Nelson Évora estica a lenda "contra tudo e contra todos"

Aos 33 anos, o atleta português continua a mostrar nível de elite e conseguiu ontem em Londres mais um bronze mundial, no fecho de uma época de mudanças

Afinal de que são feitos os grandes campeões, aqueles que aparecem quando os grandes palcos assim o pedem, aqueles que fazem marcas que valem medalhas, aqueles que quando a pressão se adensa sobre os ombros, não se deixam vergar? A resposta mais portuguesa que encontramos está personalizada em Nelson Évora.

Os 33 anos do campeão português faziam-no surgir como o mais velho desta final do triplo salto nos mundiais de atletismo. Aquele que os adversários respeitam pelo passado, mas que olham de forma condescendente no presente, de quem tudo já se esperou, mas que já devia ter dado lugar a outros. A isso Nelson Évora responde onde tudo acontece: na caixa de areia.

Aos sextos mundiais de atletismo, o português saltou 17,19 metros para o terceiro lugar, que lhe valeu bronze, a sua quarta medalha nesta competição - depois do ouro em Osaka 2007, prata em Berlim 2009 e bronze em Pequim 2015.

Nos lugares mais altos do pódio ficaram os americanos do outro mundo e de outras marcas. Chris Taylor e Will Claye tiveram uma luta a dois, salto a salto. Taylor confirmou o favoritismo e, com 17,68m, garantiu o ouro e o seu terceiro título de campeão (a que junta dois olímpicos); cinco centímetros e um lugar a baixo ficou o compatriota Will Claye.

Mas Nelson Évora festejou tanto como os americanos na hora em que as coisas ficaram decididas - quando percebeu que nem o azeri Alexis Copello (nascido em Cuba), nem o cubano Cristían Nápoles iriam sair dos 17,16m que os deixaram atrás do português.

Primeiro, encaminhou-se para a câmara que o filmava e simulou uma cabeçada, depois foi em busca da bandeira portuguesa e do seu atual treinador, o ídolo de infância, o cubano Ivan Pedroso, a quem agradeceu de forma efusiva. Afinal, desde que se juntaram, no final do verão de 2016, já conquistaram juntos um título de campeão europeu de pista coberta, em Belgrado, e agora este bronze mundial, numa época marcada ainda pela troca de clube, do Benfica para o Sporting.

Por entre os festejos com os familiares e amigos que vieram até Londres, e que são a sua mais fiel claque, houve ainda tempo para regressar à caixa de areia para um ritual que se repete desde sempre.. A cada medalha, a cada marca inesquecível, Nelson Évora faz questão de recolher parte dessa areia numa garrafa de plástico e juntá-la à sua coleção. O museu cresce a olhos vistos, e esta é apenas mais uma entre tantas.

A medalha é de bronze e corresponde ao terceiro lugar, mas a admiração que os vários altetas têm pelo português levam-no ao lugar mais alto. Alexis Copello, quinto classificado nesta competição, confessou no final que vê em Nelson "um exemplo a seguir, pela constância ano após ano". Depois vieram os elogios dos americanos Taylor e Claye, que pediram na conferência de imprensa um aplauso ao português por serem profundos admiradores deste "sénior", como lhe chamaram vezes sem conta.

E Nelson Évora, que esteve em silêncio durante toda esta competição, por opção (sem nunca revelar o porquê), acabou por quebrá-lo na conferência de imprensa oficial para responder aos elogios e às provocações dos mais novos.

O atleta português referiu que "como sénior esperava surpreender os mais novos", mas "fica para a próxima", prometeu. "Foi uma competição boa, eles [Claye e Taylor] mostraram e provaram o favoritismo que tinham."

"Sinto-me muito feliz, sem dúvida, com este terceiro lugar, depois de uma época em que não me deixaram competir nos principais meetings da Liga Diamante", disse. "Esperava isto [a medalha] e até um pouco mais. Mas, como já disse, a falta de ritmo não me permitiu isso. Tenho muito menos provas do que a maior parte dos meus adversários e fiz o que fiz", acrescentou.

Depois, vieram as palavras para os portugueses e para aqueles que continuam a duvidar: "Para mim é sempre um orgulho representar Portugal. Tento sempre trazer uma medalha para o nosso país. Contra tudo, contra todos, contra a estatística, acabo por conseguir contrariar tudo. Fico contente por mim e por Portugal".

Ainda não existe uma definição concreta sobre de que é que são feitos os grandes campeões, mas Nelson Évora continuará por cá a dar--nos pistas e saltos para que nos aproximemos da resposta.

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