Portugal perde com a Alemanha e vai ver o Mundial 2019 do sofá

A seleção nacional perdeu este sábado, em Heidelberg, diante da Alemanha, por 16-13, ficando assim pelo caminho no apuramento para o Mundial do Japão no próximo ano. Com o seu chutador Raynor Parkinson em evidência, os alemães vão agora defrontar Samoa.

Afinal o tão temido "papão" alemão, recheado de profissionais sul-africanos, australianos, neozelandeses e tutti quanti - só no quinze titular era mais de dez! - não passou de uma equipa com alguma dimensão física mas bem longe de praticar um râguebi empolgante, temível e que até pudesse, como se receava, esmagar estes Lobos que chegaram a Heidelberg com alguns reforços, sem competição há muitas semanas mas que tinham vencido cinco dos últimos seis duelos entre os dois países.

E assim, no final dos emotivos 80 minutos, a seleção nacional (23.ª do ranking mundial) terá que se queixar apenas de si própria por não ter conseguido bater uma Alemanha (29.ª do mundo) afinal tão acessível, que não ganhava um jogo desde novembro passado e que, na última vez que nos defrontara em casa, vencera por 50-27, alcançando sete ensaios. E agora poderemos afirmar com boa certeza que, com um bocadinho (ou um bocadão...) mais de cuidado e profissionalismo por parte da federação portuguesa de râguebi, teria sido tão fácil continuar a sonhar com uma segunda presença num Mundial!

Mas para lá dos problemas que o selecionador Martim Aguiar enfrentou na preparação do encontro (castigos e lesões de peças importantes, jogadores a surgirem em diferentes patamares físicos e sem jogar há muitas semanas, reforços do estrangeiro que afinal não vieram e outros, há demasiado tempo ignorados, que caíram por cá mas foi como se não tivessem vindo...), a derrota ficou muito a dever-se ao pouco acerto de José Rodrigues, o habitualmente eficaz chutador nacional (55 pontos esta época por Portugal) que esta tarde só converteu três dos seis pontapés aos postes que tentou - nove pontos desperdiçados, seis deles de fácil consecução - contra o pontapeador adversário, o sul-africano Raynor Parkinson, impecável ao meter os quatro que dispôs.

Uma diferença... que fez toda a diferença.

Mas já agora, diga-se em abono do excelente médio de abertura de Agronomia (não jogava há sete semanas após ser castigado nos incidentes da meia-final do campeonato na Tapada), que ele teve uma semana bem complicada, pois depois de se deslocar à sua África do Sul natal por problemas familiares acabaria por ser chamado à seleção (ninguém o avisara antes?), tendo voado diretamente dali para a Alemanha sem fazer qualquer treino com a equipa. E como se notou hoje que a sua cabeça, e pés, já estavam de férias há muito tempo...

Os alemães começaram a partida em modo panzer a sufocar os Lobos, acantonados na sua área de 22 e, do mal o menos, sairiam dali aos 6" com (apenas) uma penalidade de Parkinson, que estendia o seu registo como o melhor marcador de sempre da seleção alemã - e não ficaria por ali, infelizmente...

Mas Portugal começava a estabilizar-se, esticava o seu jogo e perante o poder físico contrário desnudava uma dimensão estética de râguebi que os alemães nem sonham poder igualar. Mostrando ser o quinze que mais procurava criar dificuldades ao adversário, variando os seus movimentos, abrindo espaços e alargando o perímetro de jogo, começou a jogar no meio-campo germânico. E apesar das naturais dificuldades nas mêlées e alinhamentos, aos 23" - depois de longo período de paragem por lesão grave do asa Ayron Schramm, obrigado a sair de maca - Rodrigues (que falhara uma tentativa anterior) empatava a 3-3 numa penalidade. E cinco minutos depois passaria os Lobos para a frente em novo pontapé (6-3) tirando partido da indisciplina alemã.

