Na 1.ª etapa oceânica a sério a experiência fez a diferença

Equipa espanhola MAPFRE beneficiou de um "erro grave" de navegação da equipa franco-chinesa Dongfeng

Foi a segunda etapa da Volvo Ocean Race (VOR) - a primeira ligou Alicante a Lisboa - mas a primeira verdadeiramente a sério, percorrendo o Atlântico, da capital portuguesa até à Cidade do Cabo (África do Sul), pelo meio quase "batendo" no Brasil, como os navegadores portugueses faziam há cinco séculos. Quase oito mil milhas (14,8 mil quilómetros), percorridas em quase três semanas, com ventos e ondulações de todos os tipos e feitios, desde quase 30 nós de uma poderosa nortada à saída de Lisboa até situações de quase calmaria no equador (mesmo assim, menos do que se esperava).

Contas feitas, primeira lição: venceu a experiência. As quatro primeiras equipas a chegar à Cidade do Cabo são todas dirigidas por velejadores que já tinham sido skippers na edição anterior desta regata de volta ao mundo: o espanhol Xabi Fernández (MAPFRE), o francês Charles Caudrelier (Dong- feng), o norte-americano Charlie Enright (Vestas) e o holandês (agora a completar a sua oitava volta ao mundo!) Bouwe Bekking (Brunel). E têm tanta experiência eles como os respetivos navegadores - peças pelo menos tão importantes quanto os skippers nesta etapa, cheia de transições difíceis entre sistemas atmosféricos. Já nos três últimos, a regra é diferente: a britânica Dee Caffari (líder da equipa com bandeira portuguesa, Turn the Tide on Plastic - TTOP), o australiano David Witt (Scallywag) e o holandês Simeon Tienpont (AkzoNobel), sendo todos velejadores experientes, estão todos a estrear-se como skippers nesta regata.

Venceu a MAPFRE - a equipa mais favorita à vitória final - mas não exclusivamente por mérito próprio. Na verdade, até à transição do hemisfério norte para o hemisfério sul, a frota foi liderada pelo Dongfeng. Só que na decisão de abandonar a navegação relativamente perto do Brasil e virar para oeste em direção ao Cabo, o barco prolongou demasiado um bordo, o que se revelou fatal para as suas aspirações à vitória (passou subitamente da liderança para o quarto lugar). Caudrelier, o skipper, reconheceu de imediato onde tinham cometido um "erro grave". "We are fucked, completely fucked!", vociferava no convés, no seu inglês afrancesado, o navegador Pascal Bidégorry. Ontem, já em terra, Caudrelier explicava o erro: entre uma opção que era a dele e outra que era a do seu navegador, escolheram uma espécie de versão intermédia. Revelou-se o pior dos mundos. Restou-lhe recuperar terreno (como aliás já tinha feito na primeira etapa, Alicante-Lisboa) : acabaram em segundo, a três horas dos espanhóis.

A chegada revelou-se emocionante para os três últimos do pelotão: chegaram separados de 22 minutos, entre o sexto e o sétimo a diferença foi de escassos 68 segundos. A bordo do Turn The Tide On Plastic seguia o português Frederico Melo, que nunca tinha estado tanto tempo no mar. "Uma experiência inacreditável, cresci bastante como homem."

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.