O vilão Mourinho e o simpático Carvalhal duelam em Old Trafford

Manchester United recebe o Swansea, num encontro que colocará frente a frente, pela primeira vez, dois treinadores portugueses que vivem diferentes estados de graça

O antipático e o simpático. O vilão e o bom. José Mourinho e Carlos Carvalhal encontram-se hoje (15.00) em Old Trafford, num Manchester United-Swansea que será o primeiro duelo entre os técnicos portugueses que vivem climas bem opostos na Premier League.

Apesar de ocupar o segundo lugar, apenas atrás do quase campeão Manchester City, Mourinho está na mira de quase tudo e todos em Inglaterra. O estilo de futebol do United é criticado, as relações com os jogadores controversas e a recente eliminação da Liga dos Campeões deixou marcas difíceis de superar.

Do outro lado, apresenta-se um treinador em total estado de graça. Carlos Carvalhal chegou ao comando da equipa do Swansea apenas em dezembro passado, após ter sido demitido do Sheffield Wednesday, da segunda liga inglesa. E a verdade é que tem feito um trabalho de se lhe tirar o chapéu. Em 17 jogos perdeu apenas três, empatou seis e ganhou oito. Excelente para uma equipa que ocupava a última posição e agora está já em 14.º, entre 20 equipas.

Mas mais do que a prestação desportiva, é o estilo do bracarense que tem conquistado adeptos e imprensa - a mesma que fulmina José Mourinho. Se o técnico do United surge de cara cerrada junto dos jornalistas, Carvalhal aparece sempre com um sorriso na cara; se o Special One por vezes se levanta de uma conferência a meio, o seu homólogo até pastéis de nata oferece aos repórteres. Por tudo isto, o duelo de hoje tem suscitado grande curiosidade.

Carlos Carvalhal, no entanto, só tem elogios para Mourinho, embora saliente que são ambos muito diferentes. "Enquanto português, estou muito orgulhoso por estar com uma pessoa e um treinador como Mourinho, que é do meu país. É uma pessoa de quem se gosta ou se odeia. Eu sou dos que gostam, muito. É um special one. Tem grande confiança nele mesmo, como eu. Mas tem uma personalidade totalmente diferente da minha. Gosta de estar em confronto com as pessoas e é muito bom nisso. Eu sou totalmente diferente. Gosto de estar longe do confronto. Gosto de ganhar, mas se alguém tentar lutar comigo irá perceber que está apenas a lutar contra si mesmo", salientou o técnico do Swansea.

Quem aceitou, de sorriso nos lábios, a opinião de Carvalhal foi o próprio Mourinho, salientando que já falou com o compatriota sobre o assunto... mais do que uma vez. "Falei com ele ontem à noite, ele disse que eu era o rei, mas dos treinadores. Ele disse isso porque desde que venci com o FC Porto, e saí, abri as portas para outros portugueses. É uma coisa que eu sei que é verdade", disse o treinador do Man. United, elogiando o trabalho de Carvalhal: "Desde que o Carlos chegou a equipa melhorou bastante, obteve pontos de que muitos não estavam à espera e está numa posição próxima de celebrar a permanência."

Quem acompanha de perto os dois treinadores é Tom Colomosse, jornalista do Daily Standard. Elogia o trabalho de Carvalhal, mas diz também entender a forma como Mourinho encara a imprensa. "Carvalhal entendeu que tinha de ter um estilo diferente daquele que também tinha no Sheffield, mais agressivo, onde já tinha conquistado resultados. Agora no Swansea quis conquistar primeiro o grupo e todos em redor, pois o clube era último. E como o conseguiu manteve sempre o mesmo registo. É uma pessoa agradável, que sabe ouvir, mas também diz o que tem a dizer", diz o jornalista, que também acompanhou de perto Mourinho, no Chelsea.

"Como Carvalhal diz, é uma pessoa que gosta do confronto, com quem quer que seja. A crítica fala muito do seu estilo de jogo, mas ele nunca mudou. Ganhou muita coisa assim e agora torna-se mais fácil criticá-lo porque não tem ganho. Mas é um grande treinador. Entre Carvalhal e Mourinho? Pessoas diferentes, mas Mourinho é Mourinho, Carvalhal tem ainda de provar o que ele já provou", confessou.

Para o embate de hoje, ainda assim, o Manchester United é claramente o favorito, mesmo que Carvalhal "nunca tenha perdido com Mourinho nem em Old Trafford", como brincou o técnico do Swansea na antevisão [nunca enfrentou Mourinho nem o United], em mais uma das suas frases que têm conquistado as ilhas britânicas.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.