E só nos instantes finais da 1.ª parte, devido a um adiantado por tentativa de interseção faltoso e escusado de Gonçalo Uva - parabéns pela sua 100.ª internacionalização, sendo o 54.º na lista de Centuriões do râguebi mundial, o segundo português após o mano Vasco e, curiosamente, no mesmo dia do famoso pilar springbok Tendai the Beast Mtawarira - a equipa da casa voltou a entrar nos 22 portugueses. Mas a ação determinada do bravo Sebatião Villax (o asa do CDUL foi o melhor Lobo esta tarde, bem acompanhado por Jacques le Roux, o estreante Jean Sousa, Francisco Fernandes, o dinâmico Manuel Queirós e o inconformado Nuno Sousa Guedes, numa equipa bem liderada pelo incansável Salvador Vassalo) terminaria com uma sequência de fases que redundou, felizmente, em coisa nenhuma, mantendo-se Portugal na frente ao intervalo, por 6-3.

O quinze de Martim Aguiar regressou novamente bem dos balneários e depois de Rodrigues desperdiçar novo pontapé aos postes (este pouco complicado), Villax faria o primeiro ensaio da partida (segundo internacional após um marcado á Moldávia) ao receber, solto, a oval e ladeando facilmente uma lenta e mal colocada defesa teutónica (13-3).

Mas só 3 minutos depois num rápido contra-ataque, o formação Sean Armstrong rasgou de alto a baixo as linhas atrasadas portuguesas e transmitiu ao n.º 8 Jarrid Els para o ensaio que reduzia a vantagem nacional 13-10. E que não se podia ter sofrido...

Portugal começava então a fazer alterações no pack (entraram quatro avançados do banco mas nenhum suplente dos três-quartos, nem sequer o francês Cyrille Andreu...) e, personalizado, continuava determinado a mandar no jogo. E pena foi que aos 56" Rodrigues tenha falhado um fácil terceiro pontapé aos postes e que teria proporcionado uma almofada pontual mais confortável.

Os Lobos ainda teriam oportunidade para matar o encontro aos 68" concedendo um turn-over mesmo em cima da linha de ensaio alemão após tremenda sucessão de fases à mão que mereceria melhor sorte.

Quem não falharia seria o chutador rival, Parkinson que, sem tremer, em curtos seis minutos daria a cambalhota no marcador com duas penalidades (a derradeira decorrente de uma falta após imparável mal dinâmico alemão), para os finais 16-13.

Nos derradeiros minutos Portugal ainda tentou voltar ao comando do jogo mas o evidente desgaste já era muito, e o soco no estômago produzido pelos dois pontapés com sucesso de Parkinson, já tinham esvaziado o balão anímico de uma equipa que lutou até ao fim. Mas não teve, antes da partida (que já sabia ir disputar desde novembro!), quem lhe possibilitasse condições para estar ao seu melhor nível no "jogo de toda uma época" e, ao longo dos 80 minutos, sorte e eficácia para continuar no rumo do Mundial. Que, mais uma vez, será visto por nós refastelados no sofá.

Assim será a Alemanha de Pablo Lemoine - o uruguaio esteve em dois Mundiais como jogador e em 2015 conduziu Los Teros como treinador e neste jogo foi coadjuvado pelo antigo selecionar, o sul-africano Kobus Potgieter e o ex-internacional inglês Mouritz Botha, só para termos uma ideia de como o dinheiro do milionário Hans-Peter Wild, dono da Capri-Sonne, ainda é por ali gasto (antes de se virar em exclusivo para o seu Stade Français, que quer devolver aos dias de glória...) - a continuar no caminho para o Mundial 2019, indo agora realizar uma eliminatória a duas mãos com a poderosa Samoa. E em caso da mais que evidente derrota ainda terá oportunidade de disputar o torneio quadrangular de repescagem com Canadá, Hong Kong e uma seleção africana para definir o 20.º país presente no Japão.

Portugal alinhou e marcou: Nuno Sousa Guedes; Adérito Esteves, Rodrigo Freudenthal, Vasco Ribeiro, Tomás Appleton; José Rodrigues (3,3,2), Manuel Queirós; Jacques le Roux (Francisco Sousa), Sebastião Villax (5), Salvador Vassalo, Gonçalo Uva (Geordie McSullea), Jean Sousa; Bruno Rocha (João Taveira), Duarte Diniz, Francisco Fernandes (Bruno Medeiros).

Agora o próximo jogo da seleção nacional está agendado para 3 de novembro, em Bucareste, diante da poderosa Roménia para a repescagem de acesso ao European Championship 2018/19, já que os romenos, após serem fortemente penalizados em termos pontuais, acabaram por ficar na última posição da II divisão europeia e são assim desafiados por Portugal, o vencedor do European Trophy nas duas últimas épocas.

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