Pressão para deixar Rússia de fora dos Jogos de inverno

Fundador da Agência Mundial Antidopagem pede coragem ao presidente do COI para a decisão de dia 5

O presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), o alemão Thomas Bach, vai anunciar no dia 5 se permite a presença de atletas russos nos Jogos Olímpicos de Inverno, que se vão disputar na cidade sul-coreana de Pyeongchang a partir de fevereiro. A decisão, relacionada com o escândalo de doping que assola o desporto da Rússia, está a ser encarada com grande expectativa, e ontem o fundador da Agência Mundial Antidopagem (AMA) e antigo vice-presidente do COI, Dick Pound, colocou mais pressão no líder do organismo.

"Espero que Bach não se amedronte como fez antes dos Jogos do Rio (2016)", afirmou o advogado canadiano, durante a conferência Play the Game, na cidade holandesa de Eindhoven, numa fase em que se admite a forte possibilidade de permitir a participação de atletas russos manifestamente limpos, mas como independentes, sem hino, bandeira e uniformes da Rússia, que por sua vez já ameaçou boicotar a competição se tal se vier a verificar. "Numa situação comparável, Guatemala seria completamente excluída dos Jogos", atirou o antigo presidente do Comité Olímpico do Canadá, de 75 anos.

Pound criticou ainda os corpos governamentais de todo o mundo. "Aos meus companheiros e responsáveis das federações internacionais não lhes preocupa tanto a luta contra o doping como as suas carteiras", afirmou o autor do primeiro relatório sobre o doping organizado na Rússia, que deu o pontapé de saída ao escândalo.

Depois desse relatório, seguiram-se os do investigador canadiano Richard McLaren, que detalhavam, com a ajuda de um ex-diretor de um laboratório de Moscovo, como o governo russo teria omitido e protegido os seus atletas, e como teria organizado um sistema de dopagem sistemático durante os Jogos de Inverno de Sochi 2014.

Aos relatórios, elaborados por iniciativa da AMA, o COI respondeu com o lançamento de duas comissões de inquérito, lideradas pelos suíços Dennis Oswald e Samuel Schmid, cujos relatórios deverão ser decisivos para o desfecho da decisão da próxima terça-feira. Na sequência dos primeiros detalhes revelados pela investigação de Oswald, nas últimas semanas o COI suspendeu e anulou os resultados de 14 atletas russos que competiram em Sochi. Devido a essas sanções, a Rússia perdeu nove medalhas e até mesmo a liderança do medalheiro desses Jogos de Inverno, que passou a ser da Noruega.

Presidente da AMA diplomata

Face às declarações de Dick Pound e à iminência de uma decisão por parte do COI, o atual presidente da Agência Mundial Antidopagem, Craig Reedie, reagiu com diplomacia. "Eu não falaria sobre doping no Estado, mas sobre doping institucionalizado", começou por dizer o britânico, que depois elogiou os progressos que a Rússia tem feito.

"Tem dado grandes passos. Criou uma nova agência antidopagem independente, começou a fazer controlos antidoping e melhorou o próprio sistema, mas ainda precisa de cumprir duas condições para que a possamos readmitir na AMA: aceitar as conclusões do relatório McLaren e entregar-nos todos os registos eletrónicos das análises do laboratório de Moscovo. Até não o fazer, a sua agência continua de fora da AMA. Mas isso não significa que o seu Comité Olímpico deva ser expulso automaticamente", analisou o antigo jogador de badminton, 76 anos, para o qual o governo russo também teria omitido a dopagem de quase todos os futebolistas da sua seleção e que a FIFA se nega a aceitar as provas.

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