José Lourenço: "Movimento paralímpico está a crescer"

O presidente do Comité Paralímpico de Portugal está satisfeito com o aumento da verba concedida pelo governo, considera que o desporto adaptado está em "processo de afirmação", mas lamenta que os padrões de participação estejam aquém da média europeia.

Em termos globais, como está o ponto da situação do desporto paralímpico em Portugal?

O desporto paralímpico em Portugal continua num processo de afirmação e reconhecimento por parte da sociedade. Precisamos de mais pessoas para a prática desportiva, que saiam de casa e venham fazer desporto, de forma a que se possa aumentar a base de recrutamento para termos atletas de excelência, com o objetivo de Tóquio 2020 e depois de Paris 2024. Temos uma baixa participação de pessoas com deficiência e isso é algo que nos preocupa. Esta necessidade faz sentir-se tanto no género masculino como no feminino, mas é muito mais premente a descoberta de novos talentos no feminino.

Tem algum objetivo a nível de números?

Não gosto muito de lidar com números, porque por vezes atraiçoam-nos, mas o objetivo passa por atingir padrões de participação ao nível da Europa, algo que neste momento estamos muito aquém. Ainda importa desconstruir a forma com que olhamos para as pessoas com deficiência, nomeadamente os jovens, o nosso alvo. Quando falamos de pessoas com deficiência, não falamos de pessoas doentes. Não queremos pessoas doentes a praticar desporto, apenas pessoas com deficiência, que se calhar são mais saudáveis do que pessoas sem deficiência que não praticam desporto. É possível uma pessoa com deficiência fazer remo, canoagem, atletismo, boccia, voleibol sentado, andebol e basquetebol em cadeira de rodas...

O que está a ser feito em termos de recrutamento?

Isto passa por divulgar e tentarmos chegar junto das pessoas, e envolve federações, autarquias e centros de saúde. Isto também é uma luta contra o sedentarismo.

Em dezembro, o Governo aumentou a verba do Comité Paralímpico de Portugal (CPP) em 82 por cento, cifrando-se agora em mais de 6,9 milhões de euros. Está satisfeito?

É óbvio que sim, é um aumento significativo, que tem como objetivo aumentar os valores de preparação e as bolsas dos atletas. Tivemos um aumento de 82%, mas também é preciso saber de onde vimos. Demos um passo muito importante rumo ao objetivo de equidade que desejamos entre paralímpicos e olímpicos. Estamos mais perto, claramente. Se tivemos um aumento de 3,8 para 6,6 milhões de euros a quatro anos, obviamente que estamos mais perto.

Como estão as condições de trabalho dos atletas que têm o objetivo de estar em Tóquio 2020?

A maioria das modalidades desportivas estão integradas nas respetivas federações. Mas com este novo contrato-programa, é normal que haja mais possibilidades de estágio e de contactos com outras realidades internacionais.

Com estas melhorias, aumenta a pressão para Tóquio ao nível de número de participantes e medalheiro?

Não sei... como acredito que os atletas já davam o seu melhor, embora pudessem não ter as mesmas oportunidades de outros, acredito que vão continuar com a mesma dedicação e o mesmo empenho, mas que terão condições de preparação diferentes. Vamos imaginar: se o valor para um atleta dava para participar em apenas uma competição internacional por ano, agora poderá ter a possibilidade de participar em duas ou três, é óbvio que logo aqui haverá condições de participação diferentes. Não sei se os atletas se sintam mais pressionados. Espero que não, porque não creio que ganhemos aí qualquer tipo de vantagem.

Quais são as suas expetativas para Tóquio? Em 2016, no Rio de Janeiro, a comitiva incluiu 37 atletas e conquistou quatro medalhas...

Temos que ter algum cuidado com esses dados, porque a missão inicial para o Rio tinha apenas 28 atletas. Depois, beneficiámos da situação do doping da Rússia à última hora e ganhámos uma quota de mais nove atletas. O nosso ponto de referência tem de ser os 28, mas temos que ter a noção de que a média de idades da comitiva que esteve no Rio era de 34 anos, pelo que é natural que alguns dos atletas que estiveram no Rio não vão estar em Tóquio. Acredito também que os critérios de qualificação para Tóquio serão mais apertados, porque o movimento paralímpico está em crescendo. Se atingirmos o mesmo número, ficarei muito satisfeito.

Qual tem sido a obra do CPP nos últimos anos?

A obra principal é este processo de afirmação e de contribuir para a inclusão dos atletas com deficiência nas respetivas federações, e colaborar nesse processo. Hoje, as instituições reconhecem o papel importante do CPP.

Portugal tem 92 medalhas paralímpicas, das quais 53 no atletismo e 26 no boccia. São estas as nossas grandes especialidades?

São as modalidades que mais possibilidades têm tido de se afirmar no panorama internacional. Liderámos o boccia a nível mundial durante muitos anos, mas neste momento já não temos esse domínio, devido a este crescimento global do movimento paralímpico que se acentuou a partir de Pequim (2008). O sucesso de Portugal nessas modalidades justifica-se por alguma especialização, pela capacidade dos responsáveis por estas modalidades recrutarem os melhores e porque a base de recrutamento é muito maior. Neste momento, no projeto paralímpico para Tóquio, temos 21 atletas do atletismo e 13 de boccia, em 41 atletas. Precisamos de alargar a base de recrutamento em todas as modalidades.

Entre esta sexta-feira e sábado, vai realizar-se o Congresso do CPP, em Braga, com o tema "Impactos e Desafios da Inclusão Desportiva". No que vai consistir?

Quando o CPP começou, tinha duas modalidades. Houve a passagem, durante estes quase nove anos, de muitas modalidades da esfera da Federação Portuguesa de Pessoas com Deficiência para as respetivas federações de modalidades. É um processo de inclusão que não está concluído, mas que está muito avançado, mas que não está livre de erros. Faz sentido que as diversas entidades e indivíduos envolvidos neste fenómeno façam uma análise e que se possa tirar algum tipo de conclusões. Isso vai ser feito por treinadores, atletas, dirigentes e pela academia, para que possamos melhorar. Vamos ter painéis muito interessantes, em que vão ser debatidas as condições de financiamento, partilha de experiências por parte dos técnicos e a classificação desportiva.

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