O dia em que Sérgio atirou uma garrafa de água contra Jesus

Ex-dirigente do Felgueiras recorda o tempo em que conviveu de perto com os atuais treinadores de FC Porto e Sporting

Jorge Jesus e Sérgio Conceição reencontram-se no domingo (19,15) em Alvalade como adversários, naquele que será o primeiro clássico que irá pô-los em polos opostos, com o primeiro no comando do Sporting e o outro a liderar o FC Porto. Será uma espécie de reencontro entre professor e aluno, ou não tivesse o atual técnico leonino sido o responsável pela ascensão meteórica do portista no futebol nacional. Foi há 22 anos, mais concretamente na época 1995-96, na estreia do Felgueiras na I Divisão.

O sonho da subida tinha sido alcançado por Jorge Jesus e era preciso construir uma equipa à medida das necessidades para garantir a permanência. E um dos jogadores identificados como mais talentosos era um extremo-direito de apenas 20 anos, que na temporada anterior tinha dado nas vistas no Leça. O seu nome? Sérgio Conceição, que pertencia aos quadros dos dragões. "Eu tinha boas relações com o FC Porto e sugeri a contratação do Sérgio ao Jorge Jesus , que deu de imediato o aval. E a verdade que é acabou por ser um jogador importantíssimo para nós, a ponto de no ano a seguir ele se ter fixado como titular indiscutível do FC Porto", revelou ao DN Sidónio Ribeiro, que na altura desempenhava o cargo de chefe do departamento de futebol do Felgueiras.

Já nessa altura, ambos revelavam personalidades muito fortes, com Sérgio Conceição a evidenciar a rebeldia própria de um jovem e que acabaria por caracterizar a sua carreira de futebolista internacional. Sidónio Ribeiro destaca que "desde o início se notou uma forte empatia entre os dois", mas houve um momento que poderia ter sido de rutura. "Num dos primeiros jogos da temporada, o Jorge Jesus substituiu o Sérgio, que não gostou da decisão do treinador e, como retaliação, atirou uma garrafa de água na direção do treinador", conta o antigo dirigente. Não lhe acertou, mas estava o caldo entornado.

"O Sérgio foi chamado pelo Jorge Jesus, que o avisou de que quem mandava na equipa era ele e, como tal, não queria ver repetido aquele comportamento", adiantou Sidónio Ribeiro, que também teve uma conversa com o extremo: "Multei-o em 30% do ordenado e disse-lhe que lhe devolvia o dinheiro se ele começasse a jogar bem. Acabei por lhe devolver o dinheiro porque ele foi um dos melhores jogadores da equipa."

Amizade não será beliscada

Sidónio Ribeiro assume que encontra "semelhanças" no trabalho que ambos desenvolvem atualmente como treinadores. "Ambos transmitem uma certa mística aos seus jogadores, treinam como se estivessem em jogo... têm de lutar em campo e os treinos têm de ser rasgadinhos", adianta, mostrando-se convicto de que "Jorge Jesus foi importante para aquilo que foi a carreira do Sérgio, sobretudo pelo que viveram no Felgueiras, pois a partir daí o Sérgio brilhou como jogador".

Apesar de estarem em polos opostos, a lutar pelo título de campeão nacional, Sidónio Ribeiro acredita que "a relação entre ambos não será beliscada, mas nos 90 minutos cada um vai lutar até ao limite, pois são dois vencedores". Depois da partida tudo voltará à normalidade: "Eles são muito parecidos, como tal vão continuar a ser amigos e a respeitar-se."

Na antevisão ao clássico de domingo, o ex-dirigente do Felgueiras está convencido de que "o professor vai levar a melhor sobre o aluno, porque joga em casa e tem melhor plantel", pois, diz, "o Sérgio Conceição tem um bom onze e pouco mais do que isso. É verdade que lhe deu outra dinâmica, mas falta-lhe ter um plantel mais equilibrado".

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