Portugal no jardim da Celeste

Uruguai é só a equipa mais titulada do mundo (20) e a mais categórica da fase de grupos deste, só com vitórias e sem golos sofridos. O que nos vale, então? À falta de association, os seis golos de Ronaldo a Muslera

Fui ao jardim da Celeste,

giroflé, giroflá,

fui ao jardim da Celeste,

giroflé, flé, flá.

Caio em mim. Só agora, 41 anos depois. Ando a cantarolar o pseudo-hino do Uruguai desde 1977 e nem sequer um laivo de desconfiança da minha parte. Tsss tsss. Quer dizer, nunca entendi bem a parte do giroflé, flé, flá. O que é o giroflé? O que é flé, flá? Fla-Flu, ainda vá. Agora flé, flá é uma conjugação desconcertante. Como a seleção do Uruguai, conhecida como celeste pelo azul das camisolas e rainha da eficácia na fase de grupos com três vitórias mais zero golos sofridos. Nunca visto na história dos Mundiais.

A esse recorde acresce-se outro de inegável interesse: um só cartão amarelo em 270 minutos. Baaaaah, que Uruguai é este? A equipa com a expulsão mais rápida de sempre em Mundiais (56 segundos, José Batista vs Escócia em 1986) está armada em quê? Em bom samaritano, queres ver? Impossível. Com o Luis Suárez lá metido, é de todo improvável. Então o homem faz hat-trick nas mordidelas (Bakkal no Ajax-PSV, Ivanovic no Chelsea-Liverpool e Chiellini no Itália-Uruguai, hat-trick), é um ver-te-avias sem igual. Nããããã, ele nega tudo. "Outros tempos, agora estou mais calmo. Sou pai de dois filhos." E quê? "Na intimidade, sou muy muy muy tranquilo, pergunta à minha mulher. Sento-me a ver televisão e de lá não saio. Faço zapping por tudo e mais alguma coisa. Quando vejo o Ronaldo, páro. Vem de lá coisa boa, para aprender e tentar mais tarde. O Messi também é assim."

Ao lado de Suárez, outro avançado do Além: Cavani. Craque da cabeça aos pés, dominador de todos os aspetos do jogo, seja dentro ou fora da área. Curiosidades da dupla: aquários de signo e naturais de Salto, capital de Estado a fazer fronteira com a Argentina. Sabem quem também é aquário? Patrício e Ronaldo. Ah poizeeeee, e agora? Como é que se desempata? Ora essa, com golos, óbvio. Os sofridos e os marcados. Dos 23 convocados pelo lendário Óscar Tabárez (71 anos de idade e quarto Mundial da carreira), só dois marcam a Patrício. Um é Coates. Em dose dupla, ainda por cima - no Sporting-Barça e ainda no Belenenses-Sporting. O outro é Cristian Rodríguez, certamente o jogador uruguaio com a camisola mais justa ao corpo. Ou melhor, com o corpo mais justo à camisola. Há já dez anos, é certo. Golo de Cristian a Patrício numa noite de imensa alegria para o guarda-redes: 5-3 do Sporting ao Benfica na meia-final final da Taça de Portugal.

Três é a conta do Uruguai. Muy bien. E os nossos, quem já sabe o que é marcar a Muslera? O de sempre, Ronaldo. A seu cargo, un dos trés cuatro cinco seis. Seis golos. O dobro, portanto. Todos ao serviço do Real Madrid, todos ao Galatasaray, uns em Istambul, outros no Bernabéu. Em campo neutro, ainda nada. Quem sabe hoje, em Sochi? A baliza de Muslera está abençoada. "Naquele retângulo que é a baliza, tenho três namoradas: chamam-se poste direito, poste esquerdo e trave. Mas tem de se defender com intuição e fé. Só assim é que te esticas e chegas onde queres." Palavra de portero. Retomamos, quem sabe hoje em Sochi? A cidade-sede dos Jogos Olímpicos de Inverno 2014 recebe Portugal pela segunda vez em 15 dias.

O que foste lá fazer?

giroflé, giroflá,

O que foste lá fazer?

giroflé, flé, flá.

Essa é boa, o que foste lá fazer? Tão-só assistir ao jogo mais entusiasmante do Mundial até agora: Ronaldo, Diego Costa, Ronaldo, Diego Costa, Nacho, Ronaldo. Hat-trick de Ronaldo, 3-3 com a Espanha. O empate, festejado aos 87 minutos, sabe bem. E nós sabemos como há empates vitoriosos. Sobretudo na fase a eliminar. Muslera e as três namorada da baliza portam-se bem durante os grupos e o estado de graça até é acumulável por mais 120 minutos. Por detrás da aura imbatível, há sempre o lado negro da eliminação nos penáltis - veja-se lá a Suíça em 2006 (zero golos sofridos na fase de grupos, 0-0 após prolongamento vs Ucrânia nos oitavos de final e depois, kaput, 0-3 nos penáltis).

Coincidências à parte, este Uruguai tem mais tudo que Portugal. Mais títulos (20-1). Vinte? Sim, vinte títulos (dois Mundiais, 15 Copas América, dois Jogos Olímpicos e o Mundialito 1980, tudo organizado pela FIFA). Mais golos marcados neste Mundial (5-4), menos sofridos (0-4) e mais futebol. Mais, e em crescendo. O Uruguai joga pouco, 1-0 ao Egito. Avança para o assim-assim no monocórdico 1-0 à Arábia Saudita e, hellas, arrebita com a anfitriã Rússia (3-0). E nós? Há Ronaldo a marcar e Patrício a defender. Por essa ordem. Pelo meio, falta association. É linda a linguagem do antigamente. Association, ora aí está. Nem mais. Falta jogo interior e exterior, sobra moleza. Falta entendimento, sobram nervos à flor da pele. O que fazer para dar o salto qualitativo? Apanhar um susto, um hacker ou ácaro. Como? Heyyyyy, funciona comigo aqui na Rússia. Susto + suores frios = jogo bonito no teclado (em forma de e-mails a pedir ajuda etc e tal).

O dia-a-dia é o regabofe do costume com nuances engraçadas. Quando o inglês é um entrave, saca-se do telemóvel e brinca-se às palavras no google translator. Seja para encontrar um corta-unhas, uma máquina de lavar roupa ou um quarto de hotel. Para cortar a monotonia, sem pré-aviso, o ecrã do portátil abana por todos os lados. De repente, a mensagem para salvar tudo porque a segurança é nula. Rebenta a bolha. A seta do rato anda à deriva, as teclas nem batem a bota com a perdigota. Parece Portugal, atarantado para suster Marrocos e, depois, o Irão. O susto é imenso. E a password do cartão multibanco? E a password do MB Net? E sei lá mais o quê, tudo e mais um pouco. Como se faz? Empurra-se o indicador no botão do off uns bons segundos. Está desligado? Está? Então vamos pregar para outra freguesia. Sei lá, Estónia, Finlândia, Letónia. À volta da Rússia e sempre por dentro do Mundial. Sempre a cantarolar o Jardim da Celeste.

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