O drama do desaparecimento de Fisher segundo um velejador português da VOR

Hipóteses de encontrar o velejador inglês com vida são "diminutas". Português Bernardo Freitas, da equipa TTOP, conhece bem o local onde o tripulante da Scallywag caiu ao mar e sabe como foi difícil a equipa abandonar o resgate

A direção da regata da Volvo Ocean Race (VOR) já dá o velejador britânico, John Fisher, como "perdido no mar". Ou seja, sem vida. A confirmar-se a morte do tripulante da SHK Scallywag (equipa do português António Fontes) que se encontra desaparecido desde as 14.42 de segunda-feira, numa zona remota do oceano Pacífico, será o sexto velejador a perder a vida na regata de circum-navegação mais famosa do mundo náutico.

Logo na primeira edição foram três os participantes que saíram para o mar e não voltaram a terra. Paul Waterhouse, da equipa Tauranga, e Dominique Guillet, da 33 Export, perderam a vida na segunda etapa; Bernie Hosking, da Great Britain II, na 3.ª etapa dessa edição de 1973-74. Na edição de 1989-90, dois tripulantes do Creighton"s Naturally, Tony Philips e Bart Van den Dwey, caíram ao mar e apenas Dwey foi resgatado e reanimado. Depois, foi Hans Horrevoets, da ABN AMRO TWO, a perder a vida durante a sétima etapa da edição de 2005-06.

Agora foi John Fisher, o estreante tripulante da SHK Scallywag, a desaparecer no mar, na sétima etapa da VOR, entre Auckland (Nova Zelândia) e Itajaí (Brasil). "A tripulação deve estar devastada com o que aconteceu. Eles tiveram de abandonar as buscas por ser quase impossível resgatar com vida o velejador que caiu à água. Se ficassem estavam a pôr em risco toda a tripulação, por isso, psicologicamente eles não devem estar muito bem nesta altura", admitiu ao DN Bernardo Freitas, um dos portugueses que participa nesta VOR 2017-18, lembrando que a decisão de abandonar um resgate "é do mais violento que existe no mar".

Mas após 12 horas de "exaustivas" buscas, e perante "o agravamento das condições meteorológicas e o cair da noite", a equipa tomou "a decisão que salvou a tripulação", na opinião do português. "Somos obrigados a fazer um curso de sobrevivência e resgate antes das regatas começarem e assim que uma situação destas acontece é seguido um protocolo, que estipula como se faz a busca e tudo o mais. Há sempre contacto via satélite com a race control, a equipa em terra, a organização, o Centro de Coordenação de Resgate Marítimo, equipas de salvamento e médicos da VOR.... Todos sabiam que as probabilidades de o encontrar com vida era m diminutas e ficar lá era colocar todos em risco", explicou.

E tudo isto perante condições meteorológicas adversas, vento de 35 nós (mais de 60 km/hora) e ondas de seis metros a dificultar a manobrabilidade do barco: "Ele podia estar a alguns metros e não o verem, podia estar vivo e gritar e ninguém o ouvir."

Este foi o segundo episódio de homem ao mar na Scallywag. Na quarta regata, o australiano Alex Gough caiu ao mar, mas o local (Papua Nova Guiné) e as boas condições meteorológicas facilitaram o resgate. O que não aconteceu no caso de Fisher, que terá caído ao mar a 1400 milhas (2600 quilómetros) a oeste do cabo Horn. "É o ponto mais remoto da terra, fica mais perto de uma estação espacial do que de terra, por isso todas as equipas de salvamento estavam a dias de distância, o que agravou toda a situação", segundo Bernardo, que tem alternado etapas com Frederico de Melo, o outro português da equipa Turn The Tide On Plastic (TTOP), e só por isso não está no mar nesta altura.

O britânico estava de vigia na altura do acidente e tinha o equipamento de sobrevivência adequado, segundo a organização. Mas para o português da TTOP, "nesta altura ninguém sabe ao certo o que aconteceu". No entanto, "dadas as condições e o local que estavam a atravessar, de certeza que ele tinha vestido o fato de sobrevivência, o fato mais seguro que temos, e claramente devia ter o colete salva-vidas, e é nesse colete que está o tal equipamento GPS de localização. Mas o navio de resgate mais próximo foi localizado a 720 km".

Ele próprio já foi "levado por algumas ondas quando não estava à espera", mas tudo não passou de um susto. "A força da natureza e a velocidade do barco por vezes apanha-nos de surpresa, mas é nessas alturas que abrimos os olhos e vemos que não é por sermos velejadores profissionais que podemos relaxar", confessou Bernardo.

O veleiro da equipa de Hong Kong dirige-se para terra, mas já está fora da 13.ª edição da Volvo Ocean Race , prova que segue agora "de coração partido", segundo o CEO Richard Brisius.

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