Mister Obikwelu. Velocista ajuda a tratar do físico de vários pilotos

Atleta trabalha com o fisiologista Emiliano Ventura e tem o espanhol Carlos Sainz Jr. entre os "clientes". Lourenço da Veiga conta como é ser treinado por um medalhado olímpico

Mister Francis Obikwelu! Aos 38 anos, o futuro do velocista do Sporting (ver caixa) passa pelo treino. Ele já o tinha assumido, mas ver o medalhado de prata nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004 em ação no ginásio do Complexo de Piscinas do Jamor é outra coisa. "Esta é a minha área, quero ser o melhor treinador do mundo. Não é só talento e treino, é a disciplina, aquecer bem, o descanso, não ter medo de cair e de me levantar de novo. Para mim é importante transmitir isso aos jovens, essa é a minha ideia de como construir um campeão", explicou ao DN, lembrando que já não tem 19 anos.

Após ter feito a formação de treinador da Federação Portuguesa de Atletismo, Obikwelu juntou-se a Emiliano Ventura, um fisiologista português treinador oficial dos pilotos da Honda. Dar treino à holandesa Beitske Visser (Formula V8) e ao compatriota Jules Szymkowiak (piloto da Mercedes), ou a Tiago Monteiro, "já é normal" para o sprinter: "Ser atleta-treinador é fácil, não vou dizer que é difícil. Há muito para aprender, mas é cada dia melhor. Gosto disso."

Ivan Muller, tetracampeão do Mundo de Carros de Turismo (WTCC), também já passou pelas mãos de Obikwelu, que tem ainda na "carteira de clientes" o espanhol Carlos Sainz Jr., piloto de Fórmula 1 e filho do ex-piloto de ralis Carlos Sainz. Um dos habitués é Lourenço da Veiga e o piloto português garante que não podia estar mais satisfeito. "É bom treinar com ele, puxa por nós, um bocadinho de mais [risos]. A sério, é bom, sente-se a evolução. Não é só na parte física, também a nível de cabeça sabe puxar por nós. Ele é muito forte mentalmente e a sua experiência ajuda. A maneira como ele faz o exercício e a potência que ele põe ajudam muito", explicou Lourenço ao DN, no final de mais uma sessão no ginásio do Jamor.

Obikwelu é que não lhe dá descanso. "Ele às vezes manda fazer um minuto, eu começo a contar e quando passa um minuto ele continua caladinho para eu fazer mais", conta o piloto, antes do mister o interromper: "Queixam-se para ver se eu paro o exercício, mas eu digo, continua, continua, só falta um minuto... e quando vão ver já fizeram mais cinco minutos."

Claro que "há sempre uns espertalhões" que acham que lhe podem ganhar nos exercícios. "Eles tentam", brincou Obikwelu, lembrando que o grupo de treino "é como uma família", em que um tenta puxar pelo outro. E, apesar de não gostar de se vangloriar, o medalhado olímpico também não veste a pele de falso humilde: "Eu nasci assim, mente forte e espírito de sacrifício, eu gosto de sofrer e levar o corpo ao limite. Eu não tenho limite, estou sempre a puxar, tenho 38 anos, mas para mim a idade é número. Eu posso correr até depois dos 40 se me cuidar e treinar bem. É essa imagem que eu quero passar para eles."

Ao lado, está Emiliano, que Obikwelu faz questão de tratar por boss (patrão). "É uma questão de educação. Tenho sorte em trabalhar com ele, foi Deus que o colocou no meu caminho e ele acreditou em mim e no meu trabalho. Ele é como eu, gosta de trabalhar, não gosta de brincar no treino. Ele é que manda, eu ainda estou a aprender", explicou o luso-nigeriano.

E o boss sabe quem tem ao lado. "O Francis é fantástico, dada a sua experiência prática do terreno, como atleta. Como somos amigos e temos uma relação muito boa desde que partilhámos um treinador, ele procurou-me e eu achei que fazia todo o sentido integrá-lo na equipa", contou ao DN o antigo atleta de 400 metros barreiras, antes de elogiar o trabalho "fantástico" que ele tem feito com os pilotos.

"É sempre bom ter alguém com o currículo e experiência dele. Não é uma pessoa qualquer. E é bom para ele, que ainda treina connosco e desenvolve as capacidades como técnico. A transição de atleta para treinador faz todo o sentido", defendeu Emiliano, sem ciúmes do protagonismo do amigo Francis.

E não é estranho para os atletas ter ali um medalhado olímpico a mandá-los fazer abdominais, por exemplo...? "Antes pelo contrário. Acabam por vê-lo como um exemplo e os exemplos práticos que ele traz ao treino são uma mais-valia. Ele treinou com os melhores treinadores do mundo, nos EUA, em Espanha, na Jamaica, etc... Ele e o Bolt são os dois atletas a terem conseguido dois títulos mundiais, ainda juniores, nos 100 e 200 metros, é recordista da Europa, um dos melhores velocistas de todos os tempos e ainda está em atividade, tem o bichinho pelo competição e sabe o que transmitir nos momentos--chave", respondeu o treinador.

E não tem dúvidas de que o vice-campeão olímpico de Atenas 2004 tem futuro na área técnica: "O Obikwelu já poderia ser um dos melhores treinadores nacionais, é quem faz sentido estar à frente da velocidade em Portugal. Terá um futuro brilhante como treinador se conseguir juntar aquilo que consegue fazer no terreno com os fundamentos teóricos necessários. Se o fizer vai ser o melhor treinador português."

Quem é Emiliano Ventura?

Antigo atleta dos 400 metros barreiras, dedicou-se ao treino, especializando-se em alta performance no automobilismo. O fisiologista trabalhou na empresa Hintsa Performance, em Genebra, responsável pela preparação física de mais de cem medalhados olímpicos e de 13 dos atuais 18 pilotos da F1.

Emiliano foi responsável pela preparação física dos pilotos da RedBull Junior Team, um projeto onde conheceu Carlos Sainz Jr. Viveram juntos em Londres e já o recebeu no Jamor. Agora é preparador físico da Honda na WTCC e também dos portugueses Tiago Monteiro, António Félix da Costa ou Lourenço Beirão da Veiga. O velocista leonino ajuda-o nessa missão.

E porquê o automobilismo? Ventura explica: "O piloto chega a uma corrida e tem 10/12 mecânicos, dois engenheiros e mais não sei quantas pessoas para tratar do carro e nós somos os únicos responsáveis pelo piloto. E se algo não corre bem a responsabilidade é sempre do preparador físico. Estamos a falar de carros que exigem muito do piloto fisicamente. Um carro com ground force, um travão que pesa 120 kg, com uma aerodinâmica que mete uma força G cinco vezes o peso do corpo... e um piloto não pode chegar a meio de um dia de treinos em que faz cem voltas a um circuito e já estar cansado..."

Ler mais

Exclusivos