Mais um desafio à segunda juventude de Nelson Évora

Saltador é principal candidato luso ao pódio nos Mundiais de pista coberta, que começam hoje. Tsanko também aponta ao topo

Em Birmingham 2007 deu o último passo de balanço para voar para o trono do triplo salto. Regressa à "capital do atletismo britânico", 11 anos depois, para provar que está a viver uma segunda juventude, entre a elite mundial. Nelson Évora é a principal figura portuguesa nos Mundiais de pista coberta, que se realizam entre hoje e domingo, na Arena Birmingham. Numa seleção nacional com mais sete atletas, o lançador Tsanko Arnaudov também aponta ao topo.

Os indicadores, do lado masculino, são positivos. Nelson Évora fez no mês passado o melhor salto em dez anos em pista coberta (17,30 metros, a três centímetros do máximo pessoal). E Tsanko Arnaudov melhorou, há semana e meia, o recorde nacional de lançamento do peso indoor (21,27 metros). "Temos atletas com valor e que já o demonstraram nesta época", assegura, ao DN, o vice-presidente da Federação Portuguesa de Atletismo para o Alto Rendimento e Seleções Nacionais, Paulo Bernardo. E, mesmo sublinhando que "isso, por si só, não significa que conquistem medalhas", o dirigente, que lidera a comitiva lusa em Birmingham, admite que "tudo é possível" - principalmente para o triplista.

Nelson Évora, antigo campeão mundial e olímpico, atual bicampeão europeu de pista coberta e 3.º nos dois últimos Mundiais de ar livre, é um claro candidato ao pódio, no seu regresso a Birmingham. O veterano saltador esteve lá nos Europeus de pista coberta de 2007: foi 5.º, na última etapa da afirmação internacional, que o levaria a conquistar o título mundial, em Osaka, cinco meses depois, e o ouro olímpico, em Pequim 2008.

Agora, passado 11 anos, o saltador chega ao palco onde o seu treinador mais brilhou (Iván Pedroso é o único atleta masculino que se sagrou cinco vezes campeão mundial de pista coberta) com a segunda melhor marca entre os 16 inscritos. Só Almir dos Santos - antigo atleta de altura e comprimento, convertido em triplista - fez melhor do que ele neste ano (17, 37).

O brasileiro e o americano Will Claye (atual vice-campeão olímpico e de Mundiais de ar livre, com 17,28 como melhor marca de 2018) prometem ser os principais rivais do português, numa prova marcada pelas ausências do estado-unidense Christian Taylor (poder hegemónico da disciplina desde 2011), do francês Teddy Tamgho (recordista global indoor, com 17,92) e do cubano Pedro Pablo Pichardo (que ainda não completou a naturalização como português). A viver uma segunda juventude desde 2015 - após um calvário de lesões, operações e recuperações, que o manteve afastado da ribalta -, Nelson Évora parece em condições de voltar a conquistar uma medalha em Mundiais de pista coberta, dez anos depois do bronze de Valência.

O saltador, que vai igualar Naide Gomes como atleta português com mais presenças em mundiais de pista coberta (cinco), resguarda-se dos contactos com os media nestes momentos, mas a ambição é clara. "O Nelson é um lutador, que se apresenta sempre ao melhor nível nas grandes competições. A possibilidade de conseguir bom resultado é elevada", fixa Paulo Bernardo.

A maior comitiva lusa desde 2004

Enquanto Évora, de 33 anos, tem muita experiência nesta competição, os restantes sete portugueses em prova farão a estreia em Mundiais de pista coberta - no que será a maior representação lusa desde Budapeste 2004 (também oito atletas). Tsanko Arnaudov, bronze nos Europeus de ar livre de 2016 e 4.º nos Europeus de pista coberta de 2017, já exibe, ainda assim, um currículo de respeito entre a elite internacional do lançamento do peso. E é também candidato a uma posição entre os oito primeiros.

O luso, de 25 anos e nascido na Bulgária, chega a Birmingham com a sétima melhor marca, entre os 17 inscritos (os 21,27 metros que lhe valeram a renovação do recorde nacional). E, mesmo que a conquista de uma medalha pareça distante - o checo Tomás Stanek (22,17), o polaco Konrad Bukowiecki (22,00) e o neozelandês Tomas Walsh (21,87) destacam-se -, mostra ambição. "O meu objetivo é competir comigo mesmo, dar o meu melhor. Um bom resultado seria conseguir mais um recorde nacional ou ficar muito perto disso", referiu, à partida para os Mundiais. "Tsanko demonstrou estar em condições muito boas, a nível físico e psicológico. É candidato aos primeiros lugares", acrescenta o vice-presidente da Federação Portuguesa de Atletismo

Para Cátia Azevedo (400 metros, 29.ª marca em 38 inscritas), Lecabela Quaresma (pentatlo, 10.ª em 12), Lorene Bazolo (60 m, 28.ª em 52) e a estafeta feminina 4x400 m (Cátia Azevedo, Dorothé Évora, Filipa Martins e Rivinilda Mentai, 10.as em dez), os objetivos são mais modestos. "Para a Lorene e a Cátia, é conseguir boas corridas e passar as meias-finais", fixa Paulo Bernardo. Já para Lecabela e a estafeta feminina (que se estreia em grandes competições indoor), importa ganhar balanço para outros voos. Afinal, mais do que nestes Mundiais de pista coberta, a grande meta da época de todos os portugueses está nos Europeus de ar livre, que decorrem em Berlim (Alemanha), entre 7 a 12 de agosto.

AGENDA DOS ATLETAS PORTUGUESES:
Sexta-feira, 2
10.18 Lecabela Quaresma Pentatlo (60m barreiras)
10.35 Lorene Bazolo 60 m (eliminatórias)
11.55 Lecabela Quaresma Pentatlo (altura)
12.10 Cátia Azevedo 400m (eliminatórias)
13.15 Lecabela Quaresma Pentatlo (peso)
18.00 Lecabela Quaresma Pentatlo (comprimento)
18.50 Lorene Bazolo 60 m (semi-finais) *
20.17 Lecabela Quaresma Pentatlo (800m) - última prova
20.32 Cátia Azevedo 400m (semi-finais) *
21.38 Lorene Bazolo 60 m (final) *

Sábado, 3
11.45 Tsanko Arnaudov Peso (final)
13.05 Estafeta feminina 4x400 (eliminatórias)
19.08 Nelson Évora Triplo salto (final)
20.05 Cátia Azevedo 400m (final) *

Domingo, 4
16.30 Estafeta feminina 4x400 (final) *

* em caso de apuramento

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