Pão-de-ló e pastéis de nata não impedem saída de Carvalhal do Swansea

Português está à beira da descida de divisão, mas nos quatro meses e meio na Premier League deu cartas na comunicação

Pode estar a terminar a aventura de Carlos Carvalhal no Swansea. O clube galês precisa de um autêntico milagre para se manter na I Liga inglesa depois de perder em casa com o Southampton e do empate do Huddersfield em Stamford Bridge. Na última jornada necessita de algo verdadeiramente extraordinário, ou seja, vencer o já despromovido Stoke City, esperar que o Mancherster City bata o Southampton e, entre os dois encontros, anular uma diferença de nove golos (!) atualmente favorável ao clube de Cédric Soares.

Carvalhal assumiu o Swansea a 28 de dezembro, quatro dias depois de ter rescindido com o Sheffield Wednesday do Championship. Nessa altura, a equipa do também português Renato Sanches estava no último lugar a cinco pontos da zona de despromoção. E o melhor que se pode dizer é que Carvalhal entrou com a força toda, derrotando o compatriota Marco Silva, por 2-1, no terreno do Watford.

Nos primeiros doze encontros pelo Swansea, Carvalhal teve apenas uma derrota, venceu em casa Liverpool e Arsenal e estabeleceu um novo recorde de goleada imposta pelo Swansea - 8-1 ao Notts County.

No entanto, Carvalhal fazia-se notar era pelo seu comportamento extrafutebol. Nas conferências de imprensa ofereceu pastéis de nata e pão-de-ló de Vizela aos jornalistas, a quem brindava com expressões que ficavam no ouvido. Por exemplo, a 22 de janeiro, depois de vencer o agora finalista da Liga dos Campeões: "O Liverpool é como um Fórmula 1. Mas um Fórmula 1 em hora de ponta nas ruas de Londres não consegue atingir muita velocidade. Então a minha mensagem para os jogadores foi de que tentassem colocar o Liverpool no meio do trânsito da hora de ponta."

O português transportou o famoso "meter a carne toda no assador" da autoria de Quinito para Premier League - "Putting all the meat in the barbecue." Ou a fabulosa frase de João Pinto, antigo lateral direito do FC Porto. "Se me pergunta como vai ser a partida, tenho de citar um famoso jogador português que uma vez disse: "prognósticos só no fim do jogo.""

Perante tanto estado de graça e com o Swansea a mostrar força para se manter, Carvalhal teve mais uma tirada que fez furor. "Se um clube me despede, na manhã seguinte tenho pena dele porque perderam um grande treinador."

Quando referiu que o Swansea "está no hospital mas já saiu dos cuidados intensivos e até já tem visitas", a reputada BBC cedeu aos encantos de Carlos Carvalhal e fez um sketch com todas as frases do treinador português.

O tormento começou após o triunfo a 3 de março por 4-1 sobre o West Ham - "fizemos o West Ham dançar e foi rock and roll"-, pois seguiram-se nove encontros, três empates e seis derrotas, quatro delas nas últimas quatro jornadas.

Faltou a componente desportiva acompanhar o show de comunicação de Carlos Carvalhal, que, inclusivamente, deu uma conferência de imprensa conjunta com José Mourinho, após derrota em Old Trafford (0-2), uma situação muito elogiada pela exigente comunicação social britânica. A decisão de prescindir dos serviços do português parece estar tomada, segundo a BBC, e alguma imprensa considera mesmo a possibilidade de Carvalhal já nem se sentar no banco neste domingo.

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