminino. Sporting, Sp. Braga, Belenenses e Estoril aceitaram o repto e juntaram-se ao Boavista, já com ampla tradição na Liga feminina.

Para se ter uma ideia de quanto a emigração foi preponderante nesta evolução, no onze inicial a juntar a Patrícia Morais, do Sporting, Sílvia Rebelo, do Sp. Braga, e Matilde Fidalgo, do Futebol Benfica, atual campeão em título, Francisco Neto escolheu futebolistas que alinham na Alemanha, na Inglaterra, nos EUA, no Brasil, na Finlândia e na Suécia.

Melhor que Nuno e Fonseca

Falta falar de Francisco Neto, o selecionador nacional que ontem saiu mais um bocadinho do anonimato. Tinha sido em 2008 técnico de guarda-redes numa altura em que Mónica Jorge era selecionadora. Foi coordenador da Associação de Futebol de Viseu e teve uma passagem pela Índia antes de assumir o atual cargo em 2014, precisamente por indicação da sua antiga chefe de equipa e atual diretora de futebol feminino da Federação.

Fica a curiosidade de Francisco Neto, 35 anos, ter completado o curso UEFA Pro em 2014, a habilitação que permite a um treinador orientar qualquer equipa mundial, com melhor nota que Paulo Fonseca, Nuno Espírito Santo e Sérgio Conceição.

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