Portugueses, mais mulheres, o triplo dos mares do Sul

Sete equipas, 83 mil quilómetros, paragem em 12 cidades. E, ineditamente, um barco com bandeira portuguesa

A grande aventura que se chama Volvo Ocean Race (VOR) faz-se hoje ao mar, de novo, três anos depois da última edição e 44 após a primeira. E pela primeira vez nos mais de 40 anos de história desta regata estará na frota uma equipa com bandeira portuguesa, Turn the Tide on Plastic, capitaneada pela única mulher skipper da prova, Dee Caffari. Dois portugueses integrarão a tripulação, Bernardo Freitas e Frederico Melo, sub-30 especialistas em vela costeira de velocidade a fazerem, em etapas alternadas, a sua estreia absoluta na vela oceânica. Há 28 anos que não aparecia um português na corrida.

Portugal marca ainda presença pela contratação do português António Fontes para a equipa Scallywag. Nos últimos dois anos, o velejador trabalhou intensamente no Boatyard (estaleiro) que a VOR montou em Pedrouços, estabelecendo contacto com os skippers e respetivas tripulações. Os veleiros concorrentes foram totalmente revistos desde a última edição, peça a peça, desmontados, reconstruídos e pintados de novo, aperfeiçoados com novos equipamentos - operação orçamentada em um milhão de euros por cada barco.

Grande mudança nesta edição da regata é o facto de, pela primeira vez, todas as tripulações terem pelo menos uma mulher a bordo - resultado de imposições regulamentares. Alguns dos skippers reconheceram que isso, ao contrário das suas expectativas, não mudou nada a bordo. Porém, um deles, Charlie Enright, do Team Vestas, acrescentou que, com mulheres nas equipas, "o que mudou foi o ambiente em terra", uma observação que suscitou a curiosidade de Dee Caffari ("depois explicas-me porquê"). A equipa de bandeira portuguesa será a única paritária: cinco homens, cinco mulheres. É também a mais jovem e inexperiente.

Com barcos todos iguais a competição será renhida - e o fator humano decisivo. O rejuvenescimento das tripulações passou pela inclusão em duas equipas, Mapfre e Brunel, de campeões da Taça América, a Fórmula 1 da vela: Blair Tuke, para o Mapfre; Kyle Langford e Peter Burling, no Brunel. O skipper desta última equipa, o veteraníssimo Bouwe Bekking, reconhecia ontem que aquelas contratações trouxeram à tripulação uma "intensidade" que antes esta não tinha. Habituados a regatas ultrarrápidas, onde o mais ínfimo erro pode custar a vitória, "estão sempre atentos à performance" do barco. Resta saber se a concentração que colocam numa regata de 20 minutos se mantém em modo maratona, como é o da VOR, com etapas que podem durar um mês.

Nos últimos dias, soube-se que Portugal vai figurar ainda de outra forma na regata. No trajeto Alicante-Lisboa foi decidido fazer uma pequena incursão pelo Atlântico dentro, rumando a frota até Porto Santo e depois rondando a ilha em direção à capital portuguesa. Na escolha do trajeto teve influência o diretor de prova da VOR, Phil Lawrence, um apaixonado da Madeira desde que lá foi no seu anterior posto desportivo, diretor de prova da Extreme Sailing Series.

O ambiente em Alicante nos últimos dias foi de grande excitação, com os preparativos finais para o início da grande aventura. Mas a verdade, também, é que diversos acontecimentos, separados entre si, fizeram acumular nuvens no horizonte.

Há poucas semanas, demitiu--se o CEO da prova, o britânico Mark Turner, em choque com os acionistas porque lhe desautorizaram a intenção de fazer a próxima edição já em 2019 com um novo barco. O novo barco terá foils (patilhões curvos que o içam da água aumentando-lhe bastante a velocidade), mas esta é uma inovação que, nos monocascos, ainda gera dúvidas de fiabilidade.

Nos mentideros da Volvo Ocean Race diz-se que o dinamarquês Knut Frostad poderá estar de volta à liderança. Por estes dias tem sido visto em Alicante - o DN cruzou-se com ele várias vezes. Foi ele quem salvou a VOR de um possível naufrágio quando lançou, para a edição 2014-2015, a ideia de um barco igual para todas as equipas - o que fez dividir por estas em partes iguais os custos de projeto, diminuindo-lhes o esforço financeiro. Também se fala no francês Bruno Dubois, chefe da equipa de capital chinês Dongfeng.

A outra crise ocorreu na equipa AkzoNobel. A uma semana do início da prova, o patrocinador afastou o skipper, o holandês Simeon Tienpont, alegando quebra de contrato. Ontem, o caldo entornou-se completamente, com um tribunal arbitral holandês a decidir a favor do velejador. "Estamos a avaliar a situação", diz a AkzoNobel.

Sombras na organização - mas sol e vento na meteorologia, que é no fim de contas o que interessa aos velejadores. Dentro de uma semana a frota deverá chegar a Lisboa.

O DN viajou a convite da Dongfeng Race Team

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