Lusitano. "O maior do Alentejo" não esquece os seus tempos áureos

Aos 89 anos, Pepe é um dos últimos guardiões das memórias dos tempos dourados do clube eborense. “O Lusitano tinha uma linha muito boa, ganhava a todos”, diz o antigo jogador

Eborenses reencontram o FC Porto (hoje, 20.15), 52 anos após o último duelo na 1.ª divisão. O sonho é voltar à ribalta

"Já foi há tanto tempo... o Lusitano tinha uma linha boa, ganhava a todos [os grandes da época] e chegou mesmo a andar pelo 1.º lugar do campeonato." Apesar dos 89 anos, Pepe não tropeça nas memórias. E, como o antigo futebolista, Évora não esquece os tempos áureos do emblema que passou 14 temporadas na 1.ª divisão - de 1952 a 1966 - e hoje revisita o passado, ao reencontrar o FC Porto (20.15, Sport TV1), em casa emprestada (Estádio do Restelo, Lisboa), para a 3.ª eliminatória da Taça de Portugal.

O Lusitano, clube alentejano com mais anos de 1.ª divisão (além dele, só O Elvas e Campomaiorense por lá andaram), competiu 71 épocas nos campeonatos nacionais, mas está caído desde 2010 nos distritais de Évora (em 2011-12, nem sequer teve futebol sénior). Longe vão os tempos em que, com Pepe e internacionais portugueses como Dinis Vital, José Pedro Biléu e Patalino, batia o pé aos grandes, que caíam com frequência em Évora (o FC Porto perdeu lá cinco vezes e da última visita, há 52 anos, empatou 0-0).

"Na altura tínhamos uma linha boa, de primeira", diz Pepe, um dos raros sobreviventes dos verdes anos do Lusitano e autor de um dos golos na primeira vitória dos eborenses sobre o FC Porto (3-0, em 1952-53). As doces memórias desses tempos, em que a equipa rondava os lugares cimeiros [foi 5.ª em 1956-57] e "tudo era bom", não desapareceram com o adeus precoce do extremo ao futebol -"aos 25, 26 anos, para ajudar o pai" na indústria da cortiça, desgostoso por ter sido chamado à seleção nacional (para um particular com a Argentina) mas ter ficado do banco.

No entanto, o antigo futebolista - que vai hoje ao Restelo na companhia de um dirigente do clube - não acredita em regressos ao passado. "Agora, [o Lusitano ]é rapaziada que perde com grupos mais pequenos: não vão conseguir fazer frente ao FC Porto", perspetiva Pepe.

Voltar à 1ª divisão em 8 ou 13 anos

Ainda assim, numa região ausente há 16 anos das ligas profissionais e com escassa representação (Castrense, Elétrico, Estrela de Vendas Novas e Moura) nos campeonatos nacionais, o Lusitano vai tentando honrar a história e o velho lema "fazer forte [a] fraca gente". "Quando olhamos para um clube que continua a ser o maior do Alentejo em número de atletas, de instalações e de equipas [dos escalões jovens] nos nacionais e que agora pretende recuperar a força dos seniores, após as crises que sofreu", é sinal de que está bem vivo, sublinha o presidente da SAD (Sociedade Anónima Desportiva) do emblema eborense, Nuno Madeira Rodrigues.

A SAD foi criada em 2016 com o objetivo de "voltar a pôr o Lusitano na 1.ª divisão, no prazo de 8 a 13 anos", após a consolidação e crescimento gradual da instituição. Afinal, "se há clube alentejano que pode fazê-lo [chegar à I Liga], pela história e marca que tem, é o Lusitano. Não há outro no interior que tenha a capacidade de congregar tantas pessoas e empresas, apesar das dificuldades por que passou: conseguimos levar mil, duas mil ou até 3500 pessoas ao estádio, como aconteceu neste ano na final da Taça Distrital", sublinha Madeira Rodrigues.

Ainda assim, a caminhada da redenção ainda está no início. O Lusitano é simplesmente uma equipa amadora, "composta por jogadores saídos da formação, que ganham poucas centenas de euros, completada com homens com uma experiência assinalável, como Hélder Cabral" [que passou largos anos na I Liga e venceu a Taça de Portugal pela Académica em 2012], descreve o líder da SAD. Estão no 7.º lugar da Divisão Elite distrital de Évora, liderada pelo arquirrival Juventude. E nem sequer reuniram condições para receber em casa própria - o velhinho Campo Estrela - o FC Porto.

"Há um grande amargo de boca, um sentimento de perda para todos os alentejanos, que gostariam de ver um grande jogar em Évora, mais de meio século depois. Mas se não há condições [de segurança, acessos e transmissão televisiva] devemos respeitar a lei. Como os demais campos de Évora sofrem do mesmo problema e sair do distrito, para Beja ou Portalegre, carecia do apoio do FC Porto, acabámos por escolher o Restelo", explica o dirigente, desmentindo que a escolha tenha sido motivada por razões financeiras.

"Se fosse por esse motivo teríamos escolhido jogar no Bessa ou em Vila do Conde, onde seguramente teríamos uma receita maior. Escolhemos a opção mais próxima, para levar a este jogo único o maior número possível de adeptos - a quem asseguramos o transporte", acrescenta Madeira Rodrigues, esperando que o mediatismo da partida, que "devolveu o Lusitano às páginas dos jornais", sirva para "sensibilizar o país para a necessidade de desenvolvimento de infraestrutuas desportivas no interior".

Quanto ao encontro desta noite, o presidente garante que a equipa orientada por Duarte Machado (antigo jogador do Belenenses, que em março passou de administrador da SAD a treinador) "joga sempre para ganhar, com bom futebol e em 4x3x3, e não vai mudar por enfrentar o FC Porto". "Que seja uma oportunidade única para os nossos rapazes: que o FC Porto tenha um dia mau e que eles se engrandeçam, como conseguem, para que a festa da Taça permita amenizar a tristeza de não jogarmos em casa", pede Madeira Rodrigues.

Se isso acontecer, o Lusitano até poderá fazer história (nunca uma equipa dos distritais eliminou um dos três grandes da Taça de Portugal). Mas, ainda assim, estará longe dos tempos áureos em que foi semifinalista da prova rainha do futebol português, 1952-53 e 1958-59: em ambas as ocasiões acabou afastado da final pelo FC Porto.

